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24.3.13

Milan Kundera - A Identidade

Lucas Cranach "the Elder" - 1546 - Fountain of Youth
Staatlich Museen - Berlin - Germany
A procura da uma nova identidade levou Chantal a reagir à passividade e ao conformismo da sua vida, tomando a atitude beauvoriana do “Deuxième Sexe”. Inconformada e com vontade de encontrar a sua nova versão melhorada, rejeita os paradigmas do machismo dominante, atemorizado pelas transformações e resguardado dentro das paliçadas dos seus tabus canonizados. Procurando mutações reveladoras de uma nova fase, Chantal reage, cortando as amarras que a sufocavam, acolhendo a “metáfora da rosa” imaginando-se rodeada de chamas “alegres, báquias, inebriadas, bravias”, apesar do pudor, dos preconceitos e do temor aos novos ventos de mudança. 

Milan Kundera, decalca com uma exactidão cirúrgica as imperceptíveis revoluções que se degladiam nos labirintos secretos da mente feminina, nessa dicotomia que Simone de Beauvoir chamou do “mito de ser mulher”, por oposição à “pura feminilidade biológica”. Pequenos palcos de guerra, secretos, onde se exorcizam fantasmas interiores, numa vida espiritual dialogada, que constitui para Kundera um tema privilegiado de observação, nessa dimensão onde ganha pertinência a interrogação de todas as coisas. Chegados à meia idade, e após um longo relacionamento, Chantal e Jean-Marc entram numa espiral de ansiedade lutando pela manutenção de um amplexo amoroso que evidencie a atracção mútua e o erotismo remanescente, desvalorizando as frustrações da monotonia e o eclodir dos dias lentos que se acomodam com o passar dos anos. 
É no momento em que se instalam todos os receios e incertezas que Kundera nos atira para o meio do casal tornando-nos espectadores passivos numa luta contra o desgaste do tempo.

Será este o momento de recorrer à Fonte da Juventude? Lucas Carnach assim o entendeu. A Lenda da Fonte da Juventude chega-nos desde Heródoto mas Carnach soube circunscrever o tema ao universo feminino. Com uma estátua inspiradora de Eros no centro, à fonte chegam várias mulheres que revelam um estado de exaustão e prostração marcados. A transformação dá-se logo após o miraculoso banho. Lavada a alma dos cansaços surge, no lado direito, um novo espaço, projectado à melhoria de uma existência individual. De relance, diria que parece quase perfeito.

14.1.13

Henry David Thoreau - Caminhada

"Porque será tão difícil por vezes determinar um percurso a seguir?" Esta é uma das questões que Thoreau suscitou na palestra que pronunciou no Concord Lyceum e que daria origem ao seu livro "Caminhada". Mais do que uma evocação ao refúgio na natureza agreste, aos longos passeios pelos prados virgens ou ao trepar às árvores de onde se avistam novos horizontes, o livro esconde o subtil magnetismo que a natureza nos revela se, inconscientemente, nos rendermos a ela. A viagem, é subtilmente espiritual, sendo as veredas por onde se embrenha aquelas "que outrora percorreram velhos profetas e poetas como Manu, Moisés, Homero e Chaucer". 

Free your mind and let your spirit fly é uma imagem iconográfica que enquadra na perfeição a mensagem de Thoreau, pois "um homem que não sai de casa todo o dia pode ser o mais errante de todos", por oposição àquele que sem terra deambula sem norte "como um sinuoso rio que procura persistentemente o caminho mais curto para o mar". "Há, porém, certas estrada que vale a pena percorrer, como se agora que estão em ruínas nos conduzissem ao caminho certo". Propensos, por vezes, para efectuar a escolha errada, o que é certo é que a terra parece inesgotável e surpreendentemente rica em encaminhar-nos na direcção correcta. Thoreau descreve-nos as suas caminhadas, não tanto em círculo, mas em parábola, perfazendo a órbita de um cometa, que descreveu curvas definitivas, espraiando-se para ocidente. 

Seguindo o instinto migratório das aves, Thoreau apela à liberdade de escolher o rumo que mais nos aprouver. Rumo a oeste, por exemplo. Caminhando para um futuro, onde se deseje "observar o crepúsculo resplandecente onde o sol parece migrar diariamente incitando-nos a segui-lo" até ao horizonte onde mergulha ao final da tarde. "Será aí que iremos conhecer os jardins das Hespérides e a origem de todas as fábulas"? A resposta promissora parece surgir "das águas, dos montes e dos vales cobertos de vinhas, com uma música em surdina, que relembra o torpel dos soldados de partida para a Terra Santa". Thoreau desafia-nos a deixarmo-nos levar pelo arrebatado encanto da corrente, como se transportados para uma era heróica onde os alicerces dos castelos se encontram ainda por construir e as famosas pontes são caminhos projectados sobre os rios mais revoltos. 

A cada um, caberá a total liberdade de desbravar a sua terra selvagem. No "canto do tordo dos bosques, há certos interstícios que nos levam a fixar numa terra selvagem nunca antes pisada pelo homem". O explorador, tenderá a aclimatar-se, projectando-se como uma árvore que lança as suas raízes até aos confins da terra em busca da esperança e do futuro onde se esconde a matéria prima que o agarra à vida. Nessas terras, "no prado e na noite vê-se o trigo nascer", a vida harmoniza-se com a terra selvagem e os afazeres desenvolvem-se com a pressa que se exige às coisas infinitas. Aí, a lua parecerá maior do que em qualquer outro local. O sol, alimentará o espírito daqueles que ganham o nome como as pedras de granito selvagens. Tal como os índios que não nascem com nome próprio, também o homem predisposto ganhará o nome através das suas proezas na caça e na guerra, na destreza das suas mãos, no nome dos animais, das plantas ou das aves que contribuíram para a sua reputação. Assim crescerá o ânimo dos que são tocados pelos raios de sol suaves. Por perto, apenas as sombras que se alongam num prado glorioso. No céu, o azul intenso cortado apenas pelo voo de um solitário falcão. E, ao longe, o som do pequeno riacho, que salta por entre as pedras, enredando folhas secas e pequenas cepos, rumo à foz, onde desaguam todas as águas doces de esperança. CRV©

22.10.12

Henry David Thoreau - Walden ou a Vida nos Bosques

Henry David Thoreau (1817-62)
"O meu vizinho mais próximo fica a mil e seiscentos metros daqui, e não se avista nenhuma casa a não ser do alto da colina, a oitocentos metros da minha. Tenho o horizonte orlado de bosques e todo para mim; de um lado, a vista da longínqua ferrovia ao atingir o lago, da outra banda a da cerca que contorna a estrada da região florestal. Mas na sua maior parte o sítio onde moro é tão solitário como as pradarias. É tão Ásia e África como Nova Inglaterra. Tenho, por assim dizer, meus próprios sol, lua e estrelas, e um pequeno mundo só para mim. Nunca um viajante passou à noite pela minha casa ou veio bater-me à porta, quase como se eu fosse o primeiro ou o último dos homens;(…)" 

"Se como uma aranha eu fosse confiado a um sotão pelo resto dos meus dias, o mundo para mim seria imenso desde que estivessem comigo os meus pensamentos". 


