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29.9.18

A Última Samurai (2)

The Great Wave of Kanagawa - Hokusai - c. 1829–32
Quando vi o mar em Kanagawa, lembrei-me do quadro de Hokusai, "A Grande Onda” (1830) e percebi toda a resiliência de um povo transportada na força dessa onda, a relação com o xintoísmo e a veneração dos elementos naturais quando estes se transformam em credo de aceitação e conformismo em relação aos imprevistos da vida contra os quais é impossível lutar. O xintoísmo, fundado nas tradições místicas pré-históricas japoneses, preconiza uma agregação de princípios espirituais politeístas que se manifestam em cultos de veneração aos elementos originais da natureza. A água, o vento, o fogo, o mar, as tempestades, o sol, e a lua fazem parte do grupo de consagrações essenciais do culto, assim como as montanhas e os lagos sagrados, os dragões, leões, raposas e divindades superiores que assumem posses desafiadoras sempre que se procura dar corpo a esses espíritos nos múltiplos templos espalhados pelo Japão. 
Onna-bugeisha com naginata
A "Grande Onda" tem essa imprevisibilidade dos elementos naturais com os quais os japoneses aprenderam a coabitar e a resignar-se. Executada no final do período “Edo” (1603–1868), descobri, nesta época, os traços que mais me fascinaram da história do Japão, com a tomada do poder dos Samurais, (1600), a defesa das fronteiras marítimas e o estancar dos ataques destabilizadores dos chineses e mongóis. 
O período de paz que se viveu, promoveu as condições ideais para um desenvolvimento económico e cultural, com alfabetização da população e proliferação de escolas e academias para filhos de samurais. Foi a época do Shogunato, com extensos domínios territoriais (han), senhores feudais (daimyo) que habitavam castelos com um número proeminente de servos, camponeses e exércitos privados. Com uma estratificação social rígida a sociedade da época promovia uma secundarização do papel da mulher condicionando a sua autonomia ao poder discricionário do cônjuge ou da figura paternal do clã. Por isso, as histórias que chegam aos nossos dias de inconformismo ou de rebeldia são aquelas que nos dão uma imagem da vontade de ruptura com o conservadorismo instalado e, sem dúvida, constituem movimentos embrionários percursores de equiparação social de direitos e oportunidades entre ambos os géneros.
Nakano Takeko (1847-1868)

Em 1847, os registos relatam o nascimento da filha mais velha de um nobre samurai de Aizu, chamada Nakano Takeko. Desde pequena revelou aptidões extraordinárias nas artes marciais tendo sido adoptada por um professor da escola de samurais - Daisuke Akaoka - que a introduziu na formação de elite recebendo aulas de literatura, astronomia e auto-defesa, destacando-se no uso da “naginata”, a arma que caracterizava as guerreiras da nobreza japonesa denominadas onna-bugeisha. Tomando os princípios taoista do yin e yang, como filosofia de equilíbrio dinâmico dos opostos que se complementam, Takeko, ainda adolescente, passou a instrutora de artes marciais tendo, com apenas 20 anos, sido nomeada comandante de uma formação de mais de 100 mulheres guerreiras que constituíam a defesa pessoal do séquito de nobreza feminino da casa de Aizu.
Assumir-se como mulher, independente, numa sociedade fechada, implicava uma tarefa de resistência diária onde ganhava dimensão o escárnio e o desprezo a que as mulheres eram votadas quando assumiam funções exclusivamente masculinas. Desde sempre, o homem, cujo carácter seja duvidoso, utilizou a agressão psicológica e as práticas desleais como um meio de expurgar os seus próprios receios sociais e a sua incapacidade em constatar e aceitar a diferença.
Takeko nunca se intimidou com os seus pares e revelou qualidades heróicas na guerra que opôs os grandes senhores feudais ao Imperador. Na batalha de Aizu, na guerra que ficou conhecida como "Guerra Boshin”, Takeko perdeu a vida aos 21 anos tendo pedido á sua irmã para a enterrar junto a um templo, à sombra de um pinheiro, num lugar de oração, em nome de todos os que lutaram a seu lado.

17.9.18

A Última Samurai (1)

Castelo Aizu-Wakamatsu
Toco com a ponta dos dedos na enorme muralha que se agiganta em todas as direcções em redor do castelo de Aizu. Sinto a rugosidade áspera da superfície acidentada, as histórias de daimyõs e samurais que complementam o espaço, o equilibrio perfeito da soma vectorial das pedras ajustadas, a união impenetrável das juntas, onde não cabe o gume de um punhal, nem mesmo, dizem, as gotas incontroladas da chuva em dias de temporal. 

As muralhas do castelo de Aizu-Wakamatsu formam uma quadrícula fortificada com fossos profundos, jacintos que escondem troços de água e carpas brancas que patrulham as margens, portões e ferrolhos descomunais que nos transportam para a Liliput do outro lado do mundo e pontes ligadas a torres de menagem colocadas, estrategicamente, nos pontos mais altos do reduto do baluarte.
No centro de todo o complexo localiza-se a cidadela interior, residência do senhor feudal, rodeada dos aposentos dos samurais e dos soldados, contornados por múltiplos pátios interiores, áreas fechadas e paliçadas de comunicação que desempenhavam um papel crucial na organização da estratégia de defesa militar. 
Dispersos pelo castelo, os jardins, inicialmente exclusivos dos templos, foram posteriormente alargados aos territórios dos senhores feudais obedecendo a uma filosofia de equilíbrio com os elementos da natureza. Terra, água, fogo, vento e energia. Pontes sobre lagos, lanternas de pedra, caminhos feitos de rochas vulcânicas, areia e gravilha, pequenas ilhas e colinas, arbustos bonsai, tudo numa morfologia miniaturizada com pinheiros retorcidos com agulhas de aço e árvores de troncos nus debruçadas com ramos frondosos a tocar pequenas cascatas de água.

Construído em 1384, o castelo constituiu o centro militar e administrativo da região, dispondo de um regimento de 5.000 guerreiros e a escola de samurais mais famosa do Japão. A Aizu Hanki Nisshin-kan, acolhia aos 10 anos os filhos dos samurais preparando-os, não só nas disciplinas das armas e da equitação, mas em matérias como a astronomia e a meditação. 
(continua)

6.7.16

Praga - Parábolas na Karluv Most


CRV© Prague - Karluv Most, Castelo e Catedral de São Vito
Kafka, nasceu a 3 de Julho de 1883 em Praga. Autor de uma série de contos, recorreu, como nos diz João Barrento, “à forma breve da parábola como sistema de significação intensivo”. Os seus exercícios são a "busca de uma verdade sempre diferida, ou do enigma da verdade e do absurdo impenetrável das existências, marca daquela técnica alusiva e defectiva de que fala Barthes: "o sentimento do absurdo transfere o Juízo Final para cada dia vivido pelas personagens (…) em que o que é próprio do ser e dos muitos seres que povoam as parábolas de Kafka é o facto de eles serem ao mesmo tempo óbvios e inalcançaveis”. 

