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21.3.15

A Doxa Esotérica de uma mulher num mundo misógino de homens poderosos

Plotino
Plotino defendia um estilo de vida asceta, entregando-se às práticas espirituais, levando uma vida contemplativa com mortificação dos sentidos, preconizando uma moral sã e uma vida irrepreensível, com dieta vegetariana, redução das horas de sono e celibato. Os seus ensinamentos estruturavam-se para dois níveis de ouvintes: a doxa esotérica, confiada a uma elite de iniciados, e o discurso exotérico dirigido ao público em geral. No que toca às mulheres, repudiou a filosofia de Aristóteles, usando como modelos os ideais de Pitágoras. Plotino acolheu na sua academia uma diversidade de interessados não procedendo a qualquer distinção entre homens e mulheres, atribuindo a todos o mesmo grau de interesse, capacidade, oportunidade e igualdade. Talvez a inexistência desta distinção se deva à mitologia grega que, por oposição ao cristianismo, não considerava a mulher nascida de uma costela do homem, nem a considerava culpada das tentações do demónio ou a provocadora de uma inoportuna dentada. Na mitologia grega, homens e mulheres surgem das pedras da Terra. Eles das pedras de Deucalião. Elas das pedras de Pirra. E mesmo na disputa dos Deuses, para padroeiro de Atenas, conta a lenda que Nepturno perdeu por um voto para Minerva. Irritado, o deus vingador elevou os mares e lançou vagas gigantescas contra a cidade de Atenas. Para evitar a destruição, e apaziguar o deus descontrolado, as mulheres sábias aceitaram três castigos que acabariam por ceifar parte da sua cidadania: perderiam o direito a voto, nenhum filho poderia ter o nome da mãe e ninguém as chamaria de atenienses. A liberdade, inicialmente celebrada, transformou-se numa submissão quer ao homem quer à sociedade em geral.
Nepturno
Acossados no seu orgulho, por vezes os deuses, confrontados com uma verdade inconveniente, refugiam-se, mais do que o simples mortal, em poses misóginas. Revoltar os mares, virar costas ao diálogo, bater estrondosamente com a porta ou desprezar os atrevimentos das adversárias, são a forma de esconder o medo e o temor que se refugiam por detrás de um olhar cheio de ondas. 
Nas sociedades misógenas, as mulheres que se atrevem são demonizadas pelo grupo do patriarcado burlesco que continua a coloca-las numa condição subordinada, alvo de piadas vexatórias ou eróticas, com desdém pelo corpo e pelo sexo, pelas opções e filosofias de vida próprias, pelos gostos, pelo conflito entre o amor e  a ternura das mulheres. Nas sociedades misóginas, o clã masculino adoptou, na sua concepção ideal, o transtorno psíquico de Aristóteles, hoje com explicações freudianas, quando afirmava  que "as mulheres eram deformidades naturais…" 
Para se assumir, Nepturno não consegue deixar de reivindicar os poderes que possui e sobre os quais havia mantido segredo. Essa, é uma das formas de tornar o seu orgulho ferido menos visível, mais acutilante, ceifando os atrevimentos adversos, circunscrevendo as mulheres de Atenas a uma nova condição, talvez porque estas compreenderam que, na fragilidade e no temor do seu olhar, Nepturno, afinal, tinha um poder incomensurável sobre o mar que, desde sempre, lhe enchia as duas mãos. CRV©2015

2.6.14

Orwell: quando os animais já não distinguem os porcos dos homens

Ao princípio da noite vieram dizer-lhe que fosse buscar a filha e a sobrinha, ao cimo do monte, pois encontravam-se lá enforcadas numa árvore. A notícia, aberrante, dirigida a um pai integrado numa casta indigente, repugna não tanto pelo crime da violação, em si mesmo vil e asqueroso, mas porque em surdina se percebe a conformação masoquista pela condição pobre e desprotegida de gente que não merece o transtorno da procura e aplicação da justiça sobre os prevaricadores criminosos. E isso, leva-nos aquela concepção confusa do poder orwelliano quando a determinada altura os animais já não conseguem distinguir os porcos dos homens. 

Freud explicaria esta prepotência com a figura do direito romano "Jus utendi et abutendi", ou seja, usar e abusar do outro, com o direito de consumir e de destruir o que me pertence. Só que "o que me pertence" não é encarado numa perspectiva individualista de auto-gestão dos sentimentos ou dos gozos e bens pessoais. O gozo aqui, reintroduz a dimensão "do outro". Da pessoa considerada inferior, desprotegida e em desigualdade numérica que proporciona ao grupo de violadores o teatro sádico que visa aniquilar todos os enigmas da vítima, subjugando-a e torturando-a, visando com o seu sofrimento elevar a histeria colectiva dos perpetradores ao êxtase. Freud explicaria a questão primordial destes crimes de violência sexual e psicológica com a adopção de uma postura possessiva de gozo e destruição. O sádico, com um misterioso funcionamento psíquico, que retira do sofrimento alheio a prepotência e o domínio do masoquista em deter o poder de infligir o sofrimento, cessando-o quando bem entender, transforma o gozo de destruição da vítima em ruptura ou arrombamento do corpo, quer ao nível da composição psíquica do crime quer sob o ponto de vista da representação da angustia que lhe promove e que lhe devolve uma larga satisfação. 

Freud acabaria por rotular estes comportamentos no "Manuscrito M", em 1897, categorizando os autores destas práticas como tendo em comum um recalcamento do feminino. A dor e a angústia infligidas "ao outro" não são mais do que "a repetição de uma primeira experiência de prazer negativa que potenciou um prazer mortífero no qual se perde a noção dos limites corporais" satisfazendo-se com a postura de organizador de um culto de horror. No caso das jovens indianas, o gozo sádico até à sua morte teve, certamente, subjacente a perversão da dor, como última forma patológica de excitação, num conjunto de homens com manifesta ausência das correctas representações sexuais e sociais de compaixão e afecto.