É curioso quando iniciamos a leitura de um livro e de repente, como se o imprevisível estivesse ao virar de cada página, sentimo-nos identificados com as descrições, a filosofia, a linguagem, as emoções e os sentimentos do autor. Com a convicção de um princípio divino, no interior de cada homem, e defendendo o direito ao sancionamento individual nas questões da fé, Thoreau, um dos percursores do Transcendentalismo, conta-nos, em modo auto-biográfico, o retiro que efectuou, por opção própria, durante dois anos, nas margens do lago Walden, nos arredores de Concord, Massachusetts.

Entregando-se à contemplação, o autor adoptou uma prosa nitidamente metafórica expondo, de forma admirável, o intimismo reflexivo que desenvolveu consigo próprio e as considerações que teceu sobre o mundo natural que o rodeava. Zelando em exclusivo pela sua subsistência, Thoreau foi criando vínculos, superando o isolamento e quebrando as barreiras naturais que se levantavam à sua permanência num meio desconhecido e hostil. Estabeleceu relações com os animais, as árvores, a chuva, os lagos, as distâncias, as estações, o sol e a lua, a noite e o dia. Laços que o ajudaram a compreender o silêncio da floresta, afinal cheia de ruídos conhecidos, como o "canto dessa ave forasteira celebrado por poetas de todos os países" ou "uma gralha azul gritando estridente à janela" da casa construída pelas suas próprias mãos. 
"Em vez de frequentar um erudito, fiz muitas visitas a certas árvores, de espécies raras nas circunvizinhanças, dessas que se isolam no meio de uma pastagem, no coração de um bosque ou de um pântano, ou no cimo de uma colina" 

Lake Walden - Concord - Massachusetts
Thoreau aligeirou as diferenças e enalteceu as semelhanças. Quebrou fronteiras e amenizou a solidão que poucas vezes sentiu, como refere numa das suas passagens do livro. Não tendo natureza de ermitão Thoreau eleva os aspectos individualistas da existência humana, inspirando-se na ênfase Platónica do sujeito e na hegemonia da natureza sobre a sociedade. Refugiando-se num mundo feito à sua medida, natural e transparente, com o qual estabelecia diálogos, exaltava a mente, desenvolvia capacidades reflexivas e produzia poesia, Thoreau, num ecletismo romântico, desafiou os jovens que se acercavam da floresta, para pescar e caçar, a deporem os seus instrumentos bélicos e a dedicarem-se à introspecção do seu mundo individual, tendo como premissa que 
"Todo o homem é senhor de um reino ao lado do qual o império terrestre do Czar é apenas um estado minúsculo, um montículo deixado pelo gelo". 

Thoreau enalteceu a capacidade para apreender a verdade, preconizando a consciência como guia moral e a inspiração como fonte criadora da literatura. Herdeiro tardio do optimismo de Rousseau, a sua influência viria a ecoar nas filosofias de resistência passiva de desobediência civil, das quais os movimentos de independência e equidade social, liderados por Gandhi e Martin Luther King, respectivamente, são os exemplos de maior sucesso, num conturbado séc:XX.

24.12.11

O primeiro livro de fotografias


Anna Atkins (1799-1871), é considerada a autora do primeiro livro de fotografias publicado. Filha de John George Children, cientista do Departamento de História Natural do Museu Britânico, ficou orfã de mãe no primeiro ano de vida, ficando o pai responsável pela sua educação. Pela força das circunstâncias, estabeleceu-se uma forte cumplicidade entre ambos e foi John Children que introduziu Anna, no mundo das Ciências Naturais.

Ambos conheciam Sir John Herschel, o inventor do cyanotype. O método consiste na exposição aos raios solares de um objecto colocado sobre uma cartolina preparada com um composto que reage aos ultravioletas. Passados 10 a 20m a cartolina fica com as formas impressas do objecto que se encontrava sobre ela. A impressão obtida denomina-se Prussian Blue. Corria o ano de 1842 e Anna decidiu expor a sua colecção de algas marinhas. Daí à publicação foi um passo. mais aqui 
Anna Atkins - Algas - 1843

16.12.11

Londres - Waterstone em Trafalgar Square

Há poucos sítios no mundo onde nos sentimos como em casa. Em Londres, Nelson, ladeado por 4 leões de pedra, ergue-se a 50m do solo, entre a National Gallery e a Westminster Abbey. Fustigada por ventos gelados de norte, Trafalgar Square ganha, nesta altura do ano, a atmosfera tranquila do natal. O frio não impede as aglomerações na praça, nem os discursos de pregadores temerários abafados por coros de crianças vestidas de pai natal. Agarradas às estátuas, as luzes coloridas tremem como asas que batem sacudidas pelo vento. O movimento na praça domina o tempo. Corre-se de um lado para o outro, naquele estremecimento débil entre as compras e as fotografias de ocasião. Numa esquina, do meu lado esquerdo, fica a Waterstone, uma das maiores livrarias de Londres, local de peregrinação de qualquer bibliómano que goste de se atormentar com edições exclusivas e com uma variedade de publicações que pulveriza qualquer lista previamente definida perante as possibilidades de escolha. Detive-me entre a poesia e a ficção e trouxe comigo algumas tentações. Alice Oswald, Leonard Cohen, Peter Porter, Jackie Kay, Russian Poets, Tom Paulin, Michael Longley, Carol Ann Duffy, Robert Frost, Lavinia Greenlaw, Stephen Fry, Christopher Reid, David Harsen, Ted Hughes, Don Paterson, Sylvia Plath, Tomas Transtromer, entre outros, o que me deixou uma sensação de absoluta satisfação e a promessa de uma companhia, para as melhores horas do dia, aquelas em que gosto de acariciar a poesia dos bons livros, feitos de folhas de papel suave e capas autênticas. De todos destaco um pequeno livro de poesia que cativou a minha atenção. Poemas inéditos de estudantes da Universidade de Eton, onde as formas de poesia tradicional se cruzam com as mais arrojadas. Poemas como "Don't Worry" que nos conta sobre as vicissitudes da vida "It gently made its home./It colonised where it could,/spread far and wide without hindrance./It caught before settled,/the pain shall pass./No harm would be done if/ The carelessness of examination,/the foolish of inattention,/the imprudance of ignorance,/had been avoided." ou "The Mariner" This is how he finds peace./ Tied down by bowlines and reef - knots and sheepshanks,/ And nudged by the flowing of the water./Old radio, crackling, reporting/ The crashing of sea against a distant shore.(...)". De todos "The mountain" é um dos meus preferidos.
The Mountain