Num desses contos Kafka vê-se como uma ponte, suspenso sobre um abismo. Lá em baixo, marulhava um ribeiro negro, gelado, cheio de trutas. Com as pontas dos pés enterrados num dos lados do abismo e as mãos cravadas no outro, é subitamente interrompido na sua pose segura por alguém que se aproxima e lhe bate com uma bengala, envolvendo-lhe os cabelos e saltando-lhe para cima das costas. Com o peso, Kafka perde a sustentação entre os dois pontos do abismo e, no seu sonho, desmorona-se, despedaçando-se nas pedras aguçadas do leito do rio que sempre o observaram, tão pacíficas, no meio das águas em fúria. 

Encostada ao parapeito da Karluv Most, observo o movimento dos turistas que atravessam a ponte sobre o Moldava, em passo lento, deslocando-se entre a Malá Strana e a Cidade Velha. Coloco-me “de fora” e sinto-me como o espectador atento, criando conotações entre o desempenho dos traseundes, actores de parábolas representativas de uma outra realidade que se desenrola por detrás do palco da vida. 
E aí somos como nos diz Barthes, um Réquichot ou um Kafka, aquele "que só pinta o seu próprio corpo: não esse corpo exterior, que o pintor copia olhando de través, mas o seu corpo de dentro”. Procuram-se as leituras que obtusamente implodem, sendo sensíveis ao magma silencioso que escorre e se infiltra nos nossos sentidos dando-nos uma "leitura analógica axial, - João Barrento - característica do processo de produção de uma parábola". 

E eis que vindo do lado da Cidade Velha, entra na ponte um aglomerado de gente que rodeia um grupo de jovens trajados com roupas medievais. Os que lideravam empunhavam orgulhosamente porta estandartes com bandeiras coloridas, onduladas pelo vento, onde se viam dragões, castelos, escudos e flores de liz sob fundos bicolores encarnados, amarelos, verdes e azuis, representativos dos ducados e dos antigos feudos locais. Deslocaram-se até meio da ponte e aí, os da rectaguarda, organizaram-se dois a dois, armados com uma parnafenália de instrumentos de sopro e percussão. Dispuseram-se a poucos metros dos meus pensamentos, quando o som dos clarinetes e dos trombones tomaram conta do tempo iniciando uma dança em redor das bandeiras que demarcavam o eixo de intervenção.   Tocaram e rodopiaram, enquanto os dançarinos com guizos nos chapéus e nas pontas dos pés, vestidos com fatos de licra encarnada e azul, dançavam e ofereciam flores aos presentes. Lançaram-se foguetes e atearam-se pequenos fogos de artifício para inflamar o ar e iluminar a visão. Com o ressoar dos bombos a música tornou-se virulenta e ao contrário de apreciar as flores e o espectáculo medieval, os décibeis soltos pelas maçetas atiradas por braços fortes contra a pele curtida dos bombos, fez-me virar as costas à confusão. 

Debruçei-me no paredão da ponte e fiquei a observar o correr das águas, os barcos que tranquilamente navegavam ao longe e que pareciam flutuar, os pássaros que atravessavam o céu incólomes ao barulho, a colina por cima da Malá Strana com os jardins coloridos que envolviam o castelo e a Catedral de São Vito. Apanhei uma folha seca do chão e deitei-a ao rio. Deslizou empurrada pela corrente e seguiu o seu curso em direcção aos amontoados de folhas encalhadas numa pequena repressa que forçava caminho em direcção ao estuário da foz do Moldava. 

Em marcha lenta, a procissão de bandeiras e a música empenhada afastou-se em direcção à outra margem do rio seguindo o seu curso pela cidade. Voltaram as vozes dos que atravessavam a ponte, os ruídos da cidade ao longe, as poses para as fotografias, o toque supersticioso nas estátuas dos santos, o beijo nos pés do crucifixo, sorrisos e abraços cúmplices daqueles que experimentam a densidade dos espaços que se abrem numa viagem, descobrindo recantos de luz para descansar. 

Karluv Most
Agarrada ao guia de Praga lia sobre os segredos da construção da ponte. As superstições que envolveram o início dos trabalhos, a curiosidade do dia especificamente escolhido para a sua construção. Carlos IV escolheu o ano de 1357, no dia 9 de Julho, pelas 5.31hrs da madrugada para lançar a primeira pedra. E a escolha não foi por acaso. Se juntarmos todas as datas num só número, 135797531, verificamos que é possível lê-lo da mesma forma em ambas as direcções e que a soma dos digitos 1+3+5+7+9 = 25, fornece-nos os 25 arcos que a ponte de 515 metros tem. Desde a data da sua construção, a Karluv Most presenciou inúmeros acontecimentos relacionados com a astrologia, a superstição, a caça às bruxas, a perseguição de judeus, a execução de inocentes posteriormente beatificados, e a concretização de profecias beatas que amaldiçoaram o lugar onde santo Nepomukk foi atirado, por ordem do rei Venceslau, às águas geladas do rio. 

Na estrutura de um dos pilares da ponte, reza a lenda, que se encontra escondido um tesouro dos Templários, aí colocado na época em que a Ordem foi expulsa da cidade. Entre os objectos desse tesouro estaria um martelo de pedreiro utilizado na construção da Torre de Babel. 

Com a banda ao longe, abafada pelos ruídos da cidade, voltei ao meu caderno de notas, como uma espectadora atenta ao mar inesgotável de planos e enquadramentos que se desenrolavam no palco da vida que corriam lentamente em frente aos meus olhos.

