27.11.17

O Temple Expiatori de Gaudí

Sentada no centro do "Temple Expiatori” rodeia-me uma floresta de árvores de pedra formada por troncos robustos com ramos petrius que se expandem, em folhagem harmoniosamente ramificada, até um tecto iluminado que me faz lembrar as estrelas do céu.
Sagrada Família - 2026
À minha esquerda o sol da tarde atravessa os vitrais de cores quentes, virados a sul, refractando a luz colorida e agigantando as imagens da vida de Cristo dando um colorido harmonioso ao chão da Basílica.
Olho em redor e ao contrário de outros templos de grandes dimensões, a arquitectura de Gaudi mudou o conceito gótico clássico dos grandes espaços. A forma e o pathos do sistema arquitectónico ganhou aqui novas geometrias e volumetrias, metamorfoseando a mística religiosa fria e descontínua, das grandes naves de pedra fria, que as grandes catedrais europeias geralmente nos sugerem.
Na decoração interior, foram excluídos os elementos carregados de mensagens apocalípticas. Ausentes estão os excertos da Bíblia que retratam a violência dos justos, o sacrifício místico dos santos, a redenção dos pecaminosos ou a destruição das cidades do Vale de Sidim. Em lugar da mística sacrificial encontramos um complexo arquitectónico que sugere uma combinação de elementos naturais ligados por uma relação simbólica de pertinência, que produz uma sensação agradável e de bem-estar.
Retiro o meu pequeno caderno e escrevo umas notas sobra as impressões que o espaço grandioso, impregnado das concepções geniais de Gaudi, me sugerem.
Por toda a Basílica, a luminosidade assume um protagonismo significativo, não só na cobertura da floresta densa, onde as abóbadas do tecto filtram a luz do dia, salientando os pormenores artísticos de folhagem no tecto, mas também nos subterrâneos e na cripta onde Gaudi fez questão que a luz chegasse de forma directa evitando qualquer iluminação artificial. Formada por sete capelas, dispostas em meio círculo é numa pequena capela da cripta, decorada com um baixo relevo de Josep Llimona, representativo da Sagrada Família na casa de Nazaré, que hoje se celebram as Eucaristias.

O inicio da construção
A ideia da construção de um templo para homenagear a Sagrada Família surgiu nos finais do séc. 19, no seio da Associação dos Devotos de São José, tendo o seu presidente, o livreiro Josep M. Bocabella, sido o seu mentor. Iniciada a procura de um local condigno com o culto, confrontou-se Bocabella com o valor exorbitante dos terrenos na cidade muralhada de Barcelona, acabando por encontrar uma quadrícula mais económica, nos arredores da cidade antiga, tendo por isso tido a possibilidade de adquirir um talhão de terreno de maiores dimensões do que aquele que inicialmente tinha idealizado. O local era modesto, rodeado de hortas, casas de camponeses e um novo bairro operário que se desenvolvia paralelamente à explosão da revolução industrial. A localização, fora da zona privilegiada de Barcelona, valeu-lhe durante muitos anos a denominação da "Catedral dos Pobres”. 
Corria o ano de 1880 e dois anos mais tarde iniciavam-se os trabalhos de construção do templo, com a colaboração do arquitecto Francisco del Villar que, após entrar em rota de colisão com Bocabella, seria substituído 1 ano mais tarde por Antoni Gaudí, um jovem arquitecto visionário que apresentou uma maqueta revolucionária, com uma exuberância e um significado que elevaria o projecto inicial do templo gótico a Basílica, competindo orgulhosamente com a catedral medieval de Santa Maria del Mar, instalada na zona antiga da cidade de Barcelona.
Fachada do Nascimento
São raras as catedrais que visitamos para as quais o nome dos arquitectos envolvidos torna a visita uma descoberta. Quando é que ao visitar a gótica Westminster Abbey nos recordamos dos seus arquitectos? Ou Jean de Chelles e Pierre de Montreuil, dois dos arquitectos da gótica Notre-Dame? Ou ainda a bizantina-gótica São Marcos? Todas estas catedrais são uma revelação maior da arte românica ou gótica mas o que nos conduz de facto à Sagrada Família é a exuberância das abstrações surpreendentes, convertidas em forma e volume, pela mão de Gaudí. A floresta de pedra, metamorfoseada como uma gruta, as pulsões transfiguradas nas formas que se afastam dos elementos tradicionais carregados e, particularmente, as inserções naturalistas dispostas num espaço arquitectónico com uma simbologia de união entre a terra e o céu.
Gaudí, para além de história, estudava a natureza e esse interesse encontra-se reflectido por toda a basílica onde penetrou de forma evidente o mundo morfológico natural transfigurado. Aquilo que poderia ter sido uma estrutura arquitectónica tradicional transformou-se numa arquitectura de elementos naturais ornamentais. 
Na fachada do Nascimento, a simbologia dos elementos utilizados traduzem, todos eles, mensagens relacionados com a mística cristã. Emoldurado por um “cipreste", sinónimo de “vida imortal e hospitalidade”, vemos poisado um bando de "pombas brancas” como uma alegoria às almas puras que aguardam a sua entrada no "paraíso”. Este é o umbral do templo que une a terra e a o céu.
Altar
As "plantas e os pássaros", que representam a "alegria do nascimento de Jesus", as "duas tartarugas”, a da esquerda com barbatanas, virada para o lado do mar e a da direita com patas porque se encontra virada para o monte Montjuïc que rodeia Barcelona. Igualmente as gárgulas, que nos habituamos a ver nas igrejas góticas, geralmente representadas com ornatos animalescos ou figuras monstruosas, numa advertência de vigilância contínua aos fiéis que o demónio nunca dorme e que é preciso estar alerta, não tiveram aqui lugar. Na Basílica, as gárgulas de chifres e as linguarudas foram substituídas por uma infinidade de animais e plantas que saltam vigorosamente da pedra inerte numa fertilidade da natureza que envolve harmoniosamente todo o espaço.
As dezoito torres que se elevam nos céus de Barcelona seguem critérios rigorosos de volumetria e altura, projectados por Gaudí, obedecendo à máxima de que “a obra do homem não deverá ultrapassar a de Deus” referindo-se à altura das torres da Basílica que não deveriam exceder a altura do monte Montjuïc que se encontra a montante de Barcelona. 
Gaudí construíu, involuntariamente, uma aura mística em seu redor potenciada pela sua personalidade reclusa e introvertida. Devoto confesso, via manifestações de Deus em todo o lado, na Basílica, nas torres, nas representações morfológicas na pedra patente no simbologismo da sua criatividade. Da nossa visita, apreendemos essa visão acutilante, genial. A transição do clássico frio e distante para o novo pathos natural. A mudança, das pulsões fatalistas para a harmonia espiritual das almas.

30.10.17

O fotógrafo - #METOO

O cinzento das paredes e o crucifixo por cima do quadro davam à sala de aula um ar tão monótono quanto austero. Com três grandes janelas em formato de ogiva envidraçada, a luz irrompia pelas vidraças refractando-se lentamente em raios tingidos com as cores do arco-íris. Beatriz fugia para longe da voz monocórdica da professora e perdia-se na dança das partículas suspensas no ar. Interessava-lhe mais a razão porque que se mantinham a flutuar, ou qual a fresta por onde entraria o vento que as fazia remoinhar, do que o monólogo enfadonho sobre o sistema morfológico dos peixes, o pedúnculo das plantas ou o sistema gastro-intestinal dos pássaros. Com uma silhueta esguia, cabelos louros compridos e cara espevitada, os seus olhos azuis eram dois globos curiosos que procuravam ávidos os reflexos onde se desenhavam os contornos das grandes questões do mundo.

A campainha ressoou pelos corredores da escola. Em uníssono, o arrastar das cadeiras dava por terminada a aula. A hora do almoço passava depressa por isso Beatriz tinha que correr para conseguir apanhar o fotógrafo da escola ainda aberto pois ansiava ver as provas das sessões do curso que iriam ficar para a posteridade.
Com a pressa dos adolescentes correu escada a baixo, saltando os degraus dois a dois, e disparou em direcção ao portão procurando evitar o congestionamento da saída quando todos se acotovelavam para se lançarem para fora dos muros, onde a cidade se agitava a cada passo desengonçado da vida. Logo à saída, o fumo e o cheiro a diesel dos carros entranhava-se nas narinas sufocando os primeiros minutos de liberdade. Era preciso inspirar profundamente e sair a correr por entre os carros arriscando a censura das buzinas imprevistas e os transeuntes que se atropelavam a reclamar prioridade na passagem.
Sair da escola sozinha era sempre uma experiência de iniciação. Lá fora, onde a protecção dos muros desfazia a castidade das conversas amenas, havia sempre o receio, no desenrolar das faixas da personalidade, em deparar-se com bloqueios, mal-entendidos ou com aqueles que mastigam vagarosamente a crueldade como um naco amargo de carne enrolado numa boca sem dentes.