As I ascend the ragged mountain peaks,
And gaze on raging tumbling waterfalls,
The majesty of nature to me speaks
Of distant eagles swooping on patrol.
The weriness of limbs and soul diffuse
Into the virgin purity of sky,
Where unforgiving frost and cold refuse
To nurtune blossoms growing so high.
My plodding gait, so rhythmic underfoot
Disturbs no living thing, though echoes through
The rocky barren land that has been put
For us to savour solitude and view.
my spirit soar every step I take,
And radiate with joy each stride I make.

Tomothy Rawlinson, E Block in Eton College, Anthology
Fotogr: CRV©

22.11.11

Zoran Zivkovic - A Biblioteca

"Tossi para chamar a atenção para a minha pessoa, mas ninguém apareceu na porta lateral entreaberta, o único acesso ao espaço atrás do balcão. A luz da sala a seguir à porta estava ligada, mas nenhum som chegava dali. «Boa noite», disse, e esperei um pouco, para depois repeti-lo em voz alta. De novo não houve qualquer resposta. A biblioteca estava em silêncio absoluto.
Estava ali indeciso, não sabendo o que fazer, quando de repente todas as luzes se apagaram. De um momento para o outro encontrei-me em quase completa escuridão. As janelas que até pouco tempo representavam apenas uns rectângulos pretos tornaram-se agora a única fonte de alguma iluminação em redor. Através delas, do exterior, corria o brilho fosco e alaranjado dos candeeiros da rua, enfraquecido pela cortina de neve. Enquanto os meus olhos se habituavam à escuridão, fazia um esforço, e não sem um certo desconforto, para adivinhar qual poderia ter sido a causa.
Foi então que, de um lugar indefinido do andar de baixo, chegou um som agudo e metálico, semelhante ao de uma chave a girar na fechadura. No mesmo instante apercebi-me do que, na realidade, se estava a passar. O pessoal não tinha de passar pela sala principal para descer para o rés-do-chão. Enquanto em vão os esperava no balcão, eles chegavam à escada por um outro caminho, ou talvez tenham descido de elevador, para depois, antes de saírem, desligarem a electricidade do prédio inteiro no disjuntor central. Era uma medida de precaução sensata numa instituição do tipo de uma biblioteca. (...) Perguntei-me o que faria se fosse um ladrão. Ele de certeza não esperaria até segunda-feira para o deixarem sair. O que uma pessoa dessas faria no meu lugar? Reflecti um pouco sobre isso, mas as coisas que me ocorreram eram quer inadmissivelmente violentas, quer demasiadamente perigosas, quer dificilmente realizáveis, incluindo o uso de ferramentas das quais eu, claro, não dispunha. Em suma, parecia que não me podia gabar de ter a perspicácia de um ladrão.
E então tive a ideia luminosa que nenhum ladrão conseguiria ter nem que fosse em sonhos. Havia uma saída simples daquela trapalhada à qual tinha acesso precisamente graças ao facto de ter entrado na biblioteca por motivos honrados, e não desonestos. A única coisa que era preciso fazer era voltar ao balcão e usar o telefone que ali se encontrava. Os telefones permanecem ligados mesmo quando não há electricidade. Chamaria a polícia e explicar-lhes-ia o que me acontecera. Talvez lhes parecesse estranho, mas mesmo que não acreditassem em mim imediatamente, continuaria a chamá-los até que viessem para verificar. Depois tudo seria fácil. Era bastante provável que me levassem até à esquadra para fazer uma declaração. Nunca tinha tido nada com a polícia, mas mesmo isso era mais aceitável do que definhar ali dois dias e meio."

Zoran Zivkovic in A Biblioteca  - Cavalo de Ferro -

14.11.11

Alain de Botton - Como Proust pode mudar a sua Vida

 Jean-Baptiste Chardin - Plateau de pêches - 1769
Quando adquiri o livro não acreditei que se tratasse de um manual de auto-ajuda. Pelo contrário, o nome pareceu-me suficientemente sugestivo pois propunha efectuar algumas dissecações na obra literária de Proust, nomeadamente, “Em Busca do Tempo Perdido”. Alain de Botton conduz-nos, através do olhar de Proust, numa proposta plástica de transformação da tediosa natureza trivial das coisas, convolando o nosso olhar em janelas para um mundo extraordinariamente sedutor e evocativo dos sentidos. Com o título “Como Abrir os Olhos”, Proust sugere a um jovem entediado, com a pobreza da sua vida burguesa, deixar de procurar no esplendor e nas vidas principescas dos quadros de Van Dyck e de Varonese a compensação para a frustração do seu dia a dia. Proust sugere-lhe uma medida pedagógica. Leva o jovem pela mão para uma das alas mais recônditas do Louvre, aquela onde se encontra exposta a obra de Jean-Baptiste Siméon Chardin, pintor que se debruçou sobre temas de interior tão banais como naturezas mortas, caça, utensílios de cozinha ou cenas da vida doméstica. Em Chardin, ao contrário da opulência dos grandes salões e dos grandes feitos heróicos, encontramos a trivialidade dos temas diários. Porém, os quadros de Chardin têm o poder de nos abrir os olhos, tornando mutável o nosso sentido de beleza, sensibilizando-nos para qualidades estéticas até aí ignoradas.  Um pêssego cor-de-rosa roliço como um querubim, o jogo de luz na extremidade de uma colher, a suavidade das fibras de uma toalha de mesa, os tons rosados da face de uma criança.
Poderíamos enfatizar, na história da arte, uma sucessão de génios que nos vão apontando diferentes elementos dignos da nossa atenção. Esta dicotomia, entre o trivial e a felicidade que pode advir de um segundo olhar, é essencial em todo o conceito terapêutico de Proust. O que achei mais curioso, nesta abordagem, foi a coincidência com o que me ocorreu, precisamente, em Junho passado, quando, em visita ao Prado, em Madrid, adquiri bilhetes para a exposição temporária de Chardin, confesso, sem particular entusiasmo. Os temas abordados não suscitavam o arrebatamento dos grandes mestres, como Goya, Bosh, Velásquez ou El Greco e quando adquiri o folheto percebi que os temas circundavam as conversas de preceptoras com crianças mal comportadas (por sinal um dos quadros mais fascinantes de Chardin) e a opulência das lebres e dos faisões, feitos troféus de caça. Contudo, apesar dos temas banais, senti-me como o rapaz do ensaio e o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”, salva por um mundo revelado por cores verdadeiras, inesperadamente gloriosas, recordando-me a estreiteza de visão de que por vezes somos acometidos ao ficarmos reféns de imagens perigosamente formatadas.  Proust incentiva-nos a avaliar devidamente o mundo, recordando-nos continuamente o valor dos cenários modestos, que são atraentes de per si, pela sua transparência e ausência de ambiguidade. Na realidade, “tudo se resume a uma visão íntima, democrática e despretensiosa da beleza, uma visão seguramente ao alcance de um salário burguês e desprovida de qualquer faceta grandiosa ou aristocrática”. Quanto à exposição de Chardin, no Prado, fica a promessa do relato das minhas impressões, para breve.
 Jean-Baptiste Chardin - Nature Morte - 1750