21.4.14

Ressurreição

"Não era a morte porque me levantei e os mortos jaziam no chão" -Emily Dickinson

A cadeira no palanque sugeria um dos cenários minimalistas de Beckett quando um adereço transforma o proscénio numa janela aberta, e a actuação faz-se de gestos e falas onde a alma das personagens é um conglomerado de civilizações presentes e passadas, fragmentos de livros, bocado de homens, farrapos da desgraça humana. 
Neste caso, o palco era cenário da execução de um homem condenado, por homicídio qualificado, num sistema judicial baseado numa ética religiosa medieval, onde a justiça praticada tem subjacente a regra de ouro, "olho por olho, dente por dente" sempre que são violados princípios fundamentais do Corão universais à dignidade humana. No cenário, a cadeira serve de cadafalso e os familiares da vítima são convidados a participarem naquilo que se transforma num acto de justiça directa, com o dramatismo das execuções públicas, onde a angustia do condenado serve de regozijo e distracção do público que se amontoa para o momento sublime que culminará na colocação do laço da forca, na subida forçada para a cadeira e no pontapé que os familiares da vitima irão dar, de modo a executar a sentença. 
A notícia nada teria de extraordinária não fosse o mise en scène ter sofrido no último minuto um vole de face, quando o homicida já se encontrava enlaçado, contorcendo-se sem vergonha ou dignidade, apelando pela vida, depois de ter esventrado e assassinado um jovem, descurando a dor e a destruição que promoveu noutras vidas. 
Quando nesta Páscoa, ouvi falar em ressuscitar, nada me pareceu mais apropriado do que recordar o episódio desta mãe que, em nome do perdão e da compaixão, dá ao mundo uma lição da providência divina. Conta que o seu filho lhe apareceu num sonho rogando pela vida do assassino. Disse que se encontrava bem, num local tranquilo, pelo que nada se ganhava em vingar a sua morte, com outra vida. Suspendendo a execução no último minuto, esbofeteia o homicida e liberta-o dos laços do destino.Perdoar não é esquecer, nem vem acompanhado com qualquer expectativa de compensação. Perdoar constitui sempre o alívio de nos livrarmos de um peso excessivo, para o qual em nada contribuímos, nunca constituindo a raiva ou o rancor uma mais valia para a nossa própria reconciliação. Por isso as imagens divulgadas tiveram aquele efeito de câmara clara, introduzindo-nos naquele tilt de Beaudelaire em que as contradições e os sentimentos intensos revelam "a verdade enfática dos grandes momentos da vida".
Ressuscitar conforme as Escrituras, tem subjacente o percurso do Calvário e das estações do martírio. Ressuscitar para este homem, teve certamente subjacente a aprendizagem de uma nova oportunidade, de se reconciliar com a vida. Fotogr. Arash Khamooshi /Isna

20.7.13

Rolling DICE

São recentes as memórias da explosão, dos cadáveres pelo chão, dos corpos mutilados, dos rostos ensanguentados, da confusão, dos gritos e das bandeiras americanas presas nas mãos de quem aguardava o final de uma corrida que acabou por estilhaçar todas as metas, no ódio de um fundamentalismo, com uma visão distorcida da razão. 

Numa manobra de marketing controversa, a Rolling Stone conseguiu captar a atenção dos orgãos de comunicacão social americanos e do público em geral, com a decisão de protagonizar na sua capa de Agosto o bombista de Boston, Dzhokhar Tsaamaev. Não pondo em causa a liberdade de imprensa e a utilidade da reportagem no seu interior, - que traça a biografia de Tsaamaev, procurando encontrar a origem do inexplicável - a questão que se coloca, e que consternou grande parte da sociedade americana, foi a forma como se exaltou uma recordação inútil, perturbadora da realidade, estampando a face do terror num lugar reservado à idolatria de alguns elementos da música internacional. 
Comparado a Jim Morrison, pela expressão suspensa e o rasgo cândido no olhar, o povo americano rejeitou, veementemente, a recordação do sádico que veio ensombrar a cidade, personificando o mal e o desconforto entre a sua população. 
A solidariedade social, gerada em torno das famílias das vítimas, apelou ao boicote das distribuidoras que responderam prontamente inviabilizando a sua divulgação. 

Curioso é que, em Maio passado, a mesma fotografia de Tsaamaev foi capa da Time não havendo qualquer boicote ou reacção a assinalar. Se esta foi uma manobra de marketing da Rolling Stone, procurando tirar dividendos de um amargo cinzento constrangedor, o mercado, com as suas leis gerais e abstratas, ditou e bem, que há temas que mais vale dissecar pela sombra.


3.12.12

Sobrevir

"Acorrentarás a minha perna, mas não a minha vontade" ; " Sê como a pedra e serás invulnerável" 
- Epicteto

Albert Camus
Quando Camus considerou que a vida "era uma estrada que se segue com facilidade a maior parte do tempo" não excepcionou as antípodas dantescas onde se pronunciam o céu, por remissão à felicidade que lhe está alienada ou o inferno, ligado à tragédia absoluta associada.

Os extremos, são essas apoteoses que desconcertam a estrada fácil que se trilha por maioria. Todos aspiramos, como o hominis volunt, a viver uma vida tranquila, imperturbada por obstáculos e tempestades que pesam na caminhada como uma cruz agriolhada à esperança. Para nos afastarmos dessa persona indesejada, que geralmente se instala no hemisfério das nostalgias e incertezas, recorremos, tal como Epicteto, à vontade, accionando o antídoto de desvalorização da realidade incómoda que nos afasta do bem-estar, da paz e da tranquilidade desejada. 

Schindler's List
Mas, para lá das constrições gerais, há existências que transportam em si uma fatalidade que balança entre aqueles axiomas pavesianos que anunciam que pior do que nascer é ter a capacidade de sobreviver. E, quando isso acontece, para acabar de vez com qualquer hipótese de esperança, ao sobrevir impõem-se, categoricamente, que sucumba jovem. Como refere George Steiner, este é o modelo do "absolutamente trágico" que nos conduz àqueles homens e mulheres que durante a História surgiram como intrusos indesejáveis da criação. Por isso mesmo, a sua condição predestinada empurrou-os, naturalmente, para o abismo dos sofrimentos e reveses arbitrários, onde todos os passos involuntários são agonias e rejeições inevitáveis devendo, consequentemente, ser liminarmente excluídos como um empecilho no processo omnisciente da selecção natural. 
No Holocausto, judeus, ciganos, deficientes e outros tantos rostos invisíveis proscritos, desafiaram os canônes sociais. Nascer, teria predestinado o encontro inevitável com a tortura e a morte, residindo a aniquilação dos indesejáveis numa purga social que refinava os padrões dos sectores eleitos. 

Confesso que sempre me causou alguma perplexidade o conformismo e a passividade das franjas sociais resignadas com a negação da sua existência, com a marginalização kafkiana em massa, com a aceitação tranquila do abismo, como se o seu destino estivesse intimamente ligado ao niilismo suicida da negação da existência e ao inevitável encontro com o silêncio e a morte. Se pensarmos nos 6 milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial é inevitável interrogarmo-nos porque não ocorreram revoltas significativas, tomadas de poder pelas armas, fugas temerárias, assaltos arrojados aos bastiões dos culpados. Todo o percurso foi marcado por uma lassidão de actos inertes, uma postura apática, maquinal, em direcção a um zenite inevitavelmente trágico. 
Sobrevir à morte, ao "puro nada" é uma astúcia da vida para aqueles seres em que o destino continua a ter uma importância infinita. Decidir do nosso trilho, passa a constituir um imperativo categórico na contingência mais radical do ser, coincidente com o momento em que a consciência descobre que, para ela, a felicidade é uma plenitude que ainda deve compreender a expectativa e a promessa do devir.