19.12.11

Leonardo - Um pintor na Corte de Milão

Há exposições que se poderiam chamar “Once in a lifetime”. Por isso mesmo, as motivações que nos fazem quebrar as barreiras da distância e do tempo colocam-nos em plena Trafalgar Square, sujeitos ao frio glaciar, na fila que se forma, às primeiras horas da madrugada, em frente às bilheteiras da National Gallery. Decorre em Londres a maior exposição de sempre de Leonardo Da Vinci. Com os bilhetes on-line esgotados em poucas horas, para todo o período da exposição (9 Nov 2011– 5 Fev 2012), o mercado paralelo inflaccionou as entradas para valores que oscilam entre as 350 e as 400 libras. Conseguir bilhetes por 17 libras é uma questão de sorte. Diariamente são disponibilizados 500 ingressos, que se esgotam na primeira meia-hora, logo após a abertura das bilheteiras. Mas a espera valeu a pena.
Foi há cinco anos que surgiu o projecto da magna exposição de Leonardo, na sequência do restauro , pela National Gallery, da “The Virgin of the Rocks” . Nenhuma outra exposição tinha projectado a obra de Leonardo, sob o ponto de vista da sua carreira e dos quadros que executou. Com Leonardo, os conceitos da pintura redesenharam-se. A escola de Verrocchio, que frequentou, pela mão do seu pai, desde os 14 anos, proporcionaram-lhe os instrumentos necessários que o destacaram de imediato, entre os seus pares no estúdio do mestre de Florença. Como referem dois dos seus biógrafos contemporâneos, Paulo Giovio e Georgio Vasari:

“Leonardo era um jovem homossexual atraente, que manifestou, desde muito novo, uma aptidão multidisciplinar, um perfeccionismo na execução dos seus trabalhos, com o defeito insanável de se perder nos inúmeros interesses em que ramificava a sua sede de conhecimento, levando-o a abandonar prematuramente, quase todos os projectos em que se envolvia ”.

Leonardo deixa Florença em 1482 e instala-se em Milão sob o patrocinio de Ludovico Sforza. É sob a égide do Duque de Milão que Leonardo executa alguns dos seus trabalhos mais famosos, “O Retrato de Cecilia Galleani”,“Retrato de um Jovem Músico”, a “Bella Ferronière” e a “A Última Ceia”. Envolvido numa multiplicidade de projectos paralelos, Leonardo desinteressa-se frequentemente por algumas das obras iniciadas, sendo “S. Jerónimo”, a “A Adoração dos Magos” e  “The Virgin of the Rocks”, da National Gallery, algumas das obras inacabadas que declinaram perante novos interesses. Apesar das poucas obras terminadas Leonardo foi o expoente máximo do seu tempo, revelando na sua obra o carácter inovador das técnicas utilizadas, a destreza na representação da anatomia humana, e o estudo intensivo do movimento das formas e das sombras.
Sintomática desta revolução foi o abandono, em quadros como “O Retrato de Cecilia Gallerani”, das poses de perfil conservadoras que marcavam a época. Leonardo, revolucionou a expressão facial dando reflexo às emoções, firmeza ao olhar, sedução aos pormenores do rosto, olhos, lábios e cabelos angelicais, ao movimento dos corpos e aos texteis retratados. Leonardo, um génio de todos os tempos que soube depurar diplomaticamente os mitos conservadores da sua época, constituindo o seu espólio uma porta aberta para o universo do homem que se encontrava 400 anos à frente da sua época, percepcionando-se nos seus estudos a ponte entre o sábio e o inquiridor do tempo , entre a introspecção dos grandes homens e a revelação dos grandes projectos de ficção.

15.7.11

Maio - Fim de semana de eleições em Madrid

Domingo. Dia de sol intenso em Madrid. Na cidade, o rescaldo das eleições anunciava a vitória do PP. Os jornais, numa tiragem excepcional, teciam expectativas criadas com a mudança. Falava-se num sentimento de frustração nacional cuja intersecção se centrava no eixo do micro-cosmos espontaneamente criado nas Puertas del Sol. Num fim de semana de eleições por Madrid, pude testemunhar a mobilização que o movimento 15-M gerou na sociedade espanhola. A praça das Puertas del Sol, encheram-se de “indignados”, apesar da proibição da manifestação por parte da Junta Eleitoral Central e da recusa do Supremo Tribunal de Justiça em suspender o veto aos manifestantes, com o argumento da necessária paz e reflexão, em momento pré-eleitoral. Com cerca de 4 milhões e meio de desempregados, a Espanha apresenta a maior taxa de desemprego da OCDE e da União Europeia, tendo soado o gongo ao atingir os 20,33%, no início deste ano. Nestas eleições, concentraram-se expectativas legítimas de mudança. Reivindou-se o fim da corrupção política, novos rumos para a sociedade espanhola, uma maior intervenção cívica da população, e o fim do divórcio partidário nas camadas mais jovens. Cheguei a meio da tarde. Pelo chão, um número infinito de cabos, fios, material de som e filmagem. Frente às câmaras, os jornalistas posicionavam-se para os directos da tarde. Ensaiavam-se planos, os contra-luz perfeitos, geriam-se reflectores para iluminarem rostos. Fotógrafos, armados da sua parnafenália, corriam ao menor zumbido na praça. Ultrapassadas as horas efusivas do 15 de Maio, o cenário a que assisti contrariou as expectativas de atropelos de massas ou confrontos com a polícia. A praça, imaculadamente tranquila, sob um sol abrasador, encontrava-se dividida em zonas de intervenção específicas.
Do meu lado direito os manifestantes aquartelados organizavam-se em workshops. Procediam à concepção de placards, com slogans alusivos aos temas da mudança. Em frente, lonas azuis, suspensas por cima das nossas cabeças, produziam um efeito de estufa, dando um ar de bazar marroquino ao local. Era aí que se desenrolava um intenso comércio gastronómico de conveniência, aproveitado pelos manifestantes e turistas de passagem. Bebidas sim, mas não as alcoólicas de modo a evitar a convolação da manifestação num Woodstock espanhol. A atestá-lo, vários catrapázios expostos anunciavam que “AQUI SI PIENSA” o que me deu um inegável conforto revolucionário quando observei uma série de cabeças em colectivo, deitadas no chão, a dormir “la siesta”. As ruas adjacentes funcionavam como dormitório. Filas intermináveis de tendas atropelavam as entradas do Corte Inglês e do comércio local. Foi aqui que Almodôvar também pernoitou. Olhando em volta, não pude deixar de felicitar o movimento pacifista e aqueles que se entregam devotamente a causas que preconizam ventos de mudança. Contudo, não deixo de observar, com algum cepticismo que a capacidade mobilizadora destas iniciativas, junto das instâncias políticas, é limitada por uma fronteira histórica quase intransponível. Numa rápida evocação de imagens, que atravessam o pós franquismo até aos anos noventa-europeístas, com Gonzaléz e os fundos comunitários, é inegável que uma classe de novos ricos prosperou à custa de um bluff económico sustentado nas andas dos créditos, das hipotecas, dos fundos perdidos e numa malha económica que pendia frequentemente sobre o precipício das falências. Aquilo que vi nas Puertas del Sol não foram mais do que esses rostos, de puro desencanto social, arrastados para o fundo, pelo El Dorado de alguns, surgindo agora à tona com gritos de indignação e de revolta nacional.  Contudo, não acredito que se perspective qualquer solução a curto prazo. O futuro passará, talvez, por uma reestruturação da zona euro, pela adopção de filosofias constrututivas relativamente às ajudas económicas ao invés de dotar os países necessitados de uma massa económica, cuja gestão cria uma ilusão de riqueza, gerando apetência para construções megalómanas e projectos utópicos, que seriam liminarmente abandonados num quadro de contenção exclusivamente nacional. Até lá, o caminho a percorrer será longo, arrastando uma massa humana que já compreendeu que o buraco que se escavou nas últimas duas décadas, terá de contar com a colaboração de todos os indignados ou então, não haverá movimento de PENSADORES que nos salve.