12.11.11

Alain Proust sobre a obra de Ruskin


No ensaio de homenagem à obra de Ruskin, na sequência de um estudo intensivo, Proust refere que:

“Apesar de todas as suas qualidades a sua obra também acaba por revelar-se pateta, maníaca, redutora, falsa e ridícula, a quem a ela se dedica durante demasiado tempo”.

Transformar a leitura numa disciplina é atribuír um papel demasiado importante a algo que não passa de um incentivo. Ler, encontra-se no limiar da vida espiritual; pode revelá-la, mas não a constitui. Ao fim de um certo tempo, quando o cansaço se apudera de nós, até os melhores livros merecem ser pousados. Dar-lhes descanso, pode revelar-se uma dádiva de vida.

7.11.11

Germana Vaz Pinto - Apresentação do livro "Santas de Roca"

Decorreu em ambiente, particularmente, descontraído, entre familiares, amigos e colegas, a apresentação do livro "Santas de Roca", de Germana Vaz Pinto. O salão de documentação da Câmara Municipal de Lisboa foi pequeno, para o número de pessoas que compareceram ao evento. A actriz Rita Lello apresentou o livro e escreveu o prefácio:
"Li Santas de Roca de seguida. Não larguei a resma de papel impresso que a Germana me entregou na esplanada do Jardim das Amoreiras, as suas personagens foram ganhando espaço, espessura e alma na minha imaginação, os cenários surgiram-me povoados pelos corpos daqueles que agora já iam sendo pra mim pessoas conhecidas e era Voz familiar da Germana (tão igual à da Tita, minha companheira de segredos e sonoras gargalhadas) que eu ouvia e me is contando aquela história, que me fazia ver a Rita reflectida no brilho dos espelhos da Versailles, o alcatrão das curvas da Arrábida, o cabelo da Mercedes, o brilho eufórico no olhar do Pablo e no seu avesso aquela tristeza sem limite, as mãos fortes do Artur, a luz a entrar pela salinha da Mercedes, a tristeza nos olhos da Maria da Graça, as lágrimas zangadas com Deus da avó Cecília, os pés descalços da Mercedes a correr sobre a gravilhado jardim, o rio Tejo pela janela da casa de Santos, os dentinhos do sorriso da Mariquita, o calor do olhar do Rodrigo. Segui com atenção o fado da Maria da Graça, o desabrochar da Mercedes, o pragmatismo da Rita, fascinei-me com a Guiomar e comovi-me com a revolta da Avó Cecília. Apaixonei-me pelo Pablo, aprendi a initar o Artur, revoltei-me com o Francisco, iludi-me com o Rodrigo. Mergulhei de cabeça neste universo e passei um óptimo fim-de-semana dentro do mundo que a Germana criou a partir da sua necessidade de ficção. O que é que se pode pedir mais de um livro?
Obrigada Germana."   Rita Lello

Fotogr: CRV

3.11.11

Germana Vaz Pinto - Santas de Roca


"Na casa do Algarve as janelas eram grandes, abertas para o oceano. As paredes brancas estavam decoradas com quadros de rabiscos e borrões sem sentido para a senhora Cecília. Arte, diziam-lhe. E as Santas? Outros monos. Espalhadas pelas salas ou em nichos nos corredores, tudo madeira carcomida pelo bicho, algumas já manetas outras sem narizes, tinham custado um horror de dinheiro e custavam outro tanto para que o bicho não as comesse. As piores eram as carecas, com saias de armação de madeira. Arte Sacra, diziam-lhe também. Mas ali não havia vida, eram apenas coisas feias a imitar gente, há muitos séculos atrás saíam em procissões, com perucas, lágrimas de vidro e outros adereços, umas vestidas de santos outras de mártires e anjos, até de Jesus Cristo e de a Virgem Mãe. Quis o destino que ali fossem acabar os seus dias, numa casa cheia de sol, mas só de vez em quando.
O seu lugar preferido era o salão do primeiro andar, de lá via todo o jardim e o pomar, ao fundo a piscina que se prolongava até ao mar, parecia mesmo acabar no mar."

Quando os amigos escrevem livros...poderia ser o título deste post. Germana Vaz Pinto, advogada, jurista, amiga de infância, arquitecta de ficções e de ilusões, lança-se, pela primeira vez, neste mundo dos livros de modo próprio com a vontade de germinar palavras que lhe sussurra o vento. O livro é uma história contada no feminino. Três gerações de mulheres e os seus percursos. Uma leitura que traça rotas nos sentimentos mais profundos aos quais não são alheias as vicissitudes da vida, as alegrias, os desgostos, a tristeza, a dor e a reconciliação. 

A apresentação será amanhã, Sexta, 4 de Nov. pelas 18 hrs, no salão da Câmara Municipal de Lisboa, em Entrecampos.