12.11.12

Esperança - A esquiva mortal

"Já noite fechada, quando atravessava os bosques de regresso a casa, com a minha fiada de peixes e a vara de pescar a arrastar, vi de relance uma sorrateira marmota cruzando o caminho, e senti um frémito de prazer, estranho e selvagem, tentando-me fortemente para agarrá-la e devorá-la crua; não que eu tivesse fome naquela hora, mas desejava a selvejaria que ela representava. Acontece que uma ou duas vezes, quando vivia perto do lago, dei por mim a explorar os bosques num estranho abandono, como um cão de caça faminto em busca de algum veado para devorar. As cenas mais bárbaras tinham-se tornado incrivelmente familiares que para mim nenhum bocado de carne poderia ser demasiado selvagem." 
Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques 

Bullying
Tinha uma expressão angustiada, como um animal assustado que esperava a qualquer momento uma investida vinda do nada. Franzino, de silhueta ultrapassada, era o mais pequeno da turma, por isso procurava protecção junto de dois mais altos que lhe prometiam algum conforto, na infinita jornada diária. Tinha o cabelo castanho, com jeitos ondulados, que lhe pendia desde um risco ao meio, dando à sua cara ovalada um ar de desespero infantil. Os olhos, castanhos avelã, ficavam frequentemente enevoados, pela humidade das lágrimas presas que surgiam, numa aflição que não conseguia controlar. As mãos, pequenas, desapareciam por dentro das mangas compridas como se procurasse dentro de si uma dignidade desde há muito perdida e que pulsava ansiosa por voltar. Criado pelos avós, o Henrique envergava sempre um tipo de roupas desajustadas aos padrões selectivos do Colégio. Por todo o conjunto foi sendo marginalizado em crescendo. Depois humilhado. Por fim, agredido. Restavam-lhe dois colegas, os mais altos da turma, aqueles que considerava seus protectores. Mas nem sempre estavam por perto. 

Diariamente, arrastava-se para as aulas engolindo todas as chamas de alegria, cedendo a uma angústia que lhe doía no peito, como um tronco cravado sobre os ombros. 
Passava a maior parte do dia enroscado sobre si mesmo. Nas aulas, só falava quando interpelado e as respostas eram tímidas, movidas pelo pânico que a sua voz estilhaçada ferisse quem se encontrava em redor. Nos recreios, procurava sempre os recantos escuros de modo a evitar que tropeçassem na sua sombra ambigua. Quando acontecia, tudo parecia iniciar-se como uma brincadeira inocente. 
Aos primeiros empurrões, vindos não se sabe de onde, seguiam-se as rasteiras, as quedas, o levantar, o voltar a cair, o pontapear, o furto da pasta, o despejar do seu conteúdo no lixo, o dinheiro que desaparecia, o saldo do telemóvel que acabava, as mensagens agressivas, a escuta das conversas, a leitura das mensagens particulares, a tortura gratuita, a gravação dos gritos, a audição e o riso sádico, a hostilidade permanente, o sadismo, os bicos do compasso nos braços e nas pernas, a armadilha, o caos, a memória lamacenta, a dor, o sofrimento, a solidão. 

A secura da boca dizia-lhe que a frescura da tarde se tinha transformado num naufrágio sem regresso. O seu destino estava, irremediavelmente, condicionado pela lei iníqua que o rodeava, adoptada pela maioria, como uma traição à sociabilidade natural. Na escola, a opressão dos colegas obedecia a uma estratégia destrutiva. Para ele, para o seu pequeno mundo, convergiam todas as aflições dos oprimidos, sendo-lhe insuportável a postura de indiferença que lhe era pedida, o heroísmo atribuído, a conformação com a exclusão, a complacente aceitação da humilhação. 

Certo dia, acordou com as mãos húmidas. Tremiam-lhe os dedos e o seu corpo era um palco de emoções controversas. Respirava com dificuldade, sem saber se era do frio ou da pressão que desde há muito sentia mas que agora o abandonava como um peso que lhe tiravam de cima. Acordou transfigurado. Como uma personagem de um acto predestinado. Como se tivesse passado por uma metamorfose ou vencido uma luta, trágica, subtil. Arranjou-se e efectuou o percurso até à escola. Quando aí chegou, determinado, sem angústias nem desassossegos, liberto de todas as temáticas de exclusão, segurou o telemóvel e digitalizou uma mensagem aos dois colegas mais próximos: 

- " Fiz o favor de facilitar o caminho da esperança". 
Esse, foi o primeiro dia do Henrique na escola nova.

10.1.12

George Steiner e o tríptico social


George Steiner
Alfred Dreyfus, judeu, oficial de artilharia do exercito francês, foi acusado de vender informações aos alemães, sendo condenado por alta traição, a prisão perpétua , num processo onde as provas foram forjadas, a verdade intencionalmente omitida, o erro judicial xenofobicamente ignorado. Dreyfus, foi levado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde permaneceu 5 anos, até o seu irmão ter reunido provas para relançar um segundo julgamento que iria promover a sua absolvição, repondo a verdade dos factos.

É recorrente, entre os autores que vou lendo, o recurso ao caso Dreyfus como um marco apoteótico que pôs a descoberto as fragilidades e as cisões ideológicas que estão subjacentes na sociedade europeia. Li essa abordagem em Hanna Arendt, quando expõe, na óptica do totalitarismo, um nacionalismo católico francês que considerou Dreyfus como um intruso, um traidor virulento, representativo da odiada tradição judaica, escolhido para o sacrifício de todos os ódios acumulados na sociedade francesa. Voltei a ler em Borges, relativamente à discórdia entre Ramon Fernándes e Julien Benda, filósofo francês, que se insurgiu em defesa de Dreyfus, mas que rejeitou o modo como foi amnistiada a pena, considerando a solução um subterfúgio que apenas contornou o modo correcto de aplicação da justiça.

E, agora, com George Steiner, leio um ensaio, interessantíssimo, sobre os tabus étnicos, das sociedades modernas, expondo, novamente, o caso Dreyfus e o nacionalismo alemão como balões de ensaio de um xenofobismo latente. Raça, religião e nacionalidade, constituem o tríptico insolúvel que está na génese do rastilho de pólvora que tem ateado manifestações, num quadro europeu etnicamente desavindo. Steiner, integra os migrantes, em grupos étnicos flutuantes que dificilmente conseguem criar raízes fora do seu estado de origem. São os Luftmenschen, do sistema alemão. Os cidadãos etnicamente agrupados, que geram comunidades no estrangeiro, voltadas sobre si mesmas, mas desintegradas da polis que adoptam e habitam.