Beatriz correu depressa para o fotógrafo. A loja ficava numa daquelas ruas em que os carros se sucediam com uma inquieta indiferença, apenas respeitando as pausas impostas pelos semáforos, para depois seguirem, mecanicamente, como se a rua fosse um amontoado opaco onde nada constituía uma mais-valia para se deterem.
A loja tinha o ar antiquado dos fotógrafos resistentes de bairro. A porta, em ferro antiga, dava-lhe um ar pesado e decadente. Nas montras laterais, acumulavam-se fotografias de casamentos e baptizados amarelecidas pelo tempo. Desconhecidos, que deixaram, no instante do sorriso, as tristezas e as amarguras atrás da câmara, fora dos registos da posteridade dormente da vida.
A porta encontrava-se entreaberta. Com a timidez dos adolescentes, Beatriz atreveu-se a espreitar para ver se havia movimento. Nada. A loja estava vazia. Na parede, por cima do balcão de madeira, um relógio, marcado pelo tempo, indicava que faltavam cinco minutos para a uma. Por pouco tinha encontrado a loja fechada. Decidiu entrar, dando os bons-dias em voz alta para ver se alguém aparecia. Do fundo da loja, por detrás de uma cortina de veludo encarnada, reconheceu o fotógrafo da escola.
- Bom dia! Estava a fechar para o almoço - disse o homem
- Bom dia. Vinha ver as provas das fotografias da escola. Ainda é possível? É rápido, não demoro mais que 5 minutos.
- Muito bem, mas primeiro deixa-me fechar a loja para não entrarem mais clientes.
Contornou o balcão e fechou a porta no trinco. Depois, convidou Beatriz a segui-lo.
- Por aqui! - disse ele - Estive agora mesmo no laboratório a trabalhar nas vossas fotografias. Se quiseres podes seguir-me para escolheres as provas.
Beatriz seguiu-o com curiosidade. Desceram uma escada íngreme que levava ao que parecia ser a cave da loja. Beatriz desceu com dificuldade em graduar a visão à transição da claridade do dia para a escuridão repentina. Para evitar passos em falso tacteou com o pé a ponta dos degraus evitando assim cair.
Ao fundo da escada, sem que conseguisse perceber o que a rodeava, um neon indicava à sua esquerda: “câmara escura”.
- Entra e vem ver as fotografias - disse o fotógrafo.
Por detrás de uma cortina preta um compartimento quase às escuras era iluminado sumariamente por uma luz ultravioleta que pendia do tecto. Por cima da sua cabeça percebia-se o recorte de inúmeras fotografias suspensas, presas por molas, a fios que ligavam ambos os lados das paredes, como se se tratasse de roupa a secar numa corda. O ar, estava impregnado com um cheiro acre, proveniente dos produtos químicos que se encontravam nas tinas de revelação, tornando a respiração pesada e arrastada em esforço.
- Gostas de fotografia? - perguntou o fotógrafo
- Sim, gosto. Posso escolher as da escola?
Na cave, todos os ruídos do mundo pareciam ter desaparecido e eram agora pouco mais que sussurros encobertos vindos do andar de cima. Já não se distinguia o motor dos carros, o caminhar das pessoas e todo o mundo físico parecia agora uma epifania desolada, lá longe, fora do alcance da cave. Beatriz mantinha-se imóvel enquanto aguardava que o fotógrafo arrumasse uma bancada com vários objectos desordenados. Conseguia distinguir, no lusco fusco violeta, os contornos das tinas com líquidos transparentes, uma guilhotina, material fotográfico disperso, lentes, uma máquina que parecia um amplificador e papel de fotografia seguro por pinças.
- Com esta luz não se consegue ver quase nada. Pode acender a luz? - perguntou Beatriz -
- Já acendo, mas olha, se gostas de fotografia vem ver como se faz uma. Eu ensino-te - disse o fotógrafo -
Com postura de mestre, o fotógrafo começou a explicar o percurso das fotografias, desde o momento em que chegavam à loja, em rolos de 35mm, até ao seu tratamento na câmera escura e a posterior ampliação dos negativos.
- Queres ver como se amplia uma fotografia? Chega aqui! Coloca as duas mãos neste aparelho, espreita por este sitio até veres o negativo. Já vês? Agora roda para focar até a ampliação ficar nítida. Consegues ver o resultado?
Beatriz estava petrificada. O fotógrafo ía-lhe dando instruções sobre a máquina, mas ao mesmo tempo, encostou-se desconfortavelmente às suas costas. Sem que esperasse pegou-lhe nas duas mãos, abusando de uma proximidade que era manifestamente indesejada e que a deixou sem conseguir articular uma palavra. O coração de Beatriz batia com força e as mãos geladas ganharam o tremor dos estados de ansiedade urgentes. Tentou manter a calma. Sabia que estava numa cave e que não tinha comentado com ninguém que vinha a esta loja. Ninguém estaria à sua espera nas próximas horas. Sabia que se gritasse ninguém a ouviria pelo que tentou fingir que não percebia o que se passava enquanto o fotógrafo lhe segurava as mãos, insinuando-se por detrás com o corpo cada vez mais colado ao seu. Sentia-lhe as pernas e a barriga proeminentemente desconfortável. Sentia-lhe agora uma respiração ofegada contra a debilidade dos seus cabelos. Olhando por cima do ombro direito de Beatriz o fotógrafo debruçava-se agora para a frente, contraindo o corpo contra o de Beatriz deixando-a em pânico imobilizada.
Beatriz permanecia estática, parada. Queria ser sombra, ser espectro, ser nuvem que se dissipasse e desaparecesse mas manteve-se como se estivesse ausente. Continuava sem se conseguir mexer. - Pensa, pensa o que fazer! Depois, o medo começou a tomar conta do corpo. Pensou que podia acontecer algumas daquelas coisas das que já ouvira falar a outra gente. Pensou em como se poderia defender. Estudou todas as hipóteses numa fracção de segundo que lhe pareceram séculos. Lutar. Seria capaz de lutar. Mas não conseguia reagir. Não conseguia mexer-se sequer. Sentia-se paralisada. Só pensava em sair dali. Depressa. Sem no entanto demonstrar exaltação ou ansiedade.
- Gostei muito. Que horas são? - perguntou Beatriz voltando-se, tentando criar espaço entre ela e o fotógrafo.
O homem recompôs-se e incomodado com a questão olhou para o relógio.
- São uma e meia - disse o homem
- Tão tarde! Muito obrigada pela demonstração mas tenho que me ir embora. A esta hora já devem estar as minhas três amigas lá fora à minha espera. Disse-lhes para me virem buscar aqui para irmos almoçar juntas. Já devem estar na porta. Se não se importa as fotografias da escola ficam para outro dia.
Nisto o fotógrafo desligou a lâmpada ultra-violeta e acendeu a luz iluminando convenientemente a câmara escura. Adaptando os olhos à mudança Beatriz foi-se aproximando da cortina escura preparada para correr escada acima.
- Vou lá a cima ver se as minhas amigas já estão à minha espera na porta.
E sem olhar para trás, correu escada acima, abriu a porta da loja e desatou a correr sem parar rua fora, até chegar à escola. Nunca mais voltou à loja.
Entre muros, entre a segurança dos colegas e dos professores, Beatriz quis esquecer o episódio e manteve-o por muitos anos perdido no tempo.

O movimento #METOO, que tomou conta do meio cinematográfico norte-americano, tendo já lançado nomes para a fogueira de outras áreas da indústria, veio expor a condenação de múltiplos casos de assédio levados a cabo por personalidades que se encontram em cargos de destaque profissional e que consideram ter um ascendente sobre as vítimas. O predador, normalmente, caracterizado como um narcisista-egocêntrico, nunca pensa nos danos, por vezes irreversíveis, que promove nas suas vítimas. O predador obsessivo-compulsivo, não resiste à necessidade de cercar e de se impor na vida das suas vitimas. Alimenta-se do bem estar dos outros. Inveja a harmonia e a felicidade familiar. Deseja aquilo que não tem. Distorce a realidade e culpabiliza a vitima por tudo aquilo que de negativo lhe acontece. O não da vitima é sempre um nim que só foi veiculado para se fazer difícil porque estará sempre interessada.
O predador sexual, sob as várias modalidades, seja o masturbador em privado que fotografa a vítima para a endeusar e faz dessa imagem propriedade sua, seja o violador que assedia directamente a vitima, constituem condutas egocêntricas com patologia obsessiva-compulsiva, onde as vitimas são frequentemente o alvo de uma enorme raiva adjacente resultado de um conjunto de impotências sexuais e vivenciais, incapacidades sociais e frustrações psico-afectivas. É tempo de mudar, de denunciar, de respeitar a esfera privada dos OUTROS.