28.10.11

J. D. Salinger - À Espera no Centeio

"O táxi que apanhei era incrivelmente velho com um cheiro que parecia que alguém tinha acabado de largar ali o lastro. Calham-me sempre estes táxis tipo vómito sempre que vou a algum lado à noite. E o pior é que lá fora estava tudo bestialmente calado e solitário, mesmo para um sábado à noite. Não vi praticamente ninguém nas ruas. De vez em quando via-se um gajo e uma miúda a atravessar a rua, com os braços à volta da cintura um do outro e assim, ou um bando de gajos com ar de rufias com os seus engates, todos a rir como hienas de alguma coisa que quase apostava que não tinha piada nenhuma. Nova Iorque é tramada quando alguém se ri na rua a altas horas. Ouve-se a milhas. Faz-nos sentir bestialmente sós e deprimidos. Não parei de desejar estar um pouco ao paleio com a miúda Phoebe. Mas depois, já estava no táxi há um bom bocado, o motorista e eu começamos a conversar. Enfim, pensei que talvez soubesse alguma coisa dos patos.
- Oiça, Horwitz - disse eu. - Já alguma vez passou pela lagoa no Central Park? Para os lados do Central Park South?
- A quê?
- A lagoa. Assim como um lago pequeno, que há lá. Onde estão os patos. Sabe?
- Sim, e depois?
- Bem, está a ver os patos que andam lá a nadar? Na primavera e assim? Por acaso faz ideia para onde vão eles no inverno?
- Eles quem?
- Os patos. Faz alguma ideia, por acaso? Quer dizer, vai lá alguém com um camião ou assim e os leva dali ou são eles que voam dali para fora e vão para o sul ou coisa do género?
O amigo Horwitz torceu-se para trás e deu-me uma olhadela. Era do género de tipos sem grande paciência. Mas não era mau tipo.
- E como raio havia eu de saber? - disse ele. - Como raio havia eu de saber uma estupidez dessas?
- Pronto, não vale a pena ficar chateado - disse eu. Porque ele estava chateado ou pelo menos parecia.
- Quem é que está chateado? Ninguém está chateado.
Deixei por ali a conversa, já que ele afinava à brava com tudo. Mas foi ele que recomeçou. Voltou a virar-se todo para trás e disse:
- Os peixes não vão para lado nenhum. Os peixes ficam ali mesmo onde estão. Ali mesmo na merda do lago.
- Os peixes...é diferente. Os peixes são uma coisa diferente. Estou a falar nos patos - disse eu.
- E onde é que está a diferença? Não há diferença nenhuma - disse o Horwitz. Sempre que falava dava a impressão de que estava chateado com alguma coisa. - Para os peixes é muito mais duro, no inverno e tal, do que para os patos, c' um caraças. Use essa cabeça c' um caraças."
J. D. Salinger in À Espera no Centeio

17.10.11

Vincent Van Gogh - Reescrever a História



Holandês. Falecido prematuramente, em 1890, quando contava apenas 37 anos, Vincent Van Gogh é um dos maiores génios da história da arte. Na sua curta passagem pela vida experimentou a melancolia e a depressão, a pobreza, os acessos de fúria, o caos emocional, os internamentos, os desesperos e a solidão. A História ensinou-nos que acabou os seus dias em Auvers-sur-Oise, em Julho de 1890, auto-infligindo-se com um tiro no abdómen, num dos campos de trigo que tinha servido de cenário para algumas das suas últimas obras. Mas terá sido esta a versão exacta dos factos? Haverá outra? Foi, precisamente, para responder a esta pergunta que dois autores, Steven Naifeh and Gregory White Smith, ocuparam os últimos 10 anos da sua vida a investigar o que realmente se passou naquela tarde de Julho de 1890, propondo-se agora, reescrever a história da arte. O livro, recentemente publicado, intitulado 'Van Gogh: The Life', sugere uma tese que contraria a ideia de suicidio consubstanciando, antes, a hipótese de um homicídio. Vincent teria sido, acidentalmente, atingido por um disparo inadvertido, efectuado por dois adolescentes, no decurso de uma brincadeira. Argumentos vários suportam esta tese. A distância percorrida pelo artista quando baleado, a arma que nunca foi encontrada, as últimas palavras de Van Gogh. Vincent, o filantropo que desejava apenas dar um significado à sua vida, buscando nos que o rodeavam, compreensão, protecção e o convívio necessário de modo a suprir a sua terrível solidão. Estes, foram alguns dos desejos manifestados na sua correspondência com Theo, o seu irmão mais novo. Quanto à nova interpretação dos factos, apraz-me pensar que um dos seus quadros inacabados, Farms near Auvers (1890), só por acidente, não recebeu as estocadas finais do artista.
A entrevista aos autores foi realizada no famoso programa da CBS, "60 Minutes". A primeira parte poderá ser vista aqui.

14.10.11

Entre a Utopia de Thomas More e a Realidade do Estado

" A ilha da Utopia tem duzentas milhas na sua maior largura, ficando esta situada na parte média da ilha. Essa largura diminui gradual e simetricamente do centro para as duas extremidades, de maneira que toda a ilha forma como que um semicírculo de quinhentas milhas de perímetro e apresenta a forma de um crescente cujas pontas estão afastadas cerca de onze milhas.
O mar enche toda essa imensa reentrância; as terras adjacentes que se desenvolvem em anfiteatro quebram o furor dos ventos, mantendo o mar sempre calmo e dando àquela massa de água a transparência de um lago tranquilo. A parte côncava da ilha constitui como que um único e vasto porto acessível por todos os lados à navegação. A entrada do porto é perigosa por causa dos bancos de areia, de um lado, e dos rochedos, do outro. A meio eleva-se um escolho visível de muito longe e que por esse motivo não oferece perigo algum. Os utolianos construíram aí um forte defendido por adestrada guarnição. Outros rochedos, ocultos sobre a toalha de água, constituem inevitáveis armadilhas para os navegadores. Só os habitantes conhecem os passos navegáveis e torna-se desta maneira impossível penetrar no canal sem ter a bordo um piloto utopiano. Constituiria, aliás, precaução insuficiente se alguns faróis situados ao longo da costa não indicassem o caminho a seguir. A simples mudança de lugar dos faróis, sugerindo uma direcção falsa, seria o bastante para destruir a mais numerosa frota.
Na parte oposta da ilha, encontram-se portos frequentes, e a arte e a natureza tornam-na de tal modo inacessível, que um punhado de homens poderia impedir o desembarque do maior exército".
Thomas More in A Utopia