Desde a II Guerra Mundial, o mundo tem assistido a um crescendo das burocracias de exclusão. Afastamo-nos, cada vez mais, do utupismo de Moore e de McLuhan. Os tempos são revivalistas de um nacionalismo segmentário e de um tribalismo sem precedentes. Os ódios raciais, adquiriram outra valência de xenofobia intolerante, com massacres tribais e o emparelhamento sectário das minorias étnicas e religiosas de muitos países. Vejam-se as tentativas de extermínio de comunidades inteiras. Os tootsies, os arménios, os curdos, os tibetanos, os magrebinos, os palestinianos. O ressurgimento das controvérsias étnicas, tornou-se uma banalidade tolerada pela comunidade internacional. “Somos todos hóspedes deste planeta, em partes iguais. Fiéis depositários de um espaço para sobreviver”. Procuramos, por isso, circundar-nos de um espaço justo, agradável, onde a paz e a tranquilidade preponderem a maior parte do tempo. Só que a realidade mostra-nos, recorrentemente, o contrário. Como refere Steiner: "a sociedade é feita à imagem do livro de Josué, violenta e cruel , determinando-se, diariamente, quais serão os lenhadores e os carregadores de água”. Cumprirá a todos zelar pelo justo equilíbrio de forças, preterindo as sociedades segmentárias em prol daquelas que promovam uma integração mais justa. A opção, caberá a cada um de nós, na noção perfeita que o homem não é um animal solitário, sendo legítimo o desejo de criar raízes junto daqueles que melhor respeitem as nossas liberdades individuais e o nosso direito à vida.

8.1.12

Clint Eastwood em modo sedutor

Sempre gostei de homens que não usam subterfúgios para dizerem aquilo que pensam. Nem temem mostrar os pormenores do rosto, permitindo-nos seguir os pequenos detalhes que nos fazem viajar pelas suas linhas do pensamento. Não me recordo, qual foi o último actor que foi capa de revista e rejeitou o Photoshop de modo a convertê-lo num homem mais sagaz, de pele lisa e macia, esbatendo as rugas que lhe enriquecem a cara e a sabedoria. Mas, Clint Eastwood sempre foi diferente. Por isso sempre mereceu o meu respeito como actor e, posteriormente, como realizador. Capa da revista M, um suplemento do "Le Monde", Clint recusou a estratégia do disfarce, revelando, num acto de pura sedução, a beleza do contorno da face, as perfeições do  tempo, a introspecção do olhar, a poesia inteligível de que é feito um rosto, sem escoras que retroceda artificialmente a outros tempos. Não há nada mais sedutor.

3.1.12

Uma sombra chamada Sónia

O seu nome era Sónia. Sónia, como uma sombra. Uma sombra esguia, apagada, cabelos pretos, curtos e crespos, olhos pequenos, que se moviam rápidos como os de um cameleão, sempre a perscrutarem com receio as esquinas da insatisfação da vida. Os óculos também eram pouco atraentes. Contornavam-lhe a face marcada pelo acne e das tristezas da vida. Trajava sempre roupa antiquada, desadequada para os dias de hoje. Cada vez que a via, recordava-me os anos oitenta. Numa altura em que as freiras do meu Colégio queriam acompanhar os tempos revolucionários, dos precs e das manifestações partidárias, introduzindo a revolução no convento, quando decidiram trocar o hábito religioso por roupas mais desempoeiradas. Recordo que as mudanças não trouxeram nada de novo, às súplicas religiosas, pois a fisionomia traía-lhes sempre a carne imaculada que se escondia por baixo do espírito. A pose da Sónia, estava contagiada pela poliomielite. Em pequena, a doença tinha-lhe ceifado a articulação do lado direito do corpo tentando, como uma torre de Piza, disfarçar essa ambiguidade no andar contrariando a inclinação que, como um pêndulo, lhe empurrava o corpo para o lado errado do tempo. Passava por mim como uma floresta densa de emoções, agarrando os maços de correspondência que tinha para distribuir pelos gabinetes. A simpatia, ficava-lhe sempre presa entre um sorriso tímido, esboçado quase em ar de súplica que mal lhe deixava ver os dentes brancos por detrás de uns lábios finos. O aceno de cabeça reflectia uma saudação brusca, envergonhada, mas cordial. Articulava muito poucas palavras. As indispensáveis quando interpelada e, mesmo assim, sempre com receio que alguma coisa a agredisse. Acreditei sempre que se escondia por detrás de si mesma numa daquela paredes duplas que escondem as almas doridas num paradoxo inexpugnável de alguma dimensão desconhecida. Trabalhamos anos seguidos, rodeados por pessoas assim. Pessoas que são meras sombras, que nunca chegam a desenhar o arco-íris quando passam, nem lançam estrelas quando falam, numa apologia de despojamento que nos comove. Na verdade, só reparamos na sua ausência quando algo de trágico acontece e sentimos que todas as gotas do universo convergem como balas enfurecidas para o momento em que nos apercebemos. Vivemos e trabalhamos tão próximos de algumas pessoas mas, na realidade, tão distantes. É como se existissem outros universos e outras dimensões onde vagueiam seres diferentes que, por qualquer razão inexplicável, nunca realmente se cruzam. Fluxos que se ficam pelas fronteiras silenciosas do relacionamento interpessoal, ausentes, apenas cedendo aos caprichos das ritualizações. Poses quase metafísicas, como Emmanuel Lavinas lhes chamou, livres dos enredos das relações sociais e da intencionalidade de toda a participação social e humana. É curioso, que a entrada de um ano novo transporta-nos sempre uma carga de expectativas e desejos que não são mais do que as privações do ano anterior. No entanto, em relação a algumas pessoas essa tensão ficará irremediavelmente adiada. Por motivos trágicos. Subsistirá, apenas, a ausência de um ritual. Mero artifício, praticado por uma sombra, que nunca teve peso na respiração do tempo.

27.12.11

Natal no Ultramar

A história dos meus natais tem sido generosa, com todas aqueles adjectivos que a tornam numa celebração tranquila e em família. Apesar de dispensar qualquer tipo de presentes, a minha filha, sabendo o gosto que tenho nos meus blogues, ofereceu-me um livro de Saramago, que não é mais do que a compilação das crónicas do seu blog. Não tardei a lê-las e foi quando me deparei com uma, “Homem Novo”, que me recordei de um Natal, quando era pequena. Por esses dias, sem computadores ou telemóveis, o volume de correspondência que recebíamos em casa era significativo. Aguardava sempre o carteiro com entusiasmo. Gostava de ajudar a abrir as cartas para depois as espalhar pelas prateleiras do escritório, tendo sempre carta branca na decoração. Mas houve um Natal diferente. Recordo-me que chegou às minhas mãos uma carta estranha. Era branca, pequena, mais pequena que todas as outras, contornada a preto. O meu pai abriu-a e ficou imobilizado a olhar fixamente para a caligrafia preta, barroca, diferente da escrita escorreita dos postais coloridos que anunciavam os votos de festas felizes. Questionei o que se passava e disseram-me, com pesar, que anunciava a morte do filho de uns amigos. Corria por esses dias a guerra colonial e, com o passar dos meses, o volume de baixas tornava comum haver sempre alguém que conhecia uma família que tinha perdido um dos seus jovens no ultramar. Naquele tempo, lembro-me que estávamos preparados para a guerra. Enfrentavam-se as adversidades do destino com um conformismo que hoje espantaria qualquer incauto. As famílias torneavam-se sobre si mesmas na esperança de paz. Procurava-se o silêncio debaixo de um céu infinito. Aguardava-se em suspenso o regresso dos que para lá estavam a defender uma causa que pouco importava se era justa ou não. O que a guerra sempre promete é que é apenas uma passagem no tempo para a paz. Como Saramago escreve: ”ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz". Talvez seja esse o argumento que permita, em todo o mundo, que continue a ser possível, em nome da guerra, destruir homens nas suas casas, sempre em nome de uma "melhor" paz.

23.12.11

Private Clubs

On ne naît pas femme: on le deviant.
Simone de Beauvoir, Le Deuxième sexe, II p. 13

Não pude deixar de sentir a mais profunda indignação quando li à dias a notícia macabra de um homem que mutilou os dedos da mão direita da sua mulher pela simples razão de esta pretender prosseguir estudos superiores. Os factos ocorreram no Bangledesh, país integrado no rótulo terceiro mundista, mas que, no seu historial, não se caracteriza pela violação dos direito das mulheres, nem por atentados às liberdades individuais. O acto tresloucado será, sem sombra de dúvida, manifestamente isolado, mas contém em si mesmo uma metáfora, uma transgressão singular típica do velho mundo, o tal “tour de force” de oposição à natureza e ao inevitável movimento do progresso. "Não se trata apenas, como pretende Simone de Beauvoir, de uma questão entre a biologia - a natureza de ser mulher - e a psicologia - a questão cultural da mulher na sociedade -. Aqui, trata-se sempre do mito da castração e das suas consequências traumáticas com o masculino". Trata-se de um confronto sexual subconsciente e latente, subversivo, inerente ao modo como estas duas transcendências – feminina e masculina – são encaradas. Ao invés de se reconhecerem mutuamente, cada acto libertador tem sempre subjacente a vontade de procurar dominar o outro. No fundo, foi a tudo isto que se denominou a guerra dos sexos. Há ainda quem a ache apelativa e a cultive pelo simples facto de alguns homens não se conseguirem desligar do espírito primevo da moca e da desconstrução da personalidade igualitária da mulher. Resta-nos esperar pela evolução das sociedades masculinizadas que, à semelhança dos “british private clubs for gentlemen”, mais tarde ou mais cedo confrontam-se com uma mulher audaz que não necessita de pedir licença para promover a necessária evolução darwiniana num conjunto de mentes fossilizadas.

7.12.11

Stuart MIll - A sujeição das mulheres

Fra Angelico - Noli me tangere - 1440/1
Não sei se a subjugação das mulheres, numa sociedade essencialmente masculinizada não terá surgido com o mito cristão, criado à volta do momento do renascimento de Jesus Cristo, quando este se dirigiu à primeira pessoa que o reconheceu e lhe disse “Noli me tangere”. O curioso é que, segundo contam as escrituras, poucos momentos depois de Maria Madalena ter sido impedida de comprovar a ressusseição do Senhor, ao que parece, foi o próprio Jesus Cristo que sugeriu a Tomé que lhe colocasse as mãos nas feridas de modo a exortar o seu regresso à Terra. Apesar das interpretações das escrituras poderem ser diversas, em relação a estes episódios, o facto é que, estou convencida que o Cristianismo atribui, maioritariamente, em todos os Evangelhos, um papel submisso e secundário às mulheres, facto que as obrigou a um trabalho de afirmação faraónico ao longo da história. Contam-se pelos dedos as mulheres que tiveram papéis de relevo na história medieval e renascentista. A memória não é fértil em Joanas D’Arc, Elisabeth I, Catarinas da Rússia ou Terezas de Habsburgo. O papel da mulher foi relegado, ao longo da história, para segundo e terceiro plano, cabendo-lhe a posição do quarto dos fundos, qual barata kafkiana, remetida ao isolamento dos proscritos, apesar da lenda dizer que atrás de cada homem há sempre uma grande mulher. Por outro lado, poucos foram os homens iluminados que perceberam que projectar as “linhas de defesa da retaguarda”, só beneficiaria o todo social, criando aquilo a que Stuart Mill denominou no seu livro “The Subjection of Women” : “a possibilidade de duplicar o coeficiente de faculdades mentais disponíveis em proveito da humanidade”. Mill (1806-1873) foi um precursor admirável para o seu tempo, ao entender que a subjugação da mulher, ao sexo oposto, constituía um dos obstáculos ao progresso da humanidade, devendo ser-lhes proporcionadas as mesmas oportunidades e o livre uso das suas faculdades no que toca à livre escolha dos seus percursos pessoais e profissionais. Havia que revirar o palco das mentalidades, subvertendo teorias como aquelas que lemos nas criticas de Walter Besant, em 1897:

“A jovem de 1837 não consegue raciocinar acerca de nenhum assunto, qualquer que ele seja, devido à sua ignorância – como ela própria diria, por ser uma mulher. [...] Ser infantilmente ignorante; [...] não saber nada acerca de Arte, da História, da Ciência, da Literatura, da Política, da Sociologia, das Boas Maneiras – aos homens aprazia-lhes este estado de coisas, as mulheres tornavam-se submissas para agradar aos homens; a sua própria ignorância constituía um assunto de louvável orgulho para a mulher inglesa dos anos quarenta”.

Suart Mill defendia, estoicamente, que o ónus da prova deveria recair sobre os que advogavam restrições ou proibições à liberdade de acção humana, ou uma qualquer desqualificação ou disparidade de privilégios, cabendo a presunção à priori a favor da liberdade e da imparcialidade. E conclui que, "não deverão impor-se restrições que não sejam exigidas pelo bem comum, não devendo a lei descriminar as pessoas, mas sim tratá-las todas de igual forma, salvo quando o tratamento diferenciado ocorrer por motivações de justiça social ou políticas". Mill foi um visionário do equilíbrio social, um activista das mentalidades orwelianas da época que, por rivalidade ou preconceito, subestimavam a capacidade natural das mulheres, relegando-as para as tarefas pedagógico-familiares, inviabilizando-lhes o acesso ao conhecimento e aos mecanismos essenciais ao crescimento intelectual. Com o advento das duas Grandes Guerras o papel social da mulher seria catapultado para o lugar que lhe estava destinado, contudo, apesar do progresso, a conquista, ainda hoje é frequentemente efectuada a pulso, não sendo, em alguns sectores, muito diferente do que Mill preconizava: "...os indivíduos do sexo masculino têm acesso a todas as posições, honrarias e vantagens sociais. Por mais humildes que sejam as suas origens, têm apenas que se defrontar com obstáculos naturais, o mesmo já não se passa com as mulheres." que se vêm obrigadas a um crivo de prestação de provas intelectuais, facto que, só após a aprovação masculinizada do evento, terão a possibilidade, e a inolvidável honra, de acederem ao Gentleman's Corner.

3.12.11

Rosa Parks "THE mother of the civil rights movement"


Em 1 de Dezembro de 1955, a afro-americana Rosa Parks, recusou-se a obedecer às ordens do motorista do autocarro onde seguia, quando este lhe ordenou que desse o seu lugar a um passageiro branco. Rosa, negou-se a abandonar o seu lugar uma vez que o título de transporte que tinha adquirido era válido, o que lhe conferia o direito a permanecer sentada. Parks foi presa, julgada e condenada a pagar uma multa por desobediência, tendo recorrido da sentença, desafiando o próprio sistema legal instituído. Os factos, fizeram de Parks um mito, no seio do Movimento dos Direitos Cívicos norte americanos, vindo, em 1956, a ser abolidas as desigualdades nos sistemas de transporte dos Estados Unidos. A sua detenção, deu origem ao “Montegomery Bus Boycott”, que durou 381 dias, com enormes prejuízos para a companhia rodoviária da cidade, dado o boicote ser efectuado por 75% dos utilizadores habituais deste meio de transporte. Como Parks referiu nas suas memórias:

“When that white driver stepped back towards us, when he waved his hand and ordered us up and out your seats, I felt a determination cover my body like a quilt on a winter night.”

“People always say that I didn't give up my seat because I was tired, but that isn't true. I was not tired physically, or no more tired than I usually was at the end of a working day. I was not old, although some people have an image of me as being old then. I was forty-two. No, the only tired I was, was tired of giving in.”
Simbolicamente o episódio marca o início do movimento pela equidade dos direito cívicos norte americanos, numa comunidade segregada pela doutrina cínica da diferença sob a epígrafe de “separados mas iguais”. Rosa Parks foi a heroína da diferença, foi a testa de ferro da tranquilidade e da firmeza de carácter que não é susceptível às intimidações dos agentes opositores à mudança e à convergência na igualdade de oportunidades. As mulheres que fazem a diferença são mulheres simples como Rosa Parks, inspiradas nas doutrinas activistas de Luther King, Jr., encorajada pela necessidade de emancipação de uma comunidade descriminada, pelo tom da sua pele, por anos de segregação e uma história de violação e opressão dos direitos humanos. Rosa Parks era uma pessoa de bem. Certamente que teria dado o seu lugar, caso o branco em questão fosse uma grávida ou um deficiente. Invisual ou motor. Mas, na história, consta que esse não foi o caso.

8.11.11

A queda do Império Madoff

Foi, em Dezembro de 2008, após a denúncia do seu filho Mark, que o FBI reuniu provas concludentes que apontavam o envolvimento de “Bernie” Madoff, filantropo da comunidade judaica de Nova Iorque, na maior fraude financeira de todos os tempos. Madoff tinha sido até aí um dos impulsionadores da Bolsa, do desenvolvimento do NASDAQ e investidor de topo no mercado de activos financeiros novaiorquino. De um momento para o outro, o seu mundo ruiu. O seu filho Mark apontou-lhe publicamente o dedo, acusando-o de ter uma vida que era “one big lie”. Madoff durante anos atraíu investidores milionários do sector privado financeiro – bancos, fundações e organizações, trusts, advisor partners, entre outros. A todos promoveu operações financeiras especulativas, transformando as milionárias entradas de capital em mais valias fictícias que eram pagas a outros investidores como se de um lucro especulativo se tratasse. O esquema fraudulento, denominado de “Ponzi”, leva, inevitavelmente, à banca rota, sendo uma mera questão de tempo o momento em que começam a vir à superfície as primeiras bolhas burlentas, seja por falta de activos de capitais para suportar os juros inflaccionados, seja pela inevitável denúncia às entidades policiais por parte dos lesados. Madoff lesou, ao longo de duas décadas, milhares de investidores, levando à falência, ao desespero, ao suícidio e à ruína de tantos outros, numa actividade que lhe rendeu milhões, nunca tendo sido possível apurar os montantes, calculando-se que poderá configurar um número entre 12 e os 20 biliões de dólares. Recordei hoje o caso Madoff por duas razões. A primeira porque a HBO prepara um filme, com base no livro “Truth and Consequences: Life Inside de Madoff Family”, escrito em cooperação com o filho de “Bernie”, Andrew, a mãe Ruth e outros membros da família, tendo o actor Robert de Niro como protagonista do enredo. O livro foi promovido por Andrew e pela sua mãe Ruth Mardoff que, após o suicidio do seu filho mais velho Mark, a 11 de Dezembro de 2010, solicitou a “Bernie” o divórcio, manifestando-lhe a vontade de, literalmente, apagá-lo da sua vida. Bernard Madoff encontra-se agora na prisão estadual de Butner Medium, na Carolina do Norte. Sentenciado a 150 anos de prisão, poderá ver a sua pena reduzida, por bom comportamento, podendo saír em liberdade, perto dos 100 anos, em 2037. O homem que geriu um império de 60 biliões de dólares, já teve 5 ofícios diferentes na penitenciária, auferindo um vencimento de 170 dólares por mês. Irónico, refere que se sente mais seguro dentro da cadeia do que fora dela, sendo tratado como um Don da Mafia, onde não lhe faltam palavras de ordem e de apoio, tanto dos guardas como dos colegas encarcerados. Lamenta os danos causados a tantos credores e o afastamento da sua família. Quanto às tentativas de suicídio diz que já se encontram superadas. Ao ler excertos do livro, quase que se poderia dizer que Bernard Madoff é hoje um homem aliviado e feliz com a vida que construíu em seu redor. Quatro paredes, muros e o silêncio de qualquer manifestação de afecto genuíno, ou qualquer demostração de amor. A segunda razão reside da conjugação com a primeira. A propósito do livro, a CBS realizou a primeira entrevista à família directa de Madoff, no excelente programa de "60 MINUTES".

