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20.12.11

Dedos na crise


Os melhores debates são os: curtos, directos, incisivos, perturbadores e que não receiam dizer a verdade.
Revoltar o praxismo diplomático é ter a audácia de destapar as origens da crise, nomeá-las pelo nome e colocar  o dedo na ferida dos políticos que irresponsavelmente delapidaram as economias dos países europeus que se encontram na banca rota. A esperança, para a saída da crise, descansa sobre as restrições impostas sobre todos os cidadãos que estarão, nos próximos anos, a suportar o pagamento das fortunas acumuladas pelo status político desonesto, bem como os projectos megalómanos idealizados pelo outro quorum irresponsável.

* Ficamos satisfeitos por nos lerem, apesar de não termos sido referenciados.
   Fica então o link para o Delito de Opinião

19.7.11

Impérios de Barro

                                                           Londres - The House of Parliament and the Big Ben

“Ela era soberba em fazer as celebridades pensar que uma história terrível era na verdade boa para elas” Piers Morgan, referindo-se a Rebekah Brooks.

A violação da esfera privada é protegida por lei e compreende todos aqueles actos que, não sendo secretos em si mesmos, devem subtrair-se à curiosidade pública, por naturais razões de resguardo e melindre. É o caso dos sentimentos e afectos familiares, os costumes da vida e as práticas quotidianas que se desenvolvem entre o foro das paredes domésticas e que, naturalmente, deverão ser objecto de resguardo público. Já tinhamos abordado o tema aqui
numa outra perspectiva, mas o assunto adquiriu agora contornos megalómanos, com o caso das escutas telefónicas levadas a cabo por jornalistas do News of the World cuja primeira página dá pelo nome de Rebekah Brooks. Orgãos de imprensa e jornalistas, encontram-se vinculados a códigos de ética e de conduta que deverão presidir às fundações de todo o edifício da sua actividade profissional. O rigor e a objectividade de tratamento da informação deverão ser elementos complementares dessa conduta, devendo funcionar como medida criteriosa na análise, triagem e apuramento da genuidade das fontes sob pena de, falhos estes requisitos, estarmos perante uma actuação culposa, passível de procedimento criminal. As suspeitas que envolvem o caso Brooks são suficientemente angulosas para fazerem acreditar que por de trás de cada página editada se escondem atropelos graves à lei cuja motivação consistiram, exclusivamente, na produção de notícias de conteúdo sensacionalista sem que daí resulte qualquer tipo de contrapartida à qual se reconheça uma mais valia ou interesse social. O rol de violações é extenso. Acumula práticas que qualquer juízo de ponderação concluiria pelo potencial dano moral causado aos visados ou aos seus familiares, sejam elas as violações do sigilo médico do filho mais novo de Gordon Brown, as escutas telefónicas aos familiares de soldados mortos no Afeganistão, às vítimas do 11 de Setembro, ou ainda o acesso ao voice mail da jovem desaparecida Milly Dowler. Todos os contornos do caso News of the World pecam pela violação da privacidade que se extrema aqui até aos seus limites. É que haverá que notar que o direito de personalidade dos ofendidos, não o foi, apenas, perante um terceiro, mas, sim, perante toda uma comunidade, com exposição em orgãos de imprensa, noticiários e disseminação pela internet, o que acentua a carga de ilicitude das violações praticadas e o dolo manifestamente utilizado na obtenção das informações que as antecederam. De dia para dia, o caso começa a adensar as areias movediças no qual o império Murdoch se movimenta e as motivações que o sustentam. Como em qualquer pântano, ao agitar das águas, segue-se o cataclismo das profundezas, onde tudo o que paira à tona previsivelmente se afundará, no lodo das violações da privacidade alheia e dos danos causados à honra e à dignidade dos visados.
Fotogr: CRV©