Lembrei-me hoje, dia de rescaldo, após o anúncio, por parte do Governo, de novo agravamento das medidas restritivas, do livro de Sir Thomas More “A Utopia”, publicado no ano de 1516. Preconiza o autor uma concepção teórica de Estado perfeito, onde se viveria não só com plena liberdade religiosa, mas também com igualdade e justiça social. A distribuição do trabalho, seria uma forma de libertação dos homens, muito embora obedecendo à estratificação social da época, procurava estabelecer-se, como limite máximo, a carga horária diária de 6 horas, por trabalhador. Uma inovação numa sociedade pós medieval e, aparentemente, impraticável no mundo actual onde a classe assalariada tem vindo a perder direitos adquiridos, em modo pós-revolucionário, numa proporção directa ao endividamento do monstro do Estado. À imagem das críticas de Eça e Bordalo Pinheiro, aos governantes da época, também a Utopia, de Sir Thomas More, constituiu uma crítica às políticas inglesas do seu governo, tendo, igualmente, a particularidade de manter não só a actualidade, como antecipa modelos políticos que estariam na génese das concepções teóricas de Marx e Hengels. More, teoriza que o direito da propriedade individual, enquanto fundamento do edifício social, é gerador de” miséria, tormentos e desesperos”. Não posso deixar de entender que as suas teorias mantêm uma actualidade quase didáctica, uma vez que são preconizadoras dos tentáculos de um polvo gigantesco movido pela ganância de quem assume as rédeas do poder não sendo difícil identificar aqueles que ali chegaram de mãos a abanar e que dali partem sem explicações relativamente ao seu enriquecimento sem causa. Quanto às repercussões, essas, naturalmente incidem sobre o cidadão anónimo que sem perspectivas e num desalento mórbido, arrasta a sua dignidade pelos meandros de um Inferno de sobrevivência Dantesca.

11.10.11

J.M. Coetzee para a posteridade

"Meteu os seus haveres no casaco preto, esgueirou-se silenciosamente para o exterior do acampamento e ocultou-se atrás da cisterna, aguardando que fossem todos para a cama e as últimas cinzas se apagassem, até que tudo mergulhou em silêncio, à excepção do vento que soprava sobre a planície. Esperou mais uma hora, tremendo de frio, por não fazer qualquer movimento. Depois, descalçou os sapatos, pendurou-os ao pescoço, deslizou na ponta dos pés até à cerca de arame junto às latrinas, atirou a trouxa para o outro lado e trepou. Houve um momento em que, ao transpor a barreira, as calças se lhe prenderam no arame farpado e ele foi um alvo fácil no céu azul prateado, mas desembaraçou-se e seguiu em bicos de pés num chão surpreendentemente igual ao do acampamento.
Deambulou a noite toda, sem cansaço, tremendo, por vezes, de excitação de se sentir livre. Quando amanheceu, afastou-se da estrada e penetrou em campo aberto. Não encontrou qualquer ser humano; porém, mais uma vez, assustou-se com o  repentino salto de um veado em correria para as colinas. A erva seca, amarelada, ondulava ao vento; o céu era azul; o seu corpo recobrava o vigor. Vagueando num passo incerto, passou por uma e outra quinta. A paisagem era tão deserta que não custava a crer, por vezes, que ninguém antes dele palmilhara aqueles caminhos ou pisara aquelas pedras. De longe em longe, no entanto, havia uma cerca a lembrar-lhe que não era apenas um infractor, mas também um fugitivo. Passando pelos cercados e muros, sentia o prazer de um artesão ao escutar o zumbido do arame que, ao esticar-se repercutia. Porém, não conseguia imaginar-se a passar a vida a plantar estacas, levantar barreiras, dividir as terras. Não se via como algo pesado que deixa rasto no chão à sua passagem, mas, a ser qualquer coisa, como um grão de areia à superfície de uma terra adormecida demasiado profundamente para ouvir os pés de uma formiga, o ruído dos dentes de uma borboleta ou o cair do pó".
J.M.Coetzee in "A Vida e o Tempo de Michael K." - Dom Quixote

São livros como "A Vida e o Tempo de Michael K" que permitem estabelecer alguma relação entre a reclusão voluntária, a solidão e a  meditação que têm pautado a vida de Coetzee. Michael K., vê-se, após a morte da mãe sózinho num mundo anárquico regido por militares errantes e violentos. Aprisionado, Michael é incapaz de tolerar a reclusão e foge, determinado a viver com dignidade. É um romance de afirmação da existência que vai à essência da experiência humana, evocando a necessidade de uma vida interior, espiritual, com algumas ligações ao mundo em que vivemos, vocacionada para a pureza do seu entendimento. Foram livros como este que deram a Coetzee o duplo Booker Prize, em 83 e 99, e o Nobel, em 2003. É por isso com agrado que li a notícia, ontem divulgada pelo New York Times, da aquisição,  pela biblioteca da Universidade do Texas - a Harry Ransom Center - dos manuscritos de J.M.Coetzee, facto que só vem reafirmar o interesse, para as futuras gerações, do espólio do escritor. A curiosidade reside na coincidência, desta mesma biblioteca ter sido o local onde Coetzee procedeu à investigação, para a sua tese publicada, sobre o primeiro período da obra de Samuel Beckett.

12.7.11

" Bonjour, Bonne lecture de votre livre, commandé sur Amazon"

Não tem nada de especial encomendar livros pela Amazon. O prazer da escolha, e do dia em que chega a encomenda, já são nossos conhecidos. Mas hoje, teve um encanto especial. Receber as Poesias Completas de Rimbaut, com uma dedicatória, escrita à mão pelo livreiro, rendeu-me. Não há dúvida que ainda faço parte daquele grupo que gosta de sentir os livros na mão, apesar das inegáveis vantagens de transporte que as novas tecnologias nos oferecem. Ao acaso abri em 
Ophélie

Sur l' onde calme et noir où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentment, couchée en ses long voiles...
- On entend dans les bois de lointains hallalis...

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc sur le long fleuve noir:
Voici plus de mille ans sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir...

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses long voile bercés mollement par les eaux:
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s'inclinent les roseaux[.]

Les nénuphars froissés soupirent autour d'elle:
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid d'où s'échappe un léger frisson d'aile
- Un chant mystérieux tombe des astre d'or...