12.6.17

"Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds"

Reza a história que no ano de 1661, John Mompesson, um abastado proprietário inglês, que merecia a deferência e o respeito da comunidade de Tedworth, entrou certo dia em conflito com William Drury, um indigente que deambulava pelas ruas da cidade a tocar tambor sobrevivendo da esmola alheia e da solidariedade do povo. Mompesson sentia-se incomodado com o barulho. O batuque permanente à sua porta trazia-lhe moléstia e irritação. Lord Mompesson tomou assim William de ponta, acumulando ódios mesquinhos e olhares de reprovação. Decidido a acabar de uma vez por todas com o batucar à sua porta, resolve instaurar um processo judicial no tribunal da cidade, com juízes, quorum, testemunhas e tudo aquilo a que um Lord influente tem direito, nas situações delicadas em que a persuasão das massas se sobrepõe às faculdades cognitivas da razão. Após largas dissertações que incidiram sobre os malefícios provenientes dos ruídos dos tambores, o colectivo de juízes deu razão a Mompesson e, vitorioso na sua causa de pedir, a sentença foi implacável . “Retire-se o tambor a William Drury e faça-se Lord Mompesson seu fiel depositário”.
De William nunca mais se voltou a ouvir qualquer batuque, nem nas ruas, nem no quilombo distante, mas os problemas de Lord Mompesson, ao invés de acabarem, estavam agora prestes a começar.

Na sua mansão de colunas jónicas, com dois pisos e balaústradas nas varandas, o tão desejado sossego iria transformar-se num desassossego infernal. E isto porque Lord Mompesson, desde que veio para casa com o tambor, passou a ser interrompido no seu sono com ruídos que de início não conseguiu identificar de onde vinham mas que, pouco a pouco, percebeu tratar-se do som de um tambor que ressoava pela casa toda. E, procurando como um louco de onde poderia vir esse ruído, ritmado e infinitamente incomodativo, Mompesson correu a ver se o tambor de William Drury se encontrava no local em que o havia guardado. Para seu espanto, lá continuava, impávido e sereno, concluindo que o instrumento impertinente membranófono, que perturbava a sua estabilidade física e emocional, não era definitivamente o tambor de William pelo que se impunha descobrir do que se tratava.
Repetindo-se todas as noites o mesmo enigma, Lord Mompesson acreditou que a sua casa estaria assombrada e que seria vitima de alguma praga de bruxaria lançada certamente por William e alguns dos ciganos que o acompanhavam. 
The devil and the drum Saducismus Triumphatus (1700).
Chamou por isso os sábios da época para constatarem pessoalmente o mistério. 
Joseph Glanvill foi um famoso clérigo inglês que se destacou nas áreas da ciência e da filosofia. Defensor da existência de fenómenos sobrenaturais, sustentou no seu livro “Sadducismus Triumphatus” a tese da existência de bruxas e feiticeiros, com poderes sobrenaturais malignos, entendendo que na sua génese estaria uma seita, que remontava ao tempo de Cristo, e que negava a imortalidade da alma.
Glanvill foi um dos sábios que procurou uma justificação para a origem dos ruídos na casa de Mompesson, tendo tomado nota que “ao visitar o quarto das crianças observei um arranhar debaixo da cama inexplicável”.
Joseph Glanvill

O caso ficou conhecido como “O Tambor de Tedworth” e vivia-se à época uma verdadeira caça às bruxas por virtude do espírito persecutório da Inquisição que pela Europa fora realizava, indiscriminadamente, autos-de-fé, perseguições e torturas generalizadas a todos aqueles que manifestassem cepticismo ou práticas contrárias à fé cristã.
Nunca foi dada uma explicação inequívoca, subsistindo, para os crentes nos fenómenos sobrenaturais, a intromissão de um espírito maligno e, para os cépticos, a conjura de William e dos seus amigos que, noite após noite, vinham até à casa de Mompesson para o castigar, atormentando os seus dias e a sua paz.
Um desses cépticos foi Charles Mackay que, 100 anos mais tarde, viria a escrever o livro “Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds” sobre as falsas impressões e o efeito que um fenómeno fraudulento poderá ter sobre as massas. Referindo-se ao fenómeno de Tedworh conclui que teria sido manifestamente fraudulento e que Mompesson convencido de fenómenos sobrenaturais teria sido facilmente enganado.

Lembrei-me desta história, porque os fantasmas das crendices no sobrenatural continuam a aterrorizar e a vitimizar cidadãos frágeis e desprotegidos que por inércia dos seus governantes são agredidos, mutilados e assassinados pela cor da sua pele, pelo credo que professam ou pelo género ao qual sentem que pertencem. Na Tanzânia, várias crianças albinas são anualmente selvaticamente mutiladas porque se crê que os seus membros têm poderes sobrenaturais quando utilizados em rituais de bruxaria. No século 21 não seria tempo de actuar na defesa e protecção dos mais frágeis?

4.6.17

De Mineralibus de Albertus Magnum

Muito antes da Inquisição ter chamado à colação os arautos moralizadores da sociedade, expurgando na fogueira os inconformados com as mentes hipócritas fossilizadas, castrando os cupérnicos da ciência e as novas ideias, encontrando sempre espaço na rama do palanque para queimar os herbários e as bruxas de ervanária, houve um frade dominicano, nascido na Alemanha, sábio medieval, escolástico, que se destacou numa pluralidade de áreas da ciência que lhe valeram o apelido honorífico de “Doctor Universalis”. Acredita-se que Albertus Magnum tenha nascido pouco antes do ano de 1200 e terá sido quando estudava em Pádua que terá tido uma visão da Virgem Maria que lhe mudou a vida e o fez optar pelo sacerdócio. Apesar da oposição da família, decide entrar para a Ordem dos Pregadores, lecciona em Colónia e em Paris, altura em que São Tomás de Aquino se torna seu discípulo, aprofundando uma multiplicidade de valências científicas que abrangiam a astronomia, a teologia, a mineralogia, a física e a filosofia. Mas foi ao ler um excerto do seu tratado de mineralogia intitulado “Mineralibus” que me interessou particularmente aquilo a que Magnum apelidou “A Forma e o Poder das Pedras”. E escreverei daqui em diante Pedras, com letra maiúscula, porque Albertus Magnus e os seus discípulos inspeccionaram-as minuciosamente, de todos os lados e quadrantes, tirando ilações, fazendo especulações, escrevendo dissertações e chegando a conclusões que inovaram para sempre o panorama geológico da humanidade. E isto porque, simplesmente, uma Pedra não é só uma Pedra, meus senhores. Uma Pedra tem muito mais que se lhe diga pois não só tem côr ao olhar, formas arredondadas ou bicudas ao tocar, cheiro ao inalar, algumas sulfurosas outras acidas, mas muito mais importante que tudo isto Albertus Magnus, com a sua peculiar curiosidade incisiva, descobriu que as Pedras têm segredos intrínsecos dos quais não é possível dissociar. E disserta assim sobre os poderes das Pedras: 
Albertus Magnum 1200-1280

“As pedras têm poderes “ocultos” ou “escondidos” que não se podem identificar com os sentidos, como sejam, se estão quentes ou frias, molhadas ou secas, se se identificam com o ar, a água, a terra, o fogo, ou qualquer um dos quatro elementos da natureza”. 

Desses poderes, dá como exemplo os poderes ocultos das pedras que denomina como a sua “forma específica”. Essa “forma “ será aquela que agrupa uma pedra num conjunto da sua espécie e que ajuda a distinguir uma pedra magnética de uma safira. E acrescenta: 

“Duvidar que as pedras têm “formas substanciais” é loucura uma vez que essa certeza resulta da observação e da constatação da sua solidez e da sua matéria intrínseca. E isto porque os elementos que as constituem não têm a volatilidade das nuvens, da neve ou da chuva, uma vez que estes se desagregam com facilidade e se dissolvem em outros elementos. Aquilo que vemos acontecer na natureza das pedras é exactamente o oposto. Mais, nas pedras encontramos poderes - como o de expelir venenos, úlceras e atrair ou repelir o ferro - que não resultam de qualquer elemento conhecido. Segundo a visão partilhada por todos os especialistas, estes poderes resultam da espécie e da forma desta ou daquela pedra. Assim, fica claro que as pedras têm formas e espécies fixas e muito embora essas formas não sejam almas, como alguns dos nossos antepassados pensavam…considero que serão antes “formas substanciais” distintas, originadas por forças divinas com uma composição específica de certos elementos. Não há no nosso léxico denominação para essas formas, contudo, os diferentes tipos de pedras são susceptíveis de ser agrupadas em safiras, esmeraldas, mármores ou sílicas". 
Fotogr: net

Considerando a teoria de Magnus sobre o “poder oculto” das Pedras percebo agora o poder da pedra que trago há uns anos sempre comigo no bolso. Apanhei-a numa praia deserta. A sua forma branca, oval, achatada, suave ao toque, sem arestas, fez-me guarda-la acreditando que tem algum poder oculto para transformar a minha vida. Cada vez que venho a esta praia, e inicio as minhas caminhadas em silêncio à beira mar, gosto de a sentir contra a palma da minha mão, sentir-lhe a textura lisa e, ao modo de prece velada, acreditar que ao aperta-la alguma revelação órfica se irá  concretizar, com hierarquização das causas celestes e inquestionáveis efeitos terrestres da vontade do Criador. CRV©

6.7.16

Praga - Parábolas na Karluv Most


CRV© Prague - Karluv Most, Castelo e Catedral de São Vito
Kafka, nasceu a 3 de Julho de 1883 em Praga. Autor de uma série de contos, recorreu, como nos diz João Barrento, “à forma breve da parábola como sistema de significação intensivo”. Os seus exercícios são a "busca de uma verdade sempre diferida, ou do enigma da verdade e do absurdo impenetrável das existências, marca daquela técnica alusiva e defectiva de que fala Barthes: "o sentimento do absurdo transfere o Juízo Final para cada dia vivido pelas personagens (…) em que o que é próprio do ser e dos muitos seres que povoam as parábolas de Kafka é o facto de eles serem ao mesmo tempo óbvios e inalcançaveis”. 