14.10.11

Entre a Utopia de Thomas More e a Realidade do Estado

" A ilha da Utopia tem duzentas milhas na sua maior largura, ficando esta situada na parte média da ilha. Essa largura diminui gradual e simetricamente do centro para as duas extremidades, de maneira que toda a ilha forma como que um semicírculo de quinhentas milhas de perímetro e apresenta a forma de um crescente cujas pontas estão afastadas cerca de onze milhas.
O mar enche toda essa imensa reentrância; as terras adjacentes que se desenvolvem em anfiteatro quebram o furor dos ventos, mantendo o mar sempre calmo e dando àquela massa de água a transparência de um lago tranquilo. A parte côncava da ilha constitui como que um único e vasto porto acessível por todos os lados à navegação. A entrada do porto é perigosa por causa dos bancos de areia, de um lado, e dos rochedos, do outro. A meio eleva-se um escolho visível de muito longe e que por esse motivo não oferece perigo algum. Os utolianos construíram aí um forte defendido por adestrada guarnição. Outros rochedos, ocultos sobre a toalha de água, constituem inevitáveis armadilhas para os navegadores. Só os habitantes conhecem os passos navegáveis e torna-se desta maneira impossível penetrar no canal sem ter a bordo um piloto utopiano. Constituiria, aliás, precaução insuficiente se alguns faróis situados ao longo da costa não indicassem o caminho a seguir. A simples mudança de lugar dos faróis, sugerindo uma direcção falsa, seria o bastante para destruir a mais numerosa frota.
Na parte oposta da ilha, encontram-se portos frequentes, e a arte e a natureza tornam-na de tal modo inacessível, que um punhado de homens poderia impedir o desembarque do maior exército".
Thomas More in A Utopia

Lembrei-me hoje, dia de rescaldo, após o anúncio, por parte do Governo, de novo agravamento das medidas restritivas, do livro de Sir Thomas More “A Utopia”, publicado no ano de 1516. Preconiza o autor uma concepção teórica de Estado perfeito, onde se viveria não só com plena liberdade religiosa, mas também com igualdade e justiça social. A distribuição do trabalho, seria uma forma de libertação dos homens, muito embora obedecendo à estratificação social da época, procurava estabelecer-se, como limite máximo, a carga horária diária de 6 horas, por trabalhador. Uma inovação numa sociedade pós medieval e, aparentemente, impraticável no mundo actual onde a classe assalariada tem vindo a perder direitos adquiridos, em modo pós-revolucionário, numa proporção directa ao endividamento do monstro do Estado. À imagem das críticas de Eça e Bordalo Pinheiro, aos governantes da época, também a Utopia, de Sir Thomas More, constituiu uma crítica às políticas inglesas do seu governo, tendo, igualmente, a particularidade de manter não só a actualidade, como antecipa modelos políticos que estariam na génese das concepções teóricas de Marx e Hengels. More, teoriza que o direito da propriedade individual, enquanto fundamento do edifício social, é gerador de” miséria, tormentos e desesperos”. Não posso deixar de entender que as suas teorias mantêm uma actualidade quase didáctica, uma vez que são preconizadoras dos tentáculos de um polvo gigantesco movido pela ganância de quem assume as rédeas do poder não sendo difícil identificar aqueles que ali chegaram de mãos a abanar e que dali partem sem explicações relativamente ao seu enriquecimento sem causa. Quanto às repercussões, essas, naturalmente incidem sobre o cidadão anónimo que sem perspectivas e num desalento mórbido, arrasta a sua dignidade pelos meandros de um Inferno de sobrevivência Dantesca.

22.7.11

“Faites vous jeux”

Os dados foram lançados pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, quando, em Maio passado, numa entrevista extensa, concedida à revista da Ordem dos Advogados, proferiu declarações polémicas sobre a questão da ordenação das mulheres para o ministério do sacerdócio apostólico. Ao afirmar que o tema era “uma questão de igualdade fundamental de todos os membros da Igreja, impossibilitada apenas por questões de tradição que radicam no Novo Testamento”, D. José Policarpo levantou uma onda de indignações e de protestos, por parte dos laicos que compõem os sectores mais conservadores da Igreja Católica. Veio agora, no passado dia 7 de Julho, retratar-se, esclarecendo que “verifiquei que, sobretudo por não ter tido na devida conta as últimas declarações do Magistério sobre o tema”, declarando que “a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. Mas a opinião já estava dada. D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, aguarda a resignação do seu mandato, a qual solicitou em carta endereçada ao Papa, em Fevereiro passado. Por isso, o momento é oportuno para se fazer ouvir. Por isso, são necessárias vozes de mudança que sintonizem as questões da fé com a era tecnológica e de crescente respeito social pelas orientações de cada um. A igreja, sob pena de perder o espaço reduzido que ainda lhe assiste, deverá libertar-se das práticas, rituais e filosofias obsoletas, com as quais o cidadão comum cada vez menos se identifica. Por todo este descompasso, a religiosidade de massas tem-se descaracterizado e transformado numa religiosidade individual. Cada vez mais tendemos a procurar dentro de nós o encontro entre o sagrado e o espiritual, rejeitando as emoções de conjunto, com crescente esvaziamento de conteúdos e ausência de respostas relativamente às nossas necessidades espirituais. D.José Policarpo, é um homem culto. Licenciado em Teologia Dogmática, em 1968, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, foi professor e reitor da Universidade Católica Portuguesa entre 1988 e 1992. Conhece bem os dogmas da Igreja, por isso, não convence a sua retratação de 7 de Julho passado, antes ficando a imagem de uma voz precursora desarreigada dos tabús e do inanovismo que a Igreja teima em fossilizar. Acreditamos que os dogmas da Igreja só subsistirão caso tenham uma sustentação credível e, se o sacerdócio das mulheres é um instituto discutível pelo abandono de um entendimento de 2.000 anos de história, já o caso do celibato dos padres, instituído por Gregório VII, no ano de 1074, é paradigmático da incoerência de uma proibição que não encontra na génese da Igreja qualquer justificação plausível. A Igreja, guiada e protegida pelo Espírito Santo, insiste na sua missão de divulgar o Evangelho pelo mundo: "ide e ensinai todas as nações, baptizando-as no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", contudo, deverá sintonizar-se com os tempos modernos, caso contrário, dentro de algumas décadas, já não restará ninguém motivado em acolher as revelações das Sagradas Escrituras.

19.7.11

Impérios de Barro

                                                           Londres - The House of Parliament and the Big Ben

“Ela era soberba em fazer as celebridades pensar que uma história terrível era na verdade boa para elas” Piers Morgan, referindo-se a Rebekah Brooks.

