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4.6.17

De Mineralibus de Albertus Magnum

Muito antes da Inquisição ter chamado à colação os arautos moralizadores da sