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22.2.15

A Capelinha do CALHAU S. Vicente

"Camus dá-nos a conhecer a filosofia do absurdo. O Homem que busca um sentido para a vida, arriscando tudo, sem equacionar os perigos. O Homem que se encontra no limbo dos desesperados, sem caminho definido, prosseguindo com a determinação, clareza e a racionalidade dos que rebuscam no vazio as forças do abandono contra as encostas soltas sem gritos. Retorcendo-se na esperança de demonstrar o visível que mais ninguém vê, prostrado e cansado da repetição da vida, socorre-se de todos os seus trunfos, escora-se nas veredas da memória, tinge as farpas da glória, para atingir o zero do infinito. Lá de cima, resvala repetidamente monte abaixo, recomeçando de novo mais uma abordagem mais do que justificada do absurdo. Nem por isso, deixa de fazer conjeturas, inventar suposições, inquinar o futuro. Perito nas interpretações da vida, CAMUS condena o HOMEM ABSURDO à repetição das mesmas tarefas. Empurrar, arriba acima, um CALHAU do tamanho do mundo, só pode constituir um estímulo de forças a prosseguir, infinitamente, uma tarefa que valida, completamente, todo o esforço de todos os idiotas envolvidos". CRV

3.12.12

Sobrevir

"Acorrentarás a minha perna, mas não a minha vontade" ; " Sê como a pedra e serás invulnerável" 
- Epicteto

Albert Camus
Quando Camus considerou que a vida "era uma estrada que se segue com facilidade a maior parte do tempo" não excepcionou as antípodas dantescas onde se pronunciam o céu, por remissão à felicidade que lhe está alienada ou o inferno, ligado à tragédia absoluta associada.

Os extremos, são essas apoteoses que desconcertam a estrada fácil que se trilha por maioria. Todos aspiramos, como o hominis volunt, a viver uma vida tranquila, imperturbada por obstáculos e tempestades que pesam na caminhada como uma cruz agriolhada à esperança. Para nos afastarmos dessa persona indesejada, que geralmente se instala no hemisfério das nostalgias e incertezas, recorremos, tal como Epicteto, à vontade, accionando o antídoto de desvalorização da realidade incómoda que nos afasta do bem-estar, da paz e da tranquilidade desejada. 

Schindler's List
Mas, para lá das constrições gerais, há existências que transportam em si uma fatalidade que balança entre aqueles axiomas pavesianos que anunciam que pior do que nascer é ter a capacidade de sobreviver. E, quando isso acontece, para acabar de vez com qualquer hipótese de esperança, ao sobrevir impõem-se, categoricamente, que sucumba jovem. Como refere George Steiner, este é o modelo do "absolutamente trágico" que nos conduz àqueles homens e mulheres que durante a História surgiram como intrusos indesejáveis da criação. Por isso mesmo, a sua condição predestinada empurrou-os, naturalmente, para o abismo dos sofrimentos e reveses arbitrários, onde todos os passos involuntários são agonias e rejeições inevitáveis devendo, consequentemente, ser liminarmente excluídos como um empecilho no processo omnisciente da selecção natural. 
No Holocausto, judeus, ciganos, deficientes e outros tantos rostos invisíveis proscritos, desafiaram os canônes sociais. Nascer, teria predestinado o encontro inevitável com a tortura e a morte, residindo a aniquilação dos indesejáveis numa purga social que refinava os padrões dos sectores eleitos. 

Confesso que sempre me causou alguma perplexidade o conformismo e a passividade das franjas sociais resignadas com a negação da sua existência, com a marginalização kafkiana em massa, com a aceitação tranquila do abismo, como se o seu destino estivesse intimamente ligado ao niilismo suicida da negação da existência e ao inevitável encontro com o silêncio e a morte. Se pensarmos nos 6 milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial é inevitável interrogarmo-nos porque não ocorreram revoltas significativas, tomadas de poder pelas armas, fugas temerárias, assaltos arrojados aos bastiões dos culpados. Todo o percurso foi marcado por uma lassidão de actos inertes, uma postura apática, maquinal, em direcção a um zenite inevitavelmente trágico. 
Sobrevir à morte, ao "puro nada" é uma astúcia da vida para aqueles seres em que o destino continua a ter uma importância infinita. Decidir do nosso trilho, passa a constituir um imperativo categórico na contingência mais radical do ser, coincidente com o momento em que a consciência descobre que, para ela, a felicidade é uma plenitude que ainda deve compreender a expectativa e a promessa do devir.