Arhur Rimbaud in Poésies Complètes

9.5.11

Caryl Chessman - 2455 - San Quentin

Foi na sequência de um programa de televisão que contava o abuso sexual de Ruben Patterson, jogador de basketball dos “Seattle Supersonic”, à babysitter dos seus filhos, que me lembrei de Caryl Chessman. Em meados de 2001, Ruben Patterson, acusado de forçar a babysitter a praticar sexo oral, seria condenado a 15 dias de prisão domiciliária e à suspensão nos próximos 5 jogos da “National Basketball Association”. Em Agosto de 2001, com alguma ironia, diria aos media, no momento da assinatura do seu novo contrato de $33.8 milhões de dólares, com os “Portland Trail Blazers”, “I’m not a rapist, I’m a great guy”.
Recordo-me de ver os quatro livros de Caryl Chessman alinhados na estante da casa dos meus pais. Desde pequena, sempre me despertaram curiosidade com as capas coloridas e as folhas grosseiras típicas das publicações dos anos 60 da Europa-America. Recomendavam-me que eram livros para ler só quando compreendesse que por vezes a justiça nem sempre faz corresponder a determinado crime a pena mais justa. Que nessas expectativas também há erros e falhas graves. Que a história judicial, desde os seus primórdios, escontra-se repleta de casos onde o apuramento da verdade foi inquinada por interesses politicos ou de classe. Pela fantasia em criar exemplos mediáticos. Pela recusa em retroceder. Pela dificuldade em assumir falhas na apreciação das provas, ofuscando, irremediavelmente, o fim imediato ou pedagógico a que a justiça aspira.      
Corria o ano de 1948 e Caryl Chessman era um marginal de 27 anos, com cadastro, que se dedicava a crimes menores. Foi preso em Los Angeles e acusado de ser o “Homem da Lanterna Vermelha”, um assaltante que fazendo-se passar por um agente de autoridade, seguia as suas vitimas de carro, intimidando-as a parar. Depois de encostarem à berma e abrirem o vidro, apontava-lhes uma lanterna com uma luz encarnada para o rosto, ofuscando-as, seguindo-se o furto e, no caso de algumas jovens, a violação. Seria Chessman o “homem da lanterna vermelha”? O tribunal recusou-se sempre a reapreciar as provas e a proceder a um novo julgamento, apesar das declarações conclusivas das vítimas dos crimes que descreveram o perfil do autor com particularidades físicas que não coincidiam com Chessman. Mesmo assim, Chessman seria condenado pelo crime de furto, rapto e violação de uma jovem de 17 anos, sendo sentenciado a duas penas de morte. Parte da controvérsia que envolveu o caso de Chessman reconduz-se ao modo como a pena de morte foi aplicada.
Viviam-se, no Estado da Califórnia, tempos agitados com a “Little Lindberg Law” e todos os crimes que envolvessem violações à integridade física e rapto, eram susceptíveis de ser punidos com a pena capital.
O facto de Chessman ter, alegadamente, arrastado a jovem, alguns metros, para fora do carro, para a obrigar a praticar sexo oral, foi considerado rapto, promovendo-o à condenação à morte na câmara de gás de San Quentin. Recorde-se, por coincidência, o mesmo crime que, em 2001, praticaria Ruben Patterson, com a sua babysitter, e que lhe valeram 15 dias de prisão domiciliária. Razões haverá aqui para questionar sobre quais foram, em ambos os casos, os princípios de equidade e imparcialidade subjacentes na melhor aplicação da justiça.
Os doze anos que se seguiriam à condenação de Chessman, foram passados na cela 2455 do Corredor da Morte, na prisão de San Quentin. Chessman condenado a morrer na pequena salinha verde, por inalação de gás de cianeto, escreveu quatro livros, como um acto de contrição, como expiação das suas culpas na sociedade, negando até ao último minuto de vida que era o “homem da lanterna vermelha”. O homem que entendemos na sua obra é a de um ser humano diferente, que em nada se identifica com o criminoso condenado por violação. Dotado de uma inteligência vigorosa Chessman escreve exaustivamente em sua defesa, recusando defensores oficiosos, cépticos relativamente à sua versão dos factos. Nos seus livros, Chessman revela méritos literários, conquista o público e consegue mover uma opinião internacional em defesa da sua causa. Com honestidade, assume a verdadeira história desordenada da sua vida, expondo a falha das opções tomadas, os erros cometidos e propondo aos criminologistas o estudo da natureza do crime e modos de o erradicar. Caryl Chessman passaria mais de um terço dos seus trinta e nove anos detido. Nestes seus últimos 12 anos de vida Chessman dirigiu, de modo próprio, uma contestação brilhante das condenações que lhe foram impostas por crimes de que se afirmou sempre inocente. Viria a ser executado na câmara de gás de San Quintin, no dia 2 de Maio de 1960, após oito adiamentos sucessivos da sua execução e de, por segundos, não ter chegado a tempo, um último telefonema de apelação.

17.2.11

Descobertos os destroços do "The Two Brothers"

Arqueólogos americanos do “America's National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa)” descobriram, numa cadeia de recifes de coral, a cerca de 1000 Km de Honolulu, nas águas territoriais do Hawaii, os destroços do baleeiro “The Two Brothers” que serviu de inspiração a Herman Melville para escrever o grande clássico, do séc: XIX, “Moby Dick”. O comandante do navio, George Pollard, já havia sofrido um naufrágio anterior, a bordo do “Essex”, quando este foi abalroado por uma baleia fornecendo os factos, que envolvem esses acontecimentos, para a narrativa do livro. Mais aqui.

27.1.11

Um pesadelo

"Fechei a porta do meu escritório e dirigi-me ao elevador. Ia chamá-lo quando uma personagem estranhíssima atraíu toda a minha atenção. Era tão alto que eu devia ter percebido que o sonhava. Aumentava a sua estatura o seu barrete cónico. O seu rosto (que não vi nunca de perfil) tinha qualquer coisa de tártaro ou do que eu imagino ser tártaro e terminava numa bárbara negra, que também era cónica. Os olhos fixavam-me, brincalhões. Usava um longo sobretudo preto e lustroso, cheio de grandes discos brancos. Quase tocava no chão. Talvez suspeitando que estava a sonhar, ousei perguntar-lhe não sei em que língua porque vestia daquela maneira. Sorriu-me com manha e desabotoou o sobretudo. Vi que por baixo havia um longo fato inteiriço do mesmo material, com os mesmos discos brancos, e soube (como se sabem as coisas nos sonhos) que por baixo havia outro. 
Naquele preciso momento senti o inconfundível sabor do pesadelo e acordei". 