Fotogr:CRV©

21.2.11

Borneo - Death Marches

“Those who survived…were herded into insanitary and crowded huts and many died from dysentery. By 26 June, only five Australians and one British soldier were still alive”.

A estrada circundava o sopé do Monte Kinabalu que se erguia, imponente, a 4.000m de altitude do meu lado esquerdo, com os cumes pintados com neves perpétuas e pequenas comunidades aninhadas nas reentrâncias da montanha. Íamos visitar umas extensas plantações de chá que se encontravam a meio caminho da costa Oeste do Borneo. Enquanto o meu olhar se perdia na paisagem e pensava no índice elevadíssimo de devastação da floresta virgem - agora ocupada com palmeirais a perder de vista -, a minha atenção foi atraída, à passagem por Kundasang, pelo monumento de guerra em homenagem aos milhares de soldados que pereceram, nas denominadas “Marchas da Morte”, aquando da invasão do Norte do Borneo, pelos soldados japoneses, nos anos que coincidiram com o inicio da II Guerra Mundial no Pacífico. Pedi para pararem o carro. Debaixo de uma árvore, tranquilamente frondosa, jazem duas lápides com inscrições em malaio e em inglês que referem um dos maiores crimes de guerra levado a cabo contra os aliados. A nossa guia deteve-se. Com um ar grave, explicou-nos que o tema, das atrocidades japonesas na ilha, ainda hoje é considerado tabu pelos locais. Mortes, violações da quase totalidade das mulheres malaias, espancamentos e execuções sumárias, foram o terror que os habitantes do Borneo experimentaram nos 3 anos que os japoneses comandaram os destinos que visavam a exterminação de todos os locais da ilha. As “Marchas da Morte” foram uma série de marchas forçadas, percorridas durante centenas de kilómetros, em condições inumanas, no meio de corredores conquistados no interior da selva tropical, densa e húmida, entre as cidades de Sandakan, no extremo este da ilha, e Ranau, uma pequena cidade localizada a meio caminho da costa oeste. Milhares de prisioneiros (3.600 civis indonésios e 2.400 aliados) pereceram às mãos dos japoneses, na construção de campos de concentração e pistas de aviação, sem comida, medicamentos ou qualquer apoio ou condescendência para com os debilitados. Dos poucos que restaram, 470 foram enviados para as “marchas da morte”, pelo interior da selva, de modo a pulverizar quaisquer agrupamentos ou processos de resistência que se pudessem configurar . Famintos, muitos com malária, desinteria e outras doenças provenientes dos climas tropicais, entre Janeiro e Maio de 1945 todos os prisioneiros foram ficando pelo caminho. Quando a ilha foi libertada pelas forças australianas, restavam apenas 5 soldados australianos e 1 britânico. Dos 6 sobreviventes apenas 3 conseguiram resistir a tempo de deporem em Tokyo e Rbaul, sobre os crimes de guerra praticados. Das leituras que efectuei, apraz-me saber que 3 resistentes, foram suficientes, para condenar os líderes e os autores materiais dos crimes praticados no Borneo, contra a humanidade. Top Fotog. CRV   (2 FotogrsUNK - Death Marches - 1945)

17.1.11

Bornéo - Ainda vamos a tempo?

Quando, em Outubro de 2009, regressei de uma viagem ao Borneo não pude deixar de manifestar aqui a minha estupefação relativamente às politicas de desertificação florestal adoptadas pelo governo malaio. Legisla-se o absurdo, privilegiando a erradicação da floresta virgem, e a consequente destruição de habitats naturais, em benefício de interesses económicos vocacionados para a exploração do combustível do futuro: o óleo de palma. Segundo o governo malaio, o país entrou na corrida para a liderança mundial das energias vegetais, alternativas às energias fósseis. A desflorestação, para a plantação de palmeirais, tornou-se uma prioridade nacional. O projecto megalómano é responsável, entre 1995 e 2000, pela redução de 86% da floresta virgem do Borneo, veja-se aqui com a consequente redução da biodiversidade, em percentagens que rondam os 80 a 90%. Destas estatísticas acrescem ainda os danos colaterais provenientes do uso indiscriminado de pesticidas, das queimadas - que se sucedem a um ritmo vertiginoso -, do desvio dos cursos de água e da inexistência de corredores florestais ao longo dos rios, que permitam a mobilidade dos primatas. Todos estes  factores são determinantes na pulverização da vida selvagem deste ecossistema. A degradação do habitat promoveu, em 2009, um colóquio no Shangri-la Rasa Ria Resort, em Sabaha, entre representantes da indústria do óleo de palma e cientistas que se dedicam ao resgate e conservação de orangotangos do Bornéo. Como seria de esperar o colóquio apenas insuflou mais uns sacos de vento que foram atirados para o ar entre os croquetes e os cocktails dos gestores das indústrias transformadoras do óleo de palma. Confrontei-me hoje, por casualidade, com este pedido de adopção inédito cujo patrocínio, assegurado pelo World Wide Fund, é sinónimo de garantia e credibilidade. Apesar da iniciativa ser a todos os níveis louvável questiono-me qual a utilidade da mesma face a uma política governamental que não cede perante interesses económicos que, indubitavelmente, falam mais alto do que as causas ambientalistas. Por outro lado, é conhecida a falta de ecos profiláticos que emanam das Conferências Internacionais sobre biodiversidade e alternativas ecológicas, facto que me faz acreditar que, dentro de 50 anos, o último espécime de orangotango do Bornéo esteja empalhado no Museu de História Natural de Londres para, aí sim, todos podermos apreciar o primata extinto que tinha 96,4% de genes idênticos ao da espécie humana. Apesar do pessimismo, ganharam uma patrocinadora.
Malásia - Bornéo - Kinabatan River
Fotogrs: CRV

10.1.11

Nápoles - "Il Gabinetto Segreto"