Num desses contos Kafka vê-se como uma ponte, suspenso sobre um abismo. Lá em baixo, marulhava um ribeiro negro, gelado, cheio de trutas. Com as pontas dos pés enterrados num dos lados do abismo e as mãos cravadas no outro, é subitamente interrompido na sua pose segura por alguém que se aproxima e lhe bate com uma bengala, envolvendo-lhe os cabelos e saltando-lhe para cima das costas. Com o peso, Kafka perde a sustentação entre os dois pontos do abismo e, no seu sonho, desmorona-se, despedaçando-se nas pedras aguçadas do leito do rio que sempre o observaram, tão pacíficas, no meio das águas em fúria. 

Encostada ao parapeito da Karluv Most, observo o movimento dos turistas que atravessam a ponte sobre o Moldava, em passo lento, deslocando-se entre a Malá Strana e a Cidade Velha. Coloco-me “de fora” e sinto-me como o espectador atento, criando conotações entre o desempenho dos traseundes, actores de parábolas representativas de uma outra realidade que se desenrola por detrás do palco da vida. 
E aí somos como nos diz Barthes, um Réquichot ou um Kafka, aquele "que só pinta o seu próprio corpo: não esse corpo exterior, que o pintor copia olhando de través, mas o seu corpo de dentro”. Procuram-se as leituras que obtusamente implodem, sendo sensíveis ao magma silencioso que escorre e se infiltra nos nossos sentidos dando-nos uma "leitura analógica axial, - João Barrento - característica do processo de produção de uma parábola". 

E eis que vindo do lado da Cidade Velha, entra na ponte um aglomerado de gente que rodeia um grupo de jovens trajados com roupas medievais. Os que lideravam empunhavam orgulhosamente porta estandartes com bandeiras coloridas, onduladas pelo vento, onde se viam dragões, castelos, escudos e flores de liz sob fundos bicolores encarnados, amarelos, verdes e azuis, representativos dos ducados e dos antigos feudos locais. Deslocaram-se até meio da ponte e aí, os da rectaguarda, organizaram-se dois a dois, armados com uma parnafenália de instrumentos de sopro e percussão. Dispuseram-se a poucos metros dos meus pensamentos, quando o som dos clarinetes e dos trombones tomaram conta do tempo iniciando uma dança em redor das bandeiras que demarcavam o eixo de intervenção.   Tocaram e rodopiaram, enquanto os dançarinos com guizos nos chapéus e nas pontas dos pés, vestidos com fatos de licra encarnada e azul, dançavam e ofereciam flores aos presentes. Lançaram-se foguetes e atearam-se pequenos fogos de artifício para inflamar o ar e iluminar a visão. Com o ressoar dos bombos a música tornou-se virulenta e ao contrário de apreciar as flores e o espectáculo medieval, os décibeis soltos pelas maçetas atiradas por braços fortes contra a pele curtida dos bombos, fez-me virar as costas à confusão. 

Debruçei-me no paredão da ponte e fiquei a observar o correr das águas, os barcos que tranquilamente navegavam ao longe e que pareciam flutuar, os pássaros que atravessavam o céu incólomes ao barulho, a colina por cima da Malá Strana com os jardins coloridos que envolviam o castelo e a Catedral de São Vito. Apanhei uma folha seca do chão e deitei-a ao rio. Deslizou empurrada pela corrente e seguiu o seu curso em direcção aos amontoados de folhas encalhadas numa pequena repressa que forçava caminho em direcção ao estuário da foz do Moldava. 

Em marcha lenta, a procissão de bandeiras e a música empenhada afastou-se em direcção à outra margem do rio seguindo o seu curso pela cidade. Voltaram as vozes dos que atravessavam a ponte, os ruídos da cidade ao longe, as poses para as fotografias, o toque supersticioso nas estátuas dos santos, o beijo nos pés do crucifixo, sorrisos e abraços cúmplices daqueles que experimentam a densidade dos espaços que se abrem numa viagem, descobrindo recantos de luz para descansar. 

Karluv Most
Agarrada ao guia de Praga lia sobre os segredos da construção da ponte. As superstições que envolveram o início dos trabalhos, a curiosidade do dia especificamente escolhido para a sua construção. Carlos IV escolheu o ano de 1357, no dia 9 de Julho, pelas 5.31hrs da madrugada para lançar a primeira pedra. E a escolha não foi por acaso. Se juntarmos todas as datas num só número, 135797531, verificamos que é possível lê-lo da mesma forma em ambas as direcções e que a soma dos digitos 1+3+5+7+9 = 25, fornece-nos os 25 arcos que a ponte de 515 metros tem. Desde a data da sua construção, a Karluv Most presenciou inúmeros acontecimentos relacionados com a astrologia, a superstição, a caça às bruxas, a perseguição de judeus, a execução de inocentes posteriormente beatificados, e a concretização de profecias beatas que amaldiçoaram o lugar onde santo Nepomukk foi atirado, por ordem do rei Venceslau, às águas geladas do rio. 

Na estrutura de um dos pilares da ponte, reza a lenda, que se encontra escondido um tesouro dos Templários, aí colocado na época em que a Ordem foi expulsa da cidade. Entre os objectos desse tesouro estaria um martelo de pedreiro utilizado na construção da Torre de Babel. 

Com a banda ao longe, abafada pelos ruídos da cidade, voltei ao meu caderno de notas, como uma espectadora atenta ao mar inesgotável de planos e enquadramentos que se desenrolavam no palco da vida que corriam lentamente em frente aos meus olhos.

30.11.15

As Portas do Paraíso

Porta Norte Baptistério de S. João
Seis dias levou Deus na criação do mundo, tendo no sétimo provido o seu descanso. O oitavo dia, segundo as Escrituras, está associado ao dia da regeneração. É por essa razão que os Baptistérios eram concebidos sob forma octogonal, assim como foi o de Florença, situado entre a Piazza del Duomo e a Piazza San Giovanni, em frente à Catedral. O pequeno monumento octogonal, construído sob a torre de guarda de uma antiga muralha romana, foi sendo sucessivamente remodelado até atingir a sua forma actual no início do milenium. Dante foi ali baptizado, assim como alguns dos membros da família dos Medici. Mas seria a remodelação convocada pelo povo de Florença, no inicio do século 15, que iria trazer a beleza que se passou a falar em voz baixa e que deixou Michelangelo assombrado com a certeza que se encontrava frente às portas do Paraíso.

Quando o povo de Florença lançou uma competição para a execução das portas norte do Baptistério, Lorenzo Ghiberti, com apenas 21 anos, ganhou o concurso. Encomendaram-lhe que forjasse duas portas em bronze, forradas a ouro, cada uma com 5 painéis alusivos a quadros factuais do Antigo Testamento em baixo relevo. Ghiberti, levaria 27 anos a concluir os trabalhos, com a determinação de quem empreende uma metamorfose estilística em liberdade, atrevendo-se a cortar com as amarras dos preconceitos prosélitos da época, dando movimento à estatuária sombria medievalista, criando um estilo que ganharia voz e espaço próprio no universo artístico da época. 
O Sacrifício de Isaac
Os painéis narram, numa visão catolicista, a mitologia hebraica da criação do mundo. Adão e Eva, a genealogia dos patriarcas bíblicos e os episódios onde ressaltam as contradições dos homens. o Sacrifício de Isaac, salvo pelo anjo misericordioso e os traços surpreendentemente corajosos de David que, no livro de Samuel, sabemos que representa as forças do bem contra o paganismo dos filisteus. 
David e Golias
David, apesar da sua desproporcionada fragilidade física, consegue agilmente, com a sua funda, levar o gigante ao chão. 
Da história fica a quase destruição das portas do Paraíso com as maiores cheias que à memória em Florença, no ano de 1966. Para satisfação do mundo, encontram-se agora a salvo, seladas em ambiente apropriado, no Museu dell’Opera del Duomo, depois de um longo processo de restauração.

9.11.15

Massada

Fortaleza de Massada  (fot: Unesco)
O cerco durava há 7 anos. A 400 metros acima da aridez do deserto da Galileia, protegidos por escarpas íngremes, caminhos inacessíveis e uma fortaleza construída por Herodes, 1000 zelotas judeus, refugiados do assalto a Jerusalém, encontravam-se na latitude da intolerância do exército romano. Determinados em conquistar o penedo e a acabar com a insurreição contestatária, a planície passou a aquartelar 8 acampamentos romanos dispostos em circulo no sopé da montanha. Muito embora sem qualquer importância estratégica, Massada passou a constituir uma perturbação no orgulho vitorioso romano, habituado a arrasar todas as demonstração obtusas contrárias à sua hegemonia militar e a esmagar todas as personalidades fenoménicas que extravasassem o formato domesticado dos seres inertes subjugados.

No planalto, os zelotas encontraram a sua solidão hostil dentro da antiga fortaleza de Herodes, recusando a convolação da sua existência à escravidão. Viveram dos mantimentos que encontraram no palácio, de um sistema de aproveitamento das águas das chuvas que as conduzia habilmente para uma dúzia de cisternas, reunindo na escassez o suficiente para sobreviver o ano inteiro. 

Durante os 7 anos do cerco a questão da rendição foi preterida dando lugar à dignidade da morte colectiva, no momento do assalto romano. Segundo Joseph (37-100 dC), o relator judeu das guerras judaico-romanas, do grupo de quase 1000 zelotas sitiados no planalto de Massada, apenas 7 sobreviveram. Duas mulheres e 5 crianças, refugiaram-se numa cisterna de água, enquanto a morte de homens, mulheres e crianças, atravessava a fortaleza pelas mãos de 10 líderes rebeldes, dando assim ao homicídio colectivo o ar de suicídio confuso e urgente. 

Lembrei-me deste episódio da Guerra judaico-romana quando li uma notícia sobre as escavações arqueológicas levadas a cabo em Massada por Yadin, no ano de 1963, e que puseram a descoberto sementes de tâmara, com 2.000 anos, acondicionadas em recipientes de barro da época. 

Methuselah
Analisadas as sementes, constatou-se que seriam de uma espécie de tamareira já extinta e que, segundo as escrituras desse tempo, preenchiam todo o vale da Galileia, desde as margens do rio Jordão até ao sul, às planícies do Mar Negro. 

Durante 4 décadas, as sementes de Massada ficaram guardadas numa gaveta da Universidade de Tel-Aviv até que a investigadora botânica Elaine Solowey, decidiu, sem grandes espectativas, plantar uma dessas sementes em 2005. Oito semanas depois, a semente guardada com 2.000 anos tinha germinado, dando origem a um tamareira a que apelidaram de "Methusalah", em homenagem à pessoa que mais anos viveu segundo a Biblia. Em 2011, e com 3 metros de altura, a jovem tamareira, que aguardou pacientemente por um relance de vida, esbateu-se profusivamente nas suas primeiras flores. Aguarda-se com silêncio inflamado as primeiras tâmaras.

30.3.15

As muitas vozes de Herberto Hélder

Herberto Hélder
É no momento em que se perdem as referências que o náufrago, enfermo de uma debilidade crónica, procura no caos imediato instrumentos substitutos. A escrita e a literatura surgem como uma catarse, ganhando espaço físico e intelectual próprio, sem qualquer intencionalidade ou rumo, para além do refúgio e do conforto que proporciona a criação de uma realidade que se vai metamorfoseando como uma segunda pele que adere harmoniosamente ao nosso corpo. Por essa altura descobri Herberto Hélder. Talvez porque tivesse o mesmo nome do meu pai e a sua poesia fosse um grito no caos, contos sublimados que encaixavam na perfeição no meu imaginário surrealista, ponto de partida para o espanto necessário de quem subitamente tinha ficado soterrada na espuma dos dias. A poesia de Herberto Hélder, decalcada das experiências triviais da vida, tinha na leitura surreal e abstrata um contorno cinematográfico inevitável que se encaixava na perfeição num palco que crescia proporcionalmente ao meu interesse pela poesia. “Vi que havia em mim um pensamento/ inocente, uma pedra/ quando se entra na noite pelo lado onde/ há menos gente. / Ou era um sino de um futuro/ maior silêncio, tão/ grande silêncio para se habitar só em gestos.” Pouco sabia da sua biografia e o deslumbramento da sua privacidade cativava-me. Identificava-me com o mito simples, obscuro, com a pose desinteressada das movimentações subterrâneas dos louros e dos reconhecimentos áureos, cultivando o isolamento e o repúdio pelos holofotes dos meios de comunicação. No momento do refúgio, identificamo-nos com a estirpe de homens que preferem as portas dos fundos, sem palcos, brechas ou aclamações virulentas que, no fim, duram poucos minutos. Os mitos, crescem na obscuridade, na “escrita suprema de imaginar por música/ as coisas: loiças, comidas, roupas./ Num inebriamento de beleza composta em número” por isso o considerei uma referência, um pai literário, substituto imaginário daquele que subitamente me faltou. Transformar o mundo do ilhéu em qualquer cosa mia, lançou-me não só pelos traços próprios ecléticos rebuscados como pelos trovões do encantamento místico das personalidades que nos deslumbram e se atravessam no nosso destino.

21.3.15

A Doxa Esotérica de uma mulher num mundo misógino de homens poderosos

Plotino
Plotino defendia um estilo de vida asceta, entregando-se às práticas espirituais, levando uma vida contemplativa com mortificação dos sentidos, preconizando uma moral sã e uma vida irrepreensível, com dieta vegetariana, redução das horas de sono e celibato. Os seus ensinamentos estruturavam-se para dois níveis de ouvintes: a doxa esotérica, confiada a uma elite de iniciados, e o discurso exotérico dirigido ao público em geral. No que toca às mulheres, repudiou a filosofia de Aristóteles, usando como modelos os ideais de Pitágoras. Plotino acolheu na sua academia uma diversidade de interessados não procedendo a qualquer distinção entre homens e mulheres, atribuindo a todos o mesmo grau de interesse, capacidade, oportunidade e igualdade. Talvez a inexistência desta distinção se deva à mitologia grega que, por oposição ao cristianismo, não considerava a mulher nascida de uma costela do homem, nem a considerava culpada das tentações do demónio ou a provocadora de uma inoportuna dentada. Na mitologia grega, homens e mulheres surgem das pedras da Terra. Eles das pedras de Deucalião. Elas das pedras de Pirra. E mesmo na disputa dos Deuses, para padroeiro de Atenas, conta a lenda que Nepturno perdeu por um voto para Minerva. Irritado, o deus vingador elevou os mares e lançou vagas gigantescas contra a cidade de Atenas. Para evitar a destruição, e apaziguar o deus descontrolado, as mulheres sábias aceitaram três castigos que acabariam por ceifar parte da sua cidadania: perderiam o direito a voto, nenhum filho poderia ter o nome da mãe e ninguém as chamaria de atenienses. A liberdade, inicialmente celebrada, transformou-se numa submissão quer ao homem quer à sociedade em geral.
Nepturno
Acossados no seu orgulho, por vezes os deuses, confrontados com uma verdade inconveniente, refugiam-se, mais do que o simples mortal, em poses misóginas. Revoltar os mares, virar costas ao diálogo, bater estrondosamente com a porta ou desprezar os atrevimentos das adversárias, são a forma de esconder o medo e o temor que se refugiam por detrás de um olhar cheio de ondas. 
Nas sociedades misógenas, as mulheres que se atrevem são demonizadas pelo grupo do patriarcado burlesco que continua a coloca-las numa condição subordinada, alvo de piadas vexatórias ou eróticas, com desdém pelo corpo e pelo sexo, pelas opções e filosofias de vida próprias, pelos gostos, pelo conflito entre o amor e  a ternura das mulheres. Nas sociedades misóginas, o clã masculino adoptou, na sua concepção ideal, o transtorno psíquico de Aristóteles, hoje com explicações freudianas, quando afirmava  que "as mulheres eram deformidades naturais…" 
Para se assumir, Nepturno não consegue deixar de reivindicar os poderes que possui e sobre os quais havia mantido segredo. Essa, é uma das formas de tornar o seu orgulho ferido menos visível, mais acutilante, ceifando os atrevimentos adversos, circunscrevendo as mulheres de Atenas a uma nova condição, talvez porque estas compreenderam que, na fragilidade e no temor do seu olhar, Nepturno, afinal, tinha um poder incomensurável sobre o mar que, desde sempre, lhe enchia as duas mãos. CRV©2015

22.2.15

A Capelinha do CALHAU S. Vicente

"Camus dá-nos a conhecer a filosofia do absurdo. O Homem que busca um sentido para a vida, arriscando tudo, sem equacionar os perigos. O Homem que se encontra no limbo dos desesperados, sem caminho definido, prosseguindo com a determinação, clareza e a racionalidade dos que rebuscam no vazio as forças do abandono contra as encostas soltas sem gritos. Retorcendo-se na esperança de demonstrar o visível que mais ninguém vê, prostrado e cansado da repetição da vida, socorre-se de todos os seus trunfos, escora-se nas veredas da memória, tinge as farpas da glória, para atingir o zero do infinito. Lá de cima, resvala repetidamente monte abaixo, recomeçando de novo mais uma abordagem mais do que justificada do absurdo. Nem por isso, deixa de fazer conjeturas, inventar suposições, inquinar o futuro. Perito nas interpretações da vida, CAMUS condena o HOMEM ABSURDO à repetição das mesmas tarefas. Empurrar, arriba acima, um CALHAU do tamanho do mundo, só pode constituir um estímulo de forças a prosseguir, infinitamente, uma tarefa que valida, completamente, todo o esforço de todos os idiotas envolvidos". CRV

19.2.15

BANKSY, no seu melhor.