15.7.11

Maio - Fim de semana de eleições em Madrid

Domingo. Dia de sol intenso em Madrid. Na cidade, o rescaldo das eleições anunciava a vitória do PP. Os jornais, numa tiragem excepcional, teciam expectativas criadas com a mudança. Falava-se num sentimento de frustração nacional cuja intersecção se centrava no eixo do micro-cosmos espontaneamente criado nas Puertas del Sol. Num fim de semana de eleições por Madrid, pude testemunhar a mobilização que o movimento 15-M gerou na sociedade espanhola. A praça das Puertas del Sol, encheram-se de “indignados”, apesar da proibição da manifestação por parte da Junta Eleitoral Central e da recusa do Supremo Tribunal de Justiça em suspender o veto aos manifestantes, com o argumento da necessária paz e reflexão, em momento pré-eleitoral. Com cerca de 4 milhões e meio de desempregados, a Espanha apresenta a maior taxa de desemprego da OCDE e da União Europeia, tendo soado o gongo ao atingir os 20,33%, no início deste ano. Nestas eleições, concentraram-se expectativas legítimas de mudança. Reivindou-se o fim da corrupção política, novos rumos para a sociedade espanhola, uma maior intervenção cívica da população, e o fim do divórcio partidário nas camadas mais jovens. Cheguei a meio da tarde. Pelo chão, um número infinito de cabos, fios, material de som e filmagem. Frente às câmaras, os jornalistas posicionavam-se para os directos da tarde. Ensaiavam-se planos, os contra-luz perfeitos, geriam-se reflectores para iluminarem rostos. Fotógrafos, armados da sua parnafenália, corriam ao menor zumbido na praça. Ultrapassadas as horas efusivas do 15 de Maio, o cenário a que assisti contrariou as expectativas de atropelos de massas ou confrontos com a polícia. A praça, imaculadamente tranquila, sob um sol abrasador, encontrava-se dividida em zonas de intervenção específicas.
Do meu lado direito os manifestantes aquartelados organizavam-se em workshops. Procediam à concepção de placards, com slogans alusivos aos temas da mudança. Em frente, lonas azuis, suspensas por cima das nossas cabeças, produziam um efeito de estufa, dando um ar de bazar marroquino ao local. Era aí que se desenrolava um intenso comércio gastronómico de conveniência, aproveitado pelos manifestantes e turistas de passagem. Bebidas sim, mas não as alcoólicas de modo a evitar a convolação da manifestação num Woodstock espanhol. A atestá-lo, vários catrapázios expostos anunciavam que “AQUI SI PIENSA” o que me deu um inegável conforto revolucionário quando observei uma série de cabeças em colectivo, deitadas no chão, a dormir “la siesta”. As ruas adjacentes funcionavam como dormitório. Filas intermináveis de tendas atropelavam as entradas do Corte Inglês e do comércio local. Foi aqui que Almodôvar também pernoitou. Olhando em volta, não pude deixar de felicitar o movimento pacifista e aqueles que se entregam devotamente a causas que preconizam ventos de mudança. Contudo, não deixo de observar, com algum cepticismo que a capacidade mobilizadora destas iniciativas, junto das instâncias políticas, é limitada por uma fronteira histórica quase intransponível. Numa rápida evocação de imagens, que atravessam o pós franquismo até aos anos noventa-europeístas, com Gonzaléz e os fundos comunitários, é inegável que uma classe de novos ricos prosperou à custa de um bluff económico sustentado nas andas dos créditos, das hipotecas, dos fundos perdidos e numa malha económica que pendia frequentemente sobre o precipício das falências. Aquilo que vi nas Puertas del Sol não foram mais do que esses rostos, de puro desencanto social, arrastados para o fundo, pelo El Dorado de alguns, surgindo agora à tona com gritos de indignação e de revolta nacional.  Contudo, não acredito que se perspective qualquer solução a curto prazo. O futuro passará, talvez, por uma reestruturação da zona euro, pela adopção de filosofias constrututivas relativamente às ajudas económicas ao invés de dotar os países necessitados de uma massa económica, cuja gestão cria uma ilusão de riqueza, gerando apetência para construções megalómanas e projectos utópicos, que seriam liminarmente abandonados num quadro de contenção exclusivamente nacional. Até lá, o caminho a percorrer será longo, arrastando uma massa humana que já compreendeu que o buraco que se escavou nas últimas duas décadas, terá de contar com a colaboração de todos os indignados ou então, não haverá movimento de PENSADORES que nos salve.

Fotogr:CRV©

7.4.11

O Eterno Retorno

“Hoje, estou preso. O meu corpo está preso numa masmorra, o meu espírito está preso por uma ideia. Uma terrível, uma sangrenta, uma implacável ideia. Só tenho um pensamento infernal, como um espectro e chumbo, só e repelindo qualquer distracção, frente a frente comigo, miserável de mim e sacudindo-me com as suas mãos de gelo, quando quero voltar a cabeça ou fechar os olhos. Ele introduz-se sob todas as formas, naquilo onde o meu espírito procurava fugir-lhe, junta-se como um estribilho terrível, a todas as palavras, que me dirigem, cola-se às grades hediondas da minha prisão; obsedia-me acordado, espia o meu sono convulsivo e reaparece-me em sonhos na forma de um cutelo.”
Vitor Hugo in “O Último dia de um condenado”

Quando ontem folheava o Público não foram os milhões de Khadafi congelados, nem o monocórdico Sócrates ou os seus repetidos esforços inglórios para conter as despesas públicas que me cativaram a atenção. Muito menos as questões jurídicas que envolvem os pagamentos de Berlusconi no desinteressante caso Ruby. A minha atenção, foi compulsivamente desviada para a página que dava conta da prisão do artista chinês Ai Weiwei e do assassinato, em Israel, por um grupo estremista palestiniano, do actor Juliano Mer-Khamis, símbolo da luta pacífica pela causa palestiniana no seu país. Ambas as acções ocorreram sem razões ou fundamentos que as justifiquem, numa atitude de prepotência e autoritarismo, no primeiro caso das autoridades chinesas, que levaram a cabo buscas no domicílio de Ai Weiwei, apropriando-se de material informático, vandalizando os discos rígidos dos seus computadores, numa manifesta violação da privacidade e dos direitos liberdades e garantias individuais. Com paradeiro desconhecido, Weiwei está sob a custódia dos temerários da diferença, dos cobardes que se escondem atrás do escudo político e dos seus privilégios cumezinhos, daqueles que pactuam contra qualquer manifestação que possa beliscar os camarotes da monótona política instalada, daqueles que, tal como o condenado à morte, têm o corpo e a mente encerrados em masmorras e espiam compulsivamente o sono tranquilo dos livres de espírito. Como quaisquer condenados à morte, as ditaduras cedem às manifestações pela liberdade que se infiltram, mais tarde ou mais cedo, pelas frestas da demência calcificada escondida atrás das ilegalidades dos objectores da diversificação e da pluralidade de ideias. Apesar dos esforços de alguns representantes dos governos ocidentais, nomeadamente, dos Estados Unidos, União Europeia e Alemanha, até esta manhã presumia-se que Weiwei permanecesse sob detenção em parte incerta. Acreditamos que os esforços internacionais produzam rapidamente a inevitável alteração das circunstâncias. Fotogr: Desc