A violação da esfera privada é protegida por lei e compreende todos aqueles actos que, não sendo secretos em si mesmos, devem subtrair-se à curiosidade pública, por naturais razões de resguardo e melindre. É o caso dos sentimentos e afectos familiares, os costumes da vida e as práticas quotidianas que se desenvolvem entre o foro das paredes domésticas e que, naturalmente, deverão ser objecto de resguardo público. Já tinhamos abordado o tema aqui
numa outra perspectiva, mas o assunto adquiriu agora contornos megalómanos, com o caso das escutas telefónicas levadas a cabo por jornalistas do News of the World cuja primeira página dá pelo nome de Rebekah Brooks. Orgãos de imprensa e jornalistas, encontram-se vinculados a códigos de ética e de conduta que deverão presidir às fundações de todo o edifício da sua actividade profissional. O rigor e a objectividade de tratamento da informação deverão ser elementos complementares dessa conduta, devendo funcionar como medida criteriosa na análise, triagem e apuramento da genuidade das fontes sob pena de, falhos estes requisitos, estarmos perante uma actuação culposa, passível de procedimento criminal. As suspeitas que envolvem o caso Brooks são suficientemente angulosas para fazerem acreditar que por de trás de cada página editada se escondem atropelos graves à lei cuja motivação consistiram, exclusivamente, na produção de notícias de conteúdo sensacionalista sem que daí resulte qualquer tipo de contrapartida à qual se reconheça uma mais valia ou interesse social. O rol de violações é extenso. Acumula práticas que qualquer juízo de ponderação concluiria pelo potencial dano moral causado aos visados ou aos seus familiares, sejam elas as violações do sigilo médico do filho mais novo de Gordon Brown, as escutas telefónicas aos familiares de soldados mortos no Afeganistão, às vítimas do 11 de Setembro, ou ainda o acesso ao voice mail da jovem desaparecida Milly Dowler. Todos os contornos do caso News of the World pecam pela violação da privacidade que se extrema aqui até aos seus limites. É que haverá que notar que o direito de personalidade dos ofendidos, não o foi, apenas, perante um terceiro, mas, sim, perante toda uma comunidade, com exposição em orgãos de imprensa, noticiários e disseminação pela internet, o que acentua a carga de ilicitude das violações praticadas e o dolo manifestamente utilizado na obtenção das informações que as antecederam. De dia para dia, o caso começa a adensar as areias movediças no qual o império Murdoch se movimenta e as motivações que o sustentam. Como em qualquer pântano, ao agitar das águas, segue-se o cataclismo das profundezas, onde tudo o que paira à tona previsivelmente se afundará, no lodo das violações da privacidade alheia e dos danos causados à honra e à dignidade dos visados.
Fotogr: CRV©

15.7.11

Maio - Fim de semana de eleições em Madrid

Domingo. Dia de sol intenso em Madrid. Na cidade, o rescaldo das eleições anunciava a vitória do PP. Os jornais, numa tiragem excepcional, teciam expectativas criadas com a mudança. Falava-se num sentimento de frustração nacional cuja intersecção se centrava no eixo do micro-cosmos espontaneamente criado nas Puertas del Sol. Num fim de semana de eleições por Madrid, pude testemunhar a mobilização que o movimento 15-M gerou na sociedade espanhola. A praça das Puertas del Sol, encheram-se de “indignados”, apesar da proibição da manifestação por parte da Junta Eleitoral Central e da recusa do Supremo Tribunal de Justiça em suspender o veto aos manifestantes, com o argumento da necessária paz e reflexão, em momento pré-eleitoral. Com cerca de 4 milhões e meio de desempregados, a Espanha apresenta a maior taxa de desemprego da OCDE e da União Europeia, tendo soado o gongo ao atingir os 20,33%, no início deste ano. Nestas eleições, concentraram-se expectativas legítimas de mudança. Reivindou-se o fim da corrupção política, novos rumos para a sociedade espanhola, uma maior intervenção cívica da população, e o fim do divórcio partidário nas camadas mais jovens. Cheguei a meio da tarde. Pelo chão, um número infinito de cabos, fios, material de som e filmagem. Frente às câmaras, os jornalistas posicionavam-se para os directos da tarde. Ensaiavam-se planos, os contra-luz perfeitos, geriam-se reflectores para iluminarem rostos. Fotógrafos, armados da sua parnafenália, corriam ao menor zumbido na praça. Ultrapassadas as horas efusivas do 15 de Maio, o cenário a que assisti contrariou as expectativas de atropelos de massas ou confrontos com a polícia. A praça, imaculadamente tranquila, sob um sol abrasador, encontrava-se dividida em zonas de intervenção específicas.
Do meu lado direito os manifestantes aquartelados organizavam-se em workshops. Procediam à concepção de placards, com slogans alusivos aos temas da mudança. Em frente, lonas azuis, suspensas por cima das nossas cabeças, produziam um efeito de estufa, dando um ar de bazar marroquino ao local. Era aí que se desenrolava um intenso comércio gastronómico de conveniência, aproveitado pelos manifestantes e turistas de passagem. Bebidas sim, mas não as alcoólicas de modo a evitar a convolação da manifestação num Woodstock espanhol. A atestá-lo, vários catrapázios expostos anunciavam que “AQUI SI PIENSA” o que me deu um inegável conforto revolucionário quando observei uma série de cabeças em colectivo, deitadas no chão, a dormir “la siesta”. As ruas adjacentes funcionavam como dormitório. Filas intermináveis de tendas atropelavam as entradas do Corte Inglês e do comércio local. Foi aqui que Almodôvar também pernoitou. Olhando em volta, não pude deixar de felicitar o movimento pacifista e aqueles que se entregam devotamente a causas que preconizam ventos de mudança. Contudo, não deixo de observar, com algum cepticismo que a capacidade mobilizadora destas iniciativas, junto das instâncias políticas, é limitada por uma fronteira histórica quase intransponível. Numa rápida evocação de imagens, que atravessam o pós franquismo até aos anos noventa-europeístas, com Gonzaléz e os fundos comunitários, é inegável que uma classe de novos ricos prosperou à custa de um bluff económico sustentado nas andas dos créditos, das hipotecas, dos fundos perdidos e numa malha económica que pendia frequentemente sobre o precipício das falências. Aquilo que vi nas Puertas del Sol não foram mais do que esses rostos, de puro desencanto social, arrastados para o fundo, pelo El Dorado de alguns, surgindo agora à tona com gritos de indignação e de revolta nacional.  Contudo, não acredito que se perspective qualquer solução a curto prazo. O futuro passará, talvez, por uma reestruturação da zona euro, pela adopção de filosofias constrututivas relativamente às ajudas económicas ao invés de dotar os países necessitados de uma massa económica, cuja gestão cria uma ilusão de riqueza, gerando apetência para construções megalómanas e projectos utópicos, que seriam liminarmente abandonados num quadro de contenção exclusivamente nacional. Até lá, o caminho a percorrer será longo, arrastando uma massa humana que já compreendeu que o buraco que se escavou nas últimas duas décadas, terá de contar com a colaboração de todos os indignados ou então, não haverá movimento de PENSADORES que nos salve.

Fotogr:CRV©

2.5.11

Sobre a morte de Bin Laden...

...preferia relembrar as palavras sábias de Luther King,

"I mourn the loss of thousands of precious lives, but I will not rejoice in the death of one, not even an enemy. Returning hate for hate multiplies hate, adding deeper darkness to a night already devoid of stars. Darkness cannot drive out darkness: only light can do that. Hate cannot drive out hate: only love can do that.".

Dr. Martin Luther King, Jr.

1.5.11

Motherhood

Liz, Todd and Mike - 1957
by Tony Frissell