"No fundo somos todos contra a pena de morte pela injusta interpretação de provas que pode ocorrer. No fundo somos todos messiânicos quanto à crueldade e a discriminação. E não há ambiguidade no que toca à defesa dos direitos humanos ou à metáfora da igualdade de credos, pessoas e oportunidades. No fundo, no fundo, embora poucos reconheçam, acalentamos na sombra o desejo de uma guerra civil espiritual onde a dignidade, ávida de renascimento, ceife, de uma vez por todas, as cabeças que preconizam estranhas e aberrantes formas de mudança". CRV

31.12.14

FELIZ 2015


Hungary - Budapest - July 2010 photo DSC_9680B_zps215246cc.jpg
CRV©Hungary

A todos os que nos visitam agradeço as mensagens de apreço e as insistências para regressar aos temas que nos suscitam curiosidade e que trazemos para este espaço de reflexão que tanto nos agrada. Que o Novo Ano seja um tempo de renovação.
Um abraço e um Feliz Ano Novo.

9.11.14

O que SEI dos HOMENZINHOS

Era um daqueles lugares em que se passava para o outro lado. Não pelo tronco oco de uma árvore mas através de uma greta na parede, de um buraco na base de uma gaveta, ou no interstício manhoso do parquet da sala que deixava antever uma fenda. O outro território tinha uma dimensão que se assemelhava ao desdobramento mental daquela parte onírica de nós mesmos. A entrada, secreta, acabou por ser um buraco no fundo de uma gaveta, com uma gravata agrafada, por onde se podia deslizar até outro buraco que servia de passagem para o mundo onírico das experiências. Aí, era permitido realizar todos os actos que a consciência humana reprovava, explorar arrebatamentos de euforia física e mental inesquecíveis, cometer todos os crimes sádicos reprováveis à luz do homem médio moral, extasiar-se com o prazer extremo dos vícios lúdicos impolutos da vida. Tudo, numa versão diminuta da consciência onde a preocupação ética aparecia diluída numa luta totalmente desprovida de sentimentos, fumando Camel sem pudor, tendo como motor impulsionador dos actos, os instintos básicos da própria sobrevivência narcisista.

Este recanto do mundo era habitado por pequenos homenzinhos, todos idênticos, de fato cinzento, camisa branca, gravata escura e chapéu de aba ao lado, como os actores de cinema dos anos 50 e 60. Actuavam em cumplicidade com o narrador, invadindo a sua privacidade com despudor, personificando as luxúrias e os desejos que a cobardia sempre haviam recalcado no fundo da consciência, quando os afloramentos surgiam para dar luz às suas fantasias. Dotados de um quadro secundário de narcisismo freudiano, os pequenos homenzinhos entendiam as pessoas não como um fim em si próprias mas como um meio ao serviço dos fins egoístas e narcisistas de si mesmos. Por isso, não mediam a harmonia, caindo fora dos ritmos habituais da tranquilidade, entretendo-se "com qualquer coisa", mesmo que isso significasse metamorfosear o narrador num desorientado insecto kafkiano que no lugar dos braços tinha apêndices, "enfiando-se na cama como uma barata se enfia numa greta" deslocada. 

Envolvido num mundo fechado, e com uma réplica que o faz experimentar ver o mundo através dos seus olhos, a vida do narrador depressa se transforma num pesadelo, com uma súbita combinação de álcool, sexo, nicotina e incitamentos para matar percorrendo caminhos entre escombros e ervas daninhas "com um efeito semelhante ao da câmara escondida de cinema que tinha a capacidade de desfrutar de tudo aquilo que a vida lhe oferecia", observando tudo com uma enorme estranheza.

Fazendo inevitavelmente recordar o mundo de Alice, os homenzinhos de Lilliput e a reclusão Kafkiana de Gregor Samsa, "O que sei dos Homenzinhos" de Juan José Millás é um livro que nos reporta à fronteira ténue entre o real e o imaginário, entre a verdade e a ficção, entre o medo dos sonhos e a coragem de enaltecer aquilo que é realmente importante na vida. "O que sei dos Homenzinhos", a verdade que ocorreu, num mundo paralelo, com silêncios telepáticos, mesmo, mesmo, aqui ao lado.

20.10.14

Tyler v/s THE WORLD

Ao fim de 4 anos volto a reler as notícias do suicídio de Tyler Clementi, o jovem estudante da Universidade de Rudgers, que encontrou a morte nas águas geladas do rio Hudson, porque não conseguiu lidar com o bullying a que foi sujeito na sequência de um encontro amoroso. Por ser gay, por ser boa pessoa, por acreditar que a linha que delimita o pequeno mundo da sua privacidade não devia ser abusivamente violada por um grupo de idiotas sedento de sangue. Dharun Ravi, o seu companheiro de quarto, antes de lhe conceder alguns momentos de privacidade, configurou deliberadamente a webcam do portátil, apontando-a para a cama de Tyler. Por controlo remoto accionou a câmara tornando o encontro íntimo do colega numa sessão televisiva pública divulgada e comentada nas redes sociais universitárias, expondo a intimidade e a privacidade do seu encontro amoroso. Tyler, que nesse Verão tinha enfrentado os seus fantasmas, assumindo-se perante os pais e perante a sociedade, viu serem defraudadas todas as suas expectativas quando convergiram sobre si, acobardadas atrás das câmaras, todas as consciências do mal. Indefeso, incapaz de superar a traição, sentiu que a estrada do futuro lhe havia sido ceifada restando-lhe apenas a vereda da desolação.

Recordo este episódio que me impressionou pela intolerância e pela maldade gratuita, pois pouco tempo antes alguém que conheço bem passou a ser vitima de cyber-bullying por parte do Pedro e do Alexandre, dois bloggers instalados no nosso universo cujos instrumentos de desmobilização e de intimidação passam exactamente pelo mesmo processo, mas por outros também, acompanhados por um coro de seguidores iniciáticos, ou reincidentes, que encontraram na violação da privacidade alheia um modo de diversão sádico e caustico com o intuito de angariarem material para darem largas à sua letra. Os modos de angariação passam pelas escutas telefónicas, pelo assalto às bases de dados particulares e profissionais, pelo desvio de mails e furto de passwords, pela invasão dos equipamentos informáticos, pela instalação de cavalos de tróia e de links que redireccionam a vitima para sites obscuros numa escalada estratégica de violência e destruição. Se equacionarmos qual a razão deste e de outros ataques informáticos com intuitos bullynescos a explicação só pode residir no vazio da própria consciência e do carácter, bem como numa estúpida premissa que considera o respeito pelo espaço alheio numa imprudente generosidade que deverá ser liminarmente rejeitada.
Pelo meio ficam os textos e os livros, os pseudónimos e toda uma construção em pirâmide que mais tarde ou mais cedo será necessariamente exposta.
Contudo, ao contrário de Tyler, a vítima destes ataques não encontra no fundo do rio a solução nem o futuro. Não por falta de coragem, mas por entender que é altura de emergir de um silêncio contrariado, reduzir a imobilidade, o prolongado receio, transpor os entraves e transformar as agressões em pequenas epifanias, convolando cada átomo suspenso numa justa predisposição em sentido inverso à estagnação e ao silêncio.

2.6.14

Orwell: quando os animais já não distinguem os porcos dos homens

Ao princípio da noite vieram dizer-lhe que fosse buscar a filha e a sobrinha, ao cimo do monte, pois encontravam-se lá enforcadas numa árvore. A notícia, aberrante, dirigida a um pai integrado numa casta indigente, repugna não tanto pelo crime da violação, em si mesmo vil e asqueroso, mas porque em surdina se percebe a conformação masoquista pela condição pobre e desprotegida de gente que não merece o transtorno da procura e aplicação da justiça sobre os prevaricadores criminosos. E isso, leva-nos aquela concepção confusa do poder orwelliano quando a determinada altura os animais já não conseguem distinguir os porcos dos homens. 