1.11.12

Reflexões sobre o EU de todos nós


Todas as variáveis se concentram no sujeito. Aquele estranho que transportamos dentro de nós e que nos desafia sobre os enigmas do desconhecido. "Nenhum Caminho será Longo" é uma viagem dentro do nosso tempo, que questiona e suscita uma análise introspectiva como se cada um de nós fosse um projecto inacabado susceptível de mutações e incertezas. 

Numa prosa fluida, acolhedora, redentora das nossas perplexidades, Tolentino Mendonça identifica-nos como um reservatório por onde passa o tempo. Um tempo que causa dúvidas, constrangimentos e estranhezas. Um tempo, por vezes, demolidor das nossas convicções, surpreendentemente desafiador das nossas certezas, mesmo aquelas que sempre consideramos imutáveis. Tolentino refere a nossa perplexidade quando nos confrontamos com o intruso que surge dentro de nós e nos faz, certo dia, observar ao espelho e questionar "Quando eu me vejo, quem vejo? Quando eu me olho, é a mim mesmo que observo?". Surpreendermo-nos com nós próprios é o maior desafio e a maior incerteza, e é nesse momento que o passado constitui um fluxo de cinzas para passarmos a encarar o presente e o futuro como uma luminosa descoberta. Com um discurso previsivelmente teológico, Tolentino confronta-nos com os mistérios divinos, onde "Deus é uma pergunta, Deus é um assombro, Deus é um desconhecido". 
Camus
Contudo, foi a mensagem introspectiva que me despertou curiosidade e a recondução a outros autores que se debruçaram na mesma linha. Camus é aquele que refere que "começar a pensar é começar a ser consumido", desenvolvendo no seu livro "O Mito de Sísifo" uma análise sobre o jogo mortal que vai da lucidez perante a existência, à evasão fora da luz, ou quando o suicídio é a resposta para uma existência que deixou de valer a pena viver. É nesta mutação, nesta epifania inacabada, que todos nos situamos, uns mais do que outros, constituindo o factor determinante, a crise incontrolável que nos assalta, e que nos leva a questionar o inquestionável. 
Frederico Nietzsche
A resposta, dependerá da degladiação de cada um com as suas sombras, podendo oscilar o divórcio entre a agitação quotidiana da vida e a renúncia a todos os sofrimentos, por se entender que deixou de valer a pena o esforço de viver. Na encruzilhada, caso a opção seja feita pela verdade da descoberta, depois do percurso, depois das trevas e de "todos os lugares desertos e sem água", como referia Jaspers, chegamos à última curva do pensamento, onde o verdadeiro esforço reside em nos aguentarmos firmes até ao fim, examinando os primeiros indícios do oásis que criamos, onde rebentam pequenas gotas de clarividência e tenacidade numa vegetação subtil feita à nossa própria imagem. A "esquiva mortal", como refere Camus, constitui a fórmula da vitória absoluta sobre o deus que se instalara, cheio de insatisfações e com um gosto sádico pelas dores inúteis. É na transposição desse mundo obscuro que reside a alegria silenciosa. 
É na subtileza de reconhecer o sol, depois da noite, num esforço de descoberta que nunca mais cessará que se articula na perfeição o binómio feliz da esperança e da alegria. Tal como Nietzsche descreve é esse o momento em que ultrapassamos os medos do desconhecido, todas as inquietações enigmáticas, todos os receios, desaguando numa volúpia do conhecimento com a sensação de paz  assegurada e a certeza da segurança recuperada.