Campânia. Segundo lendas antigas era este o local que os deuses elegiam para passar as suas férias. Olhando em redor, não me surpreende que a tranquilidade do Mediterrâneo, o clima ameno, a boa gastronomia e as escarpas abruptas, que se lançam sobre um mar azul, tenham constituído motivo, mais do que suficiente, para seduzir Poseidon e os seus pares. Homero, Vergílio, Catulo, Lucrécio e Propércio foram alguns dos eruditos que cantaram as escarpas de Amalfi e as cidades esculpidas no sopé do Vesúvio, evocando uma terra de deuses e mistérios infinitos onde pulsava o lado tranquilo das emoções e dos prazeres da vida. Pompeia, Herculano e Estábila, três cidades organizadas como pólos romanos de actividade administrativa, comercial e lúdica asfixiaram, no ano de 79, debaixo de um caos piroclástico lançado pela fornalha do vulcão. No espaço de poucas horas 10% da população pereceu, naquela manhã em que Plínio, o Jovem, observou, à distância, homens aterrorizados que levantaram as mãos aos céus desacreditando a existência dos deuses. Parada no tempo ficou uma bolsa do quotidiano romano.
Edificações públicas, lojas, residências, padarias, termas, bordéis, frescos e estátuas emergiram, em 1763, como um todo arquitectónio de rara beleza e em excelente estado de conservação convolado, anos mais tarde, em património da Humanidade. Mas seriam os frescos eróticos que, durante esta visita, por terras do Vesúvio, seriam objecto da minha curiosidade e de mais 1 milhão de visitantes anuais. Cerca de 250 pinturas e estátuas eróticas foram deslocadas, das três cidades submersas em lava, para o Museu de Nápoles tendo, por razões que se prendem com os preconceitos dos homens e o pudor da fé cristã, sido remetidas para os bastidores do Museu e trancadas a sete chaves numa ala denominada “Il Gabineto Segreto”, durante mais de 200 anos. Deuses, ninfas, falos, frescos conjugais privados e de bordéis, formam uma pequena incursão pelo Kama Sutra romano onde a sexualidade era encarada como uma forma de prazer - como Ovídeo a cantou na “Arte de Amar” - relacionando o prazer e o sexo com a abundância e a fertilidade, sem os atilhos restritores e preconceituosos do catolicismo. A iconografia predominante, na arte de Pompeia, era o falo, - associado às forças procriadoras da natureza - o que poderia indiciar uma forte supremacia masculina.
Porém, esta ideia é contrariada pelas inúmeras poses retratadas, onde à mulher é atribuído um lugar onde é perceptível que ambos os sexos se encontravam em pé de igualdade. A visita é fascinante, não só pela mostra depudorada, como pelo secretismo a que a colecção foi vetada durante largos anos, com alternância entre a abertura apenas ao sector masculino e estudiosos, poupando os olhos angelicais das mulheres e das crianças. A abertura definitiva ao público só ocorreu no ano 2000, facto que não obstou a que o Vaticano protestasse violentamente a decisão, invocando questões relacionadas com a obscenidade da mostra e o atentado à moral. Felizmente, para todos nós, os espólios sensuais do Vesúvio encontram-se agora expostos nesta “Ala Secreta” do Museu Arqueológico de Nápoles. Caso seja dado a tentações e costume espreitar lascivamente para dentro de locais secretos, esta é uma excelente oportunidade de o fazer sem constrangimentos - ou assinaturas no livro de visitas que se encontra à esquerda da porta de entrada do “Gabineto Secretto” -. É que, desde o ano 2000, a porta para a luxúria romana de Pompeia encontra-se aberta de par em par, por isso, não deverá hesitar entre a intimidação preconceituosa e a curiosidade lasciva que esta ala da História pôs à disposição de todos nós.

28.11.10

Brasil - Praia de Carapibus

Praia de Carapibus - Esta manhã
Fustigada por um vento calmo e vagoroso, a Praia de Carapibus tem no seu conjunto todas as componentes que me fazem ceder aos caprichos da ritualização. Regressar a um local, que se encontra exilado na alma, dá-nos a sensação que estamos a negociar com os deuses transacções de sobrevivência. O Brasil tem destes recantos que nos colocam entre o leito plano do mar e o azul do céu. Recantos inesquecíveis. Ideais para rasgar uns dias de férias contra o tempo.
Fotogr: CRV©

8.11.10

Preguiça II

Brasil-Amazonas
Fotogr: CRV©

29.10.10

Preguiça I

Brasil-Amazonas
Fotogr: CRV©

6.6.10

Madrid - O Impressionismo de Claude Monet

"Champ de coquelicots à Argenteuil" - 1873 - Claude Monet
A proposta do Museu Thissen-Bornemisza pareceu-me irresistível: apreciar “Monet (1840-1926) numa óptica modernista, sob a perspectiva do abstraccionismo”. Madrid passou a ser o meu destino e com ele compreender o Impressionismo na sua essência revolucionária ou quando a tela deixa de ser um mero reflexo fotográfico da paisagem e passa a ser uma experiência plástica onde ecoam Verões de cores quentes e Primaveras de flores resplandecentes. Trepadeiras, lírios, nenúfares, papoilas vermelhas, rosas de jardim. Mãos sobre o trigo. Pinceladas robustas em amarelo forte, crianças entre as giestas. Madrigais, pick-nics no campo, chapéus coquette, vestidos de seda de cauda larga. Regatas em Argenteuil, reflexos na água de velas ao vento, prados verdes que se estendem numa calma melancolia até às margens do Sena.
"Régates à Argenteuil" - 1872 - Claude Monet
No Impressionismo, a vida quotidiana corre lenta, tombada num lazer cativante entre céus muito azuis e nuvens de algodão, tudo muito longe da industrialização e das preocupações sociais e políticas da época. O campo surge-nos como um refúgio da cidade e a cidade é interpretada à luz dos seus jogos de luz e sombra, do quotidiano das gentes e dos cafés, do absinto e dos passeios nos boulevars. O olhar dos impressionistas, rompe com as amarras tradicionais. A nova vaga lança na tela impressões livres de cada pintor. As novas ideias transformam a arte numa superfície ocupada por uma massa de cores, que se assemelham a um “borrão”, quando observadas de perto. À distância correcta ganham formas que se abrem à nossa frente num conjunto harmonioso que nos abraça e nos coloca dentro da tela.
"Impression -Soleil Levant" - 1873 - Claude Monet
Se é possível estabelecer um momento histórico que consagre o início desta corrente, esse marco é consensualmente atribuído à exposição organizada pelo fotógrafo Nadar (1820-1910) no “Boulevard des Capucines”, em 1874. Entre as 165 telas expostas, o quadro de Monet, “Impressão-Sol Nascente”, ganharia destaque da crítica e daria o mote a esta corrente que foi renegada pelos círculos fechados e hostis, próximos das instituições académicas, como a “École dês Beaux-Arts” e o “Salão de Exposições de Paris”. O grupo de 30 artistas, participantes na exposição de Nadar - Monet, Cézanne, Degas, Pisarro, Sisley e Renoir, entre outros –, mostrou-se sempre relutante em subjugar-se às regras classicistas ditadas pelo grupo do Salão. Marginalizados, organizaram-se naquilo que ficou conhecido como o grupo do “Salon dês Refusés” que, paradoxalmente, contou com o apoio directo de Napoleão III. Os cafés de Paris e os seus ateliers pessoais tornaram-se espaços de discussão, difusão das novas ideias e comercialização dos seus trabalhos. Esta seria a corrente percursora da história da arte moderna. Baudelaire diria, que o impressionismo consistiria na sua concepção moderna de “arte pura” onde a magia sugestiva incluía o objecto, o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista na tela”. Monet reunia todas estas valências. Por isso não resisti em dar um salto até Madrid. Aproveitar o sol, o bom tempo que se fazia sentir e usufruir da excelente selecção de quadros que reuniu obras do pintor vindas de Paris, Boston, Basileia, Tokio e Hartford.
Como qualquer apaixonado por pintura, achei sublime.
Monet no jardim da sua casa de Giverny