Borges in Obras Completas Vol.III -
Fotogr CRV

12.7.10

Reserva sobre a intimidade da vida privada

"As pessoas têm sempre segredos, é uma questão de os descobrir"
Lisbeth Salender - Hacker profissional - protagonista do livro
"Os Homens que Odeiam as Mulheres"
de Stieg Larsson
Sempre que se fala na violação do “direito à reserva sobre a intimidade da vida privada” lembro-me da facilidade com que qualquer “voyeur” curioso e sem escrúpulos pode atentar contra a nossa intimidade contratando um “hacker profissional” ou apenas “um bom amador” que facilmente consiga aceder à nossa correspondência pessoal e profissional, por mais sigilosa que esta seja, aos nossos escritos pessoais e de reflexão sentimental, às nossas finanças privadas, ao nosso Facebook, fotografias, blogs privados, ao computador da nossa casa, enfim, a tudo aquilo que a lei denomina como espaço de reserva da intimidade da vida privada e profissional. Para além da violação da esfera e da correspondência profissional, mais grave em si, a violação da esfera privada é protegida por lei e compreende todos aqueles actos que, não sendo secretos em si mesmos, devem subtrair-se à curiosidade pública, por naturais razões de resguardo e melindre, como é o caso dos sentimentos e afectos familiares, os costumes da vida e as vulgares práticas quotidianas que se desenvolvem entre o foro das paredes domésticas e que, naturalmente, deverão ser objecto de resguardo público. Recordo-me sempre, nestes casos, dos livros da Triologia Millenium do sueco Stieg Larsson. No I volume, intitulado “Os Homens que Odeiam as Mulheres” Bomkvist, jornalista, encarregado da investigação do desaparecimento de uma jovem, contrata Lisbeth Salander, uma HACKER profissional, com um comportamento anti-social, encarregada de penetrar na vida alheia e descobrir e expor todos os infimos detalhes da família de Henrik. A facilidade com que o faz, neste caso em prol de uma justa causa – a investigação de um desaparecimento – faz-me pensar na facilidade com que a mesma violação poderá ser efectuada por uma ou mais mentes criminosas que, com evidente má fé, pretendam a título gratuito, por puro voyeurismo, satisfação pessoal ou outro intuito menos lícito, fazer uso ilegal das informações colhidas, criando um ascendente intimidatório perante a vitima, objecto da pirataria informática. Contudo, nem todas as pessoas têm segredos na vida por revelar, segredos daqueles que seriam susceptíveis de práticas chantagistas ou de atemorizada exposição social. De qualquer forma, sempre que penso nestas questões recordo o II volume da triologia de Stieg Larsson, intitulado “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um fósforo” porque “Não há inocentes, há apenas diferentes graus de responsabilidade” – Lisbeth Salander. Brindemos, com um bom vinho, ao início da leitura do II volume.

4.7.10

"Um Louco" de Guy de Maupassant

Guy de Maupassant, um dos criadores do conto moderno, a par do russo Tchékhov, ganhou reconhecimento instantâneo com a publicação de Boule de Suif, em 1880. Entre os inúmeros contos que publicou na vida, muitos têm a loucura como tema. Outros, reúnem a loucura e o crime, tal como o conto que reli, esta noite, intitulado “Um Louco”.
Inicia-se com a morte de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, magistrado íntegro, cuja vida sem mácula era citada como exemplo. Jovens conselheiros e juízes inclinavam-se sobre a sua memória com uma vénia, em sinal de profundo respeito.
A sua vida tinha sido pautada pela perseguição aos criminosos e pela protecção aos fracos. Escroques e assassinos jamais tinham sido confrontados com tamanho inimigo. Era-lhe reconhecida a capacidade de ler, no fundo das almas, os pensamentos mais secretos demonstrando, com um breve passar de olhos, que rapidamente conseguia desvendar os segredos mais íntimos, os mistérios e as intenções dos suspeitos a ele levados. Ninguém era poupado ao seu instinto. A todos condenava, sem dó nem piedade, fazendo justiça e assim agradando ao povo. Morreu aos 82 anos, cercado de homenagens, lamentando todos a sua morte, lançando palavras tristes e flores brancas sobre o seu caixão. Passado o funeral, o seu escrivão, procedia a arrumações do espólio, quando descobre um diário que tem como título: Porquê?
Nos seus escritos particulares, íntimos, que ninguém adivinhou com um mero passar de olhos, o juiz descrevia, com a satisfação de um criminoso em série, as várias criaturas que tinha assassinado, relatando com o sadismo de um louco a violência e a crueldade que infligia às suas vítimas:
“Então peguei na tesoura, e cortei-lhe a garganta com três golpes, bem devagar. Ele abria a boca, tentava escapar-me, mas eu segurava-o, ah! Eu segurava-o – com a minha força teria conseguido segurar um bulldog enraivecido – e vi o sangue escorrer. Como é belo, vermelho, reluzente, claro, o sangue! Eu tinha vontade de bebê-lo. Molhei nele a ponta da minha língua! É bom! Mas tinha tão pouco sangue esse pobre passarinho! Não tive tempo de gozar aquela visão como gostaria. Deve ser fantástico ver sangrar um touro. E depois fiz como os assassinos, como os de verdade. Lavei a tesoura, lavei as minhas mãos; deitei fora a água e levei o corpo, o cadáver, e enterrei-o no jardim. Enfiei-o debaixo de um morangueiro. Nunca o encontrarão. Comerei todos os dias um morango daquele pé de morangueiro. Realmente, como se pode gozar a vida, quando se sabe!”
O restante manuscrito continha ainda muitas páginas com outros crimes e condenações de inocentes acusados por crimes levados a cabo pelas próprias mãos do juíz. Os médicos legistas, a quem foi confiado, afirmaram existirem no mundo muitos loucos ignorados, tão hábeis e tão temíveis quanto este monstruoso demente.
No próximo post irei falar sobre violação da privacidade, da intimidade da vida privada e de outras histórias de crime e loucura, pois é bom relembrar: Nem todos os que prevaricam chegam alguma vez a ser julgados perante a justiça e, por cá, temos vários exemplos disso.