Freud explicaria esta prepotência com a figura do direito romano "Jus utendi et abutendi", ou seja, usar e abusar do outro, com o direito de consumir e de destruir o que me pertence. Só que "o que me pertence" não é encarado numa perspectiva individualista de auto-gestão dos sentimentos ou dos gozos e bens pessoais. O gozo aqui, reintroduz a dimensão "do outro". Da pessoa considerada inferior, desprotegida e em desigualdade numérica que proporciona ao grupo de violadores o teatro sádico que visa aniquilar todos os enigmas da vítima, subjugando-a e torturando-a, visando com o seu sofrimento elevar a histeria colectiva dos perpetradores ao êxtase. Freud explicaria a questão primordial destes crimes de violência sexual e psicológica com a adopção de uma postura possessiva de gozo e destruição. O sádico, com um misterioso funcionamento psíquico, que retira do sofrimento alheio a prepotência e o domínio do masoquista em deter o poder de infligir o sofrimento, cessando-o quando bem entender, transforma o gozo de destruição da vítima em ruptura ou arrombamento do corpo, quer ao nível da composição psíquica do crime quer sob o ponto de vista da representação da angustia que lhe promove e que lhe devolve uma larga satisfação. 

Freud acabaria por rotular estes comportamentos no "Manuscrito M", em 1897, categorizando os autores destas práticas como tendo em comum um recalcamento do feminino. A dor e a angústia infligidas "ao outro" não são mais do que "a repetição de uma primeira experiência de prazer negativa que potenciou um prazer mortífero no qual se perde a noção dos limites corporais" satisfazendo-se com a postura de organizador de um culto de horror. No caso das jovens indianas, o gozo sádico até à sua morte teve, certamente, subjacente a perversão da dor, como última forma patológica de excitação, num conjunto de homens com manifesta ausência das correctas representações sexuais e sociais de compaixão e afecto.

30.5.14

Amigos

E os amigos antigos reaproximam-se. Partilham conversas em ondas fugazes. Mergulham nas cumplicidades navegáveis, na suave batida que circunda os dias, no surrealismo aqui e ali de portas abertas, no clamor da uma alegria viciada de talento, no inventário de emoções que estreitam as circunstâncias dos ínfimos bandos de palavras que nos unem num arco incomensurável, pleno. Extasiados. Perplexos. Voos matizados de cores suaves. Esvoaçar ameno. CRV

27.5.14

Cinema - Segundas à noite


Muita poesia, uma bela metáfora sem consequência, uma sugestão, uma insinuação, o tema, as formas cénicas, o sorriso forçado, o aparato ventoso, o preciosismo formal, o processo físico, a redenção espiritual, o niilismo inconsequente, a conclusão. 

Cá fora, a vida não é uma ficção, muito embora todos os sonhos possam caber no repouso tranquilo de mil metáforas em cascata.

26.5.14

Index Librorum Prohibitorum

As chamas contam sempre a história surda daqueles que ousaram agitar as escoras do sistema. Muito antes de 1515, quando o Concílio de Latrão exorcizou a censura prévia generalizada, incinerando todos os volumes que a imprensa diabólica se apressou a distribuir pelas mãos dos leigos, já a História nos tinha dado inúmeras provas do temor dos que detêm o poder quando surgem vozes dissonantes que põem em causa as fundações obsoletas do sistema.
Quando leio sobre as 10 maiores queimas de manuscritos da História, é impossível evitar a melancolia do imenso património que se perdeu nas colunas de fumo das fogueiras. Na origem destes actos irracionais, encontram-se motivações várias, todas elas absurdas à luz da cultura, da paixão pelos livros e da iluminação dos espíritos. Papiros, manuscritos, livros, bibliotecas e, não raras vezes, os próprios autores, acusados de traição, incitação à rebelião, bruxaria ou condutas contrárias aos cânones da pureza ariana ou da fé da Santa Igreja. Noutros casos, a destruição justificou-se como um impulso de modernização e o corte radical com as ideias e a ética das gerações passadas. Os papiros éticos destruídos na dinastia Chin, os abolidos por Akhnatón, contendo 75% da literatura do Antigo Egipto, a destruição da Biblioteca de Alexandria por ordem de Amr ibn al-As, as fogueira nazis e da Inquisição, Henrique VIII e a purga do catolicismo nos mosteiros, a censura de Savonarola e tantas outras que ocorreram em nome da sincronização da cultura com ideais conjunturais de vistas estreitas sem preocupação com os legados futuros.
Na Europa, a institucionalização da censura inquisitória esteve directamente relacionada com a disseminação da cultura pelos canais promovidos pela imprensa. A saída dos livros do ambiente claustrofóbico dos mosteiros para as mãos dos leigos, promoveu a criação das primeiras bibliotecas privadas e, paradoxalmente, a criação das primeiras listas de livros proibidos, como o Index de Paris, em 1544, que procurava expurgar das mãos da sociedade os livros heréticos, contrários aos bons costumes católicos e aos princípios científicos fundados nas teorias egocêntricas da Terra e da Santa Igreja.

Apesar da censura ter sido sempre uma patrulha cautelosa que procurou antecipar os canais de distribuição, passeando-se pelo meio das gentes, criando listas de livros proibidos e elegendo aqueles que se destinavam à aniquilação, a verdade é que, por acção da imprensa houve sempre uma resistência erudita à categorização inconsequente dos livros malditos e à entrega voluntária de cópias destinadas à destruição. As queimas nunca mais eliminaram por completo os originais, passando antes a ter um carácter simbólico junto dos solstícios sociais que se opunham ao pensamento hermético e retrógrada preconizado pela conjuntura política ou religiosa instalada do momento. Foram assim as queimas nazis de autores como Thomas Mann, Freud, Einstein ou Marx quer pela sua ascendência judaica, quer pelo facto de não se encontrarem de acordo com os padrões impostos pelos ideais do III Reich, mas foi assim, igualmente, a queima do livro de Wilhelm Reich "Revolução Sexual", acusado de pornografia, pelo Departamento de Estado Americano, pelas suas contribuições sobre as teorias do orgasmo.

Sob as mais variadas formas, discretas ou camufladas, a censura continua ainda em diversos sistemas políticos a actuar como a sombra inevitável do poder, procurando a manutenção do status quo, evitando novos olhares e novas concepções do mundo que se destaquem e se isolem pela sua originalidade e cumplicidade com alguns sectores da sociedade. Restituir ao mundo aquilo que nele existe, deslocando o olhar humano para as coisas singulares, revestindo-as de uma nova fórmula, atraente, multidisciplinar, é um combate contra a cegueira e uma correspondência com a crença de que tudo é mutável perante os mesmos factos, nunca devendo ficar aprisionadas ou resignadas qualquer conjunto original de ideias.

11.5.14

O silêncio. A estética. Os caminhos.

Wittgenstein
"Deitada de costas na tijoleira quente da Piazza del Campo, olho o azul altíssimo sem nuvens, conto os pássaros que cruzam o meu bocado de céu, sentindo a brisa reconfortante do mês de Julho. São quatro da tarde. O sol corre lento por detrás do Palazzio Publico e da Torre de Mangia projectando as suas sombras imponentes no chão do largo, aproveitadas por muitos para a pausa tradicional nas caminhadas pelas artérias da cidade que acabam sempre por convergir, para este ponto de encontro". CRV

Podia ser mais um relato de viagens por esse mundo fora, um recortar de um estado de espírito, um momento de tranquilidade, uma pausa na vida a escutar o silêncio. Quantas vezes é o silêncio de alguém interpretado como apatia, pobreza ou insuficiência de ideias, falta de recursos de formas estilísticas ou de escrita. Será falta de capacidade de expressão, obliteração do pensamento ou simples recusa de produção? Será mais um Bartleby, escrivão de Melville, que opta pelo "I would prefer not to"? 
O silêncio pode ser um meio estético, exigente, meio para atingir um fim, uma solução, uma clarividência, uma reconciliação entre pensamento e linguagem, um exercício exegético à qual o indivíduo se entrega e que corresponde a uma forma de atmosfera densa interior onde se degladiam os seus palcos de vida. 

Numa carta ao editor Ludwig von Ficker, sobre o seu livro "Tratactus", Wittgenstein afirmava: "O sentido do livro é ético. Quis, em tempos, incluir no prefácio uma frase, que de facto não está lá, a qual vou aqui escrever, para que possa ser só por si uma chave de trabalho. Assim, o que eu queria escrever era: o meu trabalho consiste em duas partes - a que está presente e a que não escrevi. E é precisamente esta segunda parte a mais importante. Traço os limites à esfera ética a partir do interior do meu livro e estou convencido ser essa a única forma rigorosa de traçar esses limites. Em suma, acredito, que onde hoje muitos sussurram consegui no meu livro através do silêncio colocar tudo no seu lugar(…)". 

O silêncio de Wittgenstein é relativo a uma acção fundamental, porque não é passiva ou indiferente, antes confere, àquele que se cala e àquilo que se silencia, o valor que resulta de uma correcta e prolífica actividade reflexiva. Igualmente não se trata de argumentar que a escrita nos trai ou que nos merece desconfiança pelas interpretações duvidosas que suscita. Trata-se antes de mais, de considerar que o melhor caminho é aquele que cala e que encontra, no quadro das opções que se apresentam, a melhor preposição estética. Será aí que, enfim, encontraremos a melhor forma de enquadrar a vida. A nossa derradeira opção ética.

21.4.14

Ressurreição

"Não era a morte porque me levantei e os mortos jaziam no chão" -Emily Dickinson

A cadeira no palanque sugeria um dos cenários minimalistas de Beckett quando um adereço transforma o proscénio numa janela aberta, e a actuação faz-se de gestos e falas onde a alma das personagens é um conglomerado de civilizações presentes e passadas, fragmentos de livros, bocado de homens, farrapos da desgraça humana. 
Neste caso, o palco era cenário da execução de um homem condenado, por homicídio qualificado, num sistema judicial baseado numa ética religiosa medieval, onde a justiça praticada tem subjacente a regra de ouro, "olho por olho, dente por dente" sempre que são violados princípios fundamentais do Corão universais à dignidade humana. No cenário, a cadeira serve de cadafalso e os familiares da vítima são convidados a participarem naquilo que se transforma num acto de justiça directa, com o dramatismo das execuções públicas, onde a angustia do condenado serve de regozijo e distracção do público que se amontoa para o momento sublime que culminará na colocação do laço da forca, na subida forçada para a cadeira e no pontapé que os familiares da vitima irão dar, de modo a executar a sentença. 
A notícia nada teria de extraordinária não fosse o mise en scène ter sofrido no último minuto um vole de face, quando o homicida já se encontrava enlaçado, contorcendo-se sem vergonha ou dignidade, apelando pela vida, depois de ter esventrado e assassinado um jovem, descurando a dor e a destruição que promoveu noutras vidas. 
Quando nesta Páscoa, ouvi falar em ressuscitar, nada me pareceu mais apropriado do que recordar o episódio desta mãe que, em nome do perdão e da compaixão, dá ao mundo uma lição da providência divina. Conta que o seu filho lhe apareceu num sonho rogando pela vida do assassino. Disse que se encontrava bem, num local tranquilo, pelo que nada se ganhava em vingar a sua morte, com outra vida. Suspendendo a execução no último minuto, esbofeteia o homicida e liberta-o dos laços do destino.Perdoar não é esquecer, nem vem acompanhado com qualquer expectativa de compensação. Perdoar constitui sempre o alívio de nos livrarmos de um peso excessivo, para o qual em nada contribuímos, nunca constituindo a raiva ou o rancor uma mais valia para a nossa própria reconciliação. Por isso as imagens divulgadas tiveram aquele efeito de câmara clara, introduzindo-nos naquele tilt de Beaudelaire em que as contradições e os sentimentos intensos revelam "a verdade enfática dos grandes momentos da vida".
Ressuscitar conforme as Escrituras, tem subjacente o percurso do Calvário e das estações do martírio. Ressuscitar para este homem, teve certamente subjacente a aprendizagem de uma nova oportunidade, de se reconciliar com a vida. Fotogr. Arash Khamooshi /Isna

31.3.14

Projectos

Grécia - Sifnos

Todas as pausas na vida são benéficas para a tomada de decisões. São selectivas para levantar o véu sobre os destinos.
Como esta igreja remota, há dias que só nos apetece iniciar retiros, isolarmo-nos por uma dezena de anos como Zaratustra, descobrir o mundo e extasiarmo-nos com perplexidade com o que se cruza no nosso caminho. É por isso que decidimos que era altura de reconciliar os sentidos.

Em retiro, estabelecemos cumplicidades com os sentimentos e os caminhos. Escrevemos sobre as tréguas e o sussurro das almas inquietas. Contamos ao vento as fantasias. Inventamos tempestades, criamos epigramas auspiciosos ou fatalistas da vontade.

Depois das pausas, enxertadas no percurso e de desenferrujados os impulsos das metáforas, chegou a hora de encontrar o ponto hábil. Regresso à escrita neste blog, porque todas as outras escritas foram acontecendo sem se importarem com o côncavo ou o convexo do tempo.

Regresso, particularmente àquele que acontece quando projectamos na nossa tranquilidade e na nossa solidão todos os momentos em que entramos pela porta da imaginação. Aí o atrevimento, a lascívia ou a fantasia têm asas livres para contrariar a imensa letargia que a racionalização do trabalho, que semanalmente nos escorre por entre as mãos, naturalmente nos obriga. 

Por isso estes são momentos de retiro únicos.
Sei por isso que neste percurso, em solitário repouso, neste ermo sem dono, o vento não uivará por entre os sinos. 
Cumpre por isso recolher a inspiração do mar. Nos confins infindáveis, onde a força se mistura com o destino num jogo de fenómenos litorais amestrados, acontece uma pudica diminuição das luzes e a viagem faz-se por barcas de Caronte, asas de Ícaro amargas, Prometeus agrilhoados ou círculos concêntricos de Dante sem esperança para as almas condenadas. 
Viajar pelo paralelo das emoções, é um desafio acolhedor, uma odisseia de explosões que relega a realidade para outro lugar. 
Nesta dimensão exploram-se as imensas refracções em que se desdobram os movimentos artesianos e as imagens plásticas, maduramente domesticadas, da nossa imaginação. 
É essa viagem pelo mundo da provocação que se impõe, desde já, começar.
CRV - 2014

24.3.14

Homero and his Seven Heroes

Jupiter - Endymion - Eneas - Hector - Perseus - Andromeda - Apollo

6.12.13

Nelson Mandela

Era um daqueles que se erguia e subia as escadas do tempo 
arrastando com ele todas as multidões 
que o reconheciam como uma referência moral da PAZ. 

A simplicidade dos GRANDES HOMENS espelha-se no seu sorriso acolhedor. 

Boa Viagem Madiba
(1918-2013)

15.9.13

Last Train to Paradise (2)

Henry M. Flagler
O nome de Henry Morrison Flagler dirá muito pouco a todos aqueles que já ouviram falar na Standard Oil Company ou em John D. Rockefeller, conhecido como o grande magnata do petróleo americano e um dos fundadores da companhia petrolífera que liderou mundialmente a indústria do sector, em meados do século 19. Henry Flagler surge na história, na sombra de Rockefeller, quando este, movido pela necessidade de injectar capital na sua primeira refinaria, convida para sócio o empresário da industria do sal e dos cereais. Em 1867, é formada a Rockefeller, Flagler & Andrews que, em 10 anos, com uma estratégia de descontos e implementando uma rede de distribuição com um custo 50% abaixo do mercado, passou a deter o monopólio do sector, tornando os seus sócios nos primeiros bilionários da história americana. Em 1885, quando a Standard Oil mudou a sua sede para Nova Iorque, a empresa detinha já 90% do mercado americano, com uma produção de 10.000 barris por dia, atribuindo Rockefeller ao seu sócio Flagler a estratégia visionária adoptada pela empresa, que lhe permitiu ascender ao topo dos gigantes da indústria de combustíveis.
Foi para fugir ao Inverno de Nova Iorque que Henry Flagler e a sua nova mulher Ida Alice abandonaram a cidade rumo à Florida, a fim de aproveitar as temperaturas amenas do sul. Estávamos em 1883 e Flagler, depois da morte prematura da sua primeira mulher, escolheu a Florida para passar a sua lua de mel.
Flagler Station
Os planos envolviam uma descida do rio St. Johns e uns dias de descanso na pequena cidade histórica de Saint Augustine. Fundada por descobridores espanhóis, em 1565, Saint Augustine é considerada a primeira cidade do actual território dos Estados Unidos. Com pouco mais de dois mil habitantes, a cidade, com as suas palmeiras tropicais e um ambiente recatado, estava implantada no meio de extensos laranjais, fazendo da pacata cidade o local ideal para aqueles que procuravam um refúgio na tranquilidade. A lua de mel, foi apenas um pretexto para se deixarem ficar até Março e regressarem no Inverno seguinte.
Ponce de Léon Luxury Hotel
Mas as visitas a Saint Augustine, e a constatação das carências na rede de transportes e alojamento da Florida, cedo suscitaram em Flagler vontade em intervir na região, lançando as sementes do local que mais tarde viria a ser denominado como a "Riviera Americana". 
Com a Standard Oil em velocidade de cruzeiro, Flagler desistiu da sua presença diária na empresa mudando-se, definitivamente, para Saint Augustine. Ávido de diversificar os seus negócios, empreendedor e visionário do futuro, Flagler expande as suas participações na Florida, adquirindo propriedades, incentivando a fruticultura, construindo pontes e caminhos de ferro, sistemas de abastecimento de água, hospitais, escolas, igrejas, casas e hotéis de luxo. 
Em plena "Gilded Age" quando se assistia ao crescimento e ao optimismo marcado pela expansão da revolução industrial, os projectos de Flagler transformaram a paisagem costeira da Florida, criando a Florida East Coast Railway com todas as infra-estruturas de luxo associadas, fazendo desta zona o local de eleição de toda a socialite nova-iorquina, instituindo, pela primeira vez, o conceito de férias de luxo, no território americano.
(continua)