16.5.10

London - The "Cocoon"

Situado na Cromwell Road, ali mesmo no centro de Londres, o Museu de História Natural é visita obrigatória para os interessados nos temas relacionados com a evolução das espécies, a selecção natural, a biodiversidade ou o futuro dos últimos habitats naturais. Numa mostra fabulosa, composta por mais de 70 milhões de items, a exposição fixa de Botânica, Mineralogia, Entomologia, Paleontologia e Zoologia teve a sua origem num laborioso processo de agregação de várias colecções particulares - a primeira das quais datada do século 17, elaborada por Sir Hans Sloane, médico naturalista e coleccionador -, sendo posteriormente adicionada com inúmeros espécimes provenientes das diversas expedições efectuadas aos quatro cantos do mundo. Mas, desta vez, não foi a exposição fixa que cativou o meu interesse. Nem tão pouco o esqueleto do gigantesco “Diplodocus”, suportado por arames, que guarda imponentemente o hall de entrada do Museu. É que, apesar da enorme dentadura canina, permanentemente arreganhada, daquelas que nos obrigam a amparar as criancinhas, a verdade é que lendo a papeleta do animal rapidamente concluímos que não só não mordia como não fazia mal a uma barata, pois o bicho era de raça herbívora. Mas, não foram estas as razões que me trouxeram desta vez ao museu de História Natural, mas sim algo profundamente inovador. Desde o final de 2009 que se anunciava uma nova ala revolucionária no museu a que deram o nome de “Cocoon”. Feita em estrutura de vidro e aço, atingindo a altura de um oitavo andar e com um custo estimado em 78 milhões de libras, o novo Centro de Investigação “Charles Darwin” encontra-se imaculadamente integrado no edifício vitoriano passando completamente despercebido aos mirones exteriores. O centro, dotado de condições de climatização ideais foi equipado com o state of the art em termos de audio-visuais e equipamentos científicos. Aqui nada foi tido ao acaso. Reformularam-se os processos de conservação de alguns milhões de espécimes animais e vegetais. Transportaram-se os cientistas até ao grande público, mediante a criação de laboratórios transparentes. Desmistificaram-se as tarefas a montante da exposição mediante um criterioso processo audiovisual a que os visitantes podem aceder. No cômputo geral a visita é excelente, dando jus ao facto de o centro se encontrar, presentemente, entre as 5 maiores atracções do Reino Unido. No ano em que as Nações Unidas declararam 2010 como “O Ano Internacional da Biodiversidade” é de louvar a inauguração do centro de investigação mais moderno do mundo que versa, precisamente, sobre o tema a que Stavros Dimas, Comissário Europeu do Ambiente, se referiu como "uma prioridade essencial para o futuro da Humanidade".

Fotogrs: CRV (excepto Hall)

Aos interessados, sugerimos a consulta do site do Museu.

21.4.10

Eyjafjallajokull - A outra face do vulcão

Se há efeitos que o famoso "Eyjafjallajokull" não conseguiu foi perturbar o descanso destas duas gaivotas do mar do Norte. Encontrei-as aninhadas numa praia de seixos quentes, onde gozavam tranquilamente um sol radioso de Abril e as temperaturas amenas que por estes dias de Primavera se fizeram sentir naquelas latitudes. Olhando para o céu, não se vislumbravam quaisquer sinais de fumo negro ou de particulas prejudiciais a uma inspiração saudável. Imperturbáveis ao caos dos aeroportos, longe das notícias que se atropelavam entre bafuradas vulcânicas e labaredas vindas das profundezas da Terra, as gaivotas do mar do Norte pareciam indiferentes às previsões geológicas para os próximos dias. Com uma calmaria invejável, era vê-las a meio da tarde a dormitar nesta praia deserta, sugerindo descansos merecidos depois de grandes voos e algumas planações sobre o mar, aproveitando a brisa marítima que, discretamente, se fez sentir em costas normalmente fustigadas por ventos fortes. Olhando para ambas, ninguém diria que foram das poucas a levantar voo por estes dias. Fotogr: CRV©

27.3.10

Londres - Van Gogh na "Royal Academy of Arts"

Il y a l’art dês lignes et couleurs mais l’art dês paroles
y est et y resterra par nous - Vincent Van Gogh
Still Life with a plate of Onions - Vincent Van Gogh -1889
Por vezes é só uma questão de paciência, e de espera tranquila, até que uma tremenda exposição surja. São essas as grandes motivações que nos fazem regressar a um local que tanto gostamos. Londres. E, julgo que não poderia ter havido melhor argumento do que a exposição, intitulada “The Real Van Gogh: The Artist and His Letters” a decorrer, de 23 de Janeiro a 18 de Abril de 2010, na Royal Academy of Arts. E, se há associações, como a do post anterior, que nos fazem sorrir - pois as encaramos também como manifestações de arte -, outras haverá que nos fazem entrar num avião para melhor compreender a mente do génio que se encontra por detrás dos quadros que nos fascinam. Dizem que “uma imagem vale por mil palavras” mas, no caso de Vincent Van Gogh, essa concepção redesenhasse e cria uma nova dimensão. Nesta exposição, a maior sobre Van Gogh, levada a cabo em Inglaterra, nos últimos 40 anos, podemos confrontar, em simultâneo, as cartas com os esboços que antecederam os quadros famosos, de uma das maiores figuras do movimento pós-impressionista. De uma forma plástica, as cartas de Van Gogh traçam-nos o perfil de um artista cujas ambições expressam um carácter filantrópico: ser entendido pelos que o rodeavam, dar um significado à sua vida, promover actuações úteis na sociedade ou, ainda, contribuir para minimizar as tristezas do mundo, encontram-se entre alguns dos desejos que Vincent manifesta na sua correspondência com o seu irmão mais novo Theo. Seria precisamente Theo, comerciante de arte, o grande impulsionador da carreira de Van Gogh, que se iniciaria, já tarde, aos 27 anos. Nos 10 curtos anos da sua vida artística estabeleceu-se entre ambos uma cumplicidade inegável plasmada nas mais de 900 cartas que constam do espólio, em exposição no Museu Van Gogh, em Amsterdão, que, por coincidência, visitei em Dezembro passado. A exposição de Londres teve a particularidade de atrair algumas das cartas e quadros do Museu de Amsterdão, mas captou igualmente espólio espalhado pelos quatro cantos do mundo: do “Museum of Fine Arts” de Boston ao de Rhode Island, do “Museu Rodin” de Paris à "National Gallery" de Londres. As cartas de Van Gogh constituem uma porta aberta para o universo do artista, para uma retaguarda onde normalmente não nos é permitido entrar, fazendo a ponte entre o homem e a sua história trágica, entre os seus quadros e a sua solidão. Como refere Vincent, numa das suas cartas a Theo, “passam-se muitos dias sem dizer uma palavra a ninguém, excepto quando encomendo o jantar ou um café”. As suas confissões a Theo revelam parte da sua existência. Uma existência socialmente isolada, com relacionamentos emocionais frustrados, com dificuldade na gestão das suas amizades (os problemas com Gaugain levam-no a mutilar um pedaço da sua orelha direita), um temperamento irrascível e manifestas dificuldades financeiras às quais Theo respondia sempre prontamente. Pela complexidade do mito, pela destreza da arte, pela pintura que hipnotiza, pelas cartas que cativam. Por tantas razões e mais algumas, valeu a pena ír a Londres conhecer o “Real Van Gogh”. Caso passe por esta magnífica cidade, até 18 de Abril, aqui fica a minha sugestão. A não perder.
Para quem tiver curiosidade em ler a correspondência de Van Gogh, deixo aqui um site onde é possível explorar as cartas que Vincent endereçou aos seus correspondentes, com particular destaque para o seu irmão Theo. As opções de visualização são multiplas. Pessoalmente, a opção "cronológica" -associada aos quadros- e por "tema", tem obtido a minha simpatia aqui. No próximo post falarei do quadro que mais me impressionou na exposição.
The Tarascon Diligence - Vicent Van Gogh - 1888

18.3.10

Israel - Is Peace out of reach?

Quando no mês passado ouvi a notícia que os ministros dos Assuntos Exteriores da França, B. Kouchner, e da Espanha, Miguel Moratinos, pretendiam em uníssono, e no prazo de 18 meses, promover o reconhecimento de um Estado “hipotético” palestiniano, questionei-me qual seria a utilidade prática desta solução. Concorre para as minhas dúvidas o facto desse reconhecimento pretender ser efectuado, independentemente das fronteiras entre Israel e a Palestina estarem previamente definidas, visando-se, tão somente, a consagração de algumas fundações económicas, legais e de segurança que, hipoteticamente, num futuro estado palestiniano possam vir a vigorar. Com esse acto pretende-se actuar, junto da comunidade internacional, com uma eficácia persuasiva. Julgo que esta situação será semelhante, grosso modo, à elaboração de uma escritura fictícia sobre um imóvel vizinho, de permilagem indefinida, tentando, posteriormente, com esse papel, ferido de nulidade insanável, forçar o visado a uma transmissão compulsiva da propriedade. É no mínimo ridículo. A pretensão, a meu ver, ferida de inoportunidade grave, terá certamente subjacente o facto de a Espanha se encontrar na Presidência da U.E. o que., a imaginar o retrato de família, teríamos uma repetição de Camp David, de 79, desta vez com protagonistas diferentes, e, quem sabe, princesas a correrem pelos jardins da Zarzuela com uns “Porque no te calas?” sorridentes pelo meio, enchendo de louros uma Espanha monárquica envaidecida.Só que a ideia espanhola não vai nunca levar a lado nenhum podendo, inclusivamente, funcionar como um contra-vapor para o Governo Israelita. Quem esteve, alguma vez, em Israel sabe que é, na prática, impossível atender à reivindicação palestiniana, ou seja, a reposição das fronteiras correspondentes ao ano de 1967 (veja-se mapa 3 em acima). Não esqueçamos que foi nesta data, que os tanques israelitas entraram no deserto do Sinai e lançaram um ataque surpresa, conquistando os montes Golan à Síria, a Faixa de Gaza, o Sinai do Egipto (devolvido em 79, após os acordos de Camp David), a Cijordânia tomada à Jordânia e o último reduto de esperança para a capital palestiniana, a cidade de Jerusalém. Perante este quadro, adicionando o crescendo de territórios palestinianos ocupados por colonos ortodoxos, nem sequer percebo aonde é que os espanhóis pretendem chegar. Foi por isso, com alguma satisfação que ouvi ontem o Presidente Brasileiro proferir declarações que, muito embora possam prolongar um registo lírico e na realidade não concretizem nada, pelo menos tiveram a faculdade de posicionar publicamente o Brasil naquele grupo de países que defende a criação de um Estado Palestiniano com o inerente derrube do muro da Cijordânia. É, pelo menos, uma posição que não pretende persuadir. Pretenderá antes apelar a toda uma comunidade internacional que, em uníssono, comece a construir a casa pelas fundações e não pelo telhado. A solução pretendida pelos palestinianos será, a meu ver, impossível de concretizar. Os israelitas nunca irão recuar até às fronteiras de 67.
Qual será o futuro? Na minha modesta opinião, num país onde se pôs em prática os princípios básicos preconizados na Animal Farm, de George Orwell: “Todos os cidadãos são iguais mas há uns mais iguais do que outros” antevejo que a crise surgirá não devido a pressões da comunidade internacional mas antes devido às diferenças que daqui a uns 20 a 30 anos se farão sentir na população do país. Consultei na net os índices de previsão demográfica, para o próximo século, em Israel, e os valores apontam para um decréscimo da população judia, nos próximos 10 anos, de 66% para 60%, caso permaneçam os mesmos índices da taxa de natalidade palestiniana. Prevê-se, ainda, que no ano de 2040 esse número se equipare passando a partir dessa altura os palestinianos a serem em maior número, o que promoverá uma bomba relógio demográfica neste país, havendo necessariamente que encontrar uma solução pacífica. O mês de Março foi profícuo em intenções. O vice-P dos Estados Unidos, Joe Biden, manifestou-se igualmente pelo constituição de um estado palestiniano. É curioso, cada vez que ouço estas notícias a primeira coisa que me vem à memória são os montes Golan. É que vi-os ao anoitecer. Localizados na fronteira com a Síria eram, à data da sua ocupação, uns montes tristes e desérticos, oferecendo apenas inquestionáveis vantagens estratégico-militares. Hoje, ao observá-los ao longe, ao anoitecer, guardo a imagem de uma verdadeira árvore de Natal iluminada com milhares de luzes de colonatos judeus que, acredito, plenamente, nunca aceitarão a desocupação sem o recurso a uma sangrenta guerra civil. À imagem do que aqui referi, julgo que este filme, com a qualidade a que a CBS já nos habituou, falará por si. Oxalá me engane, nas minhas previsões de paz.

Fontes:
geography.about.com; al jazeera; NYTimes; wikipedia; http://www.zionism-israel.com/hdoc/rural_palestine.htm

4.2.10

Visões Oníricas na Via Dolorosa


Preparo-me para atravessar os grandes portões da muralha. Dão acesso à Cidade Velha. Haverá aqui algum Cerberus escondido? Cão tricéfalo, monstruoso, guardador do reino dos mortos nas portas de Hades. Cabeça disforme, olhos odiosos, boca descomunal, língua carnuda a salivar, dentes aguçados, manápulas sebentas, pelo eriçado. Tenho nas mãos a Esperança de Pandora. Preparei-me para o enfrentar. Sempre gostei de cães tricéfalos. Tinha tudo pensado. Faca na liga, luta corpo a corpo, golpe mortal no coração, vitória de Samotrácia. Concentro-me nos portões. Olho para cima. Reza a lenda que Salomão, o Magnífico, mandou construir as muralhas de Jerusalém com medo de ser comido por leões. Esculpidos de cada lado vejo quatro leões petrificados. Tomam conta da porta como gatos amestrados de um circo serôdio dos subúrbios. Dou-lhes com a chibata e eles deitam-se de quatro. Patas para o ar, rebolar dengoso, festas na barriga, cabeças para trás, olhos fechados. São quatro vira latas arruaceiros. Agarro-os por uma pata e vejo que não têm unhas. Ah! Afinal, são só gatos de circo. Daqueles que produzem compassos ao som da banda e se esfalfam por um premiozinho no final do espectáculo. Nem os olho. Desprezo gatos suburbanos de telhado a imitarem leões. Pendurados do lado de fora das muralhas ladeiam a porta de Santo Estevão. Chamam-lhe também Lion´s Gate. Prefiro este nome à do protomártir. É mais felino. Passo. Os gatos não me perturbam. São um tédio. Enervam-me. Prefiro o olhar manhoso dos leopardos. Olhares no escuro, pelo tresmalhado, andar sorrateiro, rastejar matreiro. Esses sim, fazem-me reagir. Assustam-me! Ainda bem que aqui não há leopardos. Entro na Cidade Velha de Jerusalém com a calma dos peregrinos. O destino é a Via Dolorosa e as 14 Estações. Com início no Pretório, o local onde Jesus foi acusado e condenado, a Via-sacra termina na Igreja do Santo Sepulcro, local da crucificação, sepultura e ressurreição de Jesus Cristo. Não há nenhuma evidência histórica que comprove que este foi, efectivamente, o caminho que Cristo percorreu. Ao longo dos anos o trajecto sofreu diversas alterações. Mas isso não importa! A fé é que é essencial nesta amálgama de emoções que nos faz desejar vibrar como as beatas que perfumam em êxtase a pedra da Gólgota. Algumas igrejas marcam o local das Estações. Com uma decoração sóbria e com magotes de turistas, todas elas mantêm a tranquilidade típica dos templos de oração. O piso, formado por enormes blocos irregulares, tem mais de 2 mil anos. Segundo dizem, Cristo andou por aqui. Todos olham nesse momento para o chão. Julgo que veêm a marca indelével deixada por Cristo. Não consigo ver nada, mas sei, pela expressão, que outros veêm. Quem me dera ver essas coisas, penso. Vitrais coloridos, imagens de santos dourados, vigas de aço no tecto. Janelas tímidas que deixam entrar pequenas fracções de luz onde esvoaça o pó dourado levantado pelo vai vem dos turistas. Sento-me num banco de igreja a ver o pó bailar. Sossega-me. Cá fora, pequenas lojas e tendas, onde fervilha o comércio árabe, animam a rua. Panos de cores garridas, crucifixos de plástico pendurados, quadros duvidosos de Virgens ortodoxas, sacos de Jerusalém, cromos sebentos de jogadores da bola e do ténis. Réplicas muçulmanas das lojas chinesas, atafulhadas de contrafacção. Cópias sem qualidade ou originalidade. Monótonas à chegada, um tédio na permanência, desesperantes à saída. Deviam ser todos escorraçados a chicote como os vendilhões do Templo. Deus não vende a sua bênção. Sem paciência para entrar nas lojas, tento-me só com aquelas, muito poucas, onde vale a pena permanecer. A escolha é fácil. Originalidade, sobriedade. Qualidade nas matérias-primas e nos produtos seleccionados. Essas, são as lojas onde somos recebidos com uma mão afável nas costas. Chás de hortelã em efusão, troca de olhares carinhosos, sofás de brocado no chão, almofadas majestosas. Lojas acolhedoras onde apetece deitar em aconchego e ronronar numa sesta tranquila ao som de Ludovico Einaudi. Cheiros intensos a incenso sufocam-me à chegada. Inspiro forte. O fumo baila no ar em rodopios. Envolve-nos os cabelos, entranha-se na pele e na roupa com ares de doce veneno que alimenta adamastores adormecidos. Ambientes exóticos sustentados na névoa. Sentados no chão os donos da loja preparam o chá. Expõem as relíquias, vagarosamente. Uma pequena mesa com incrustações de madrepérola faz de expositor. Artesanato dos beduínos do deserto, tapetes com desenhos milenares, pulseiras de pedras preciosas, marfim africano. Com orgulho explicam os processos de manufactura. Assisto, mais por curiosidade do que por interesse em comprar. Só me seduzem as coisas raras. Aproveito para descansar. Saio pouco depois. Dirijo-me para a Igreja do Santo Sepulcro. À minha volta, a Via Dolorosa está cheia de ímpios incrédulos que blasfemam e apregoam injúrias. Sombras quixotescas que ladeiam o Calvário. Vejo um Magritte encapuçado com uma coroa de espinhos. “Verónica”. Imagem verdadeira. Pano gravado com a alma de Cristo. Caminho para a redenção. Compra de direitos. Liberdade. Ressurreição. Fotogr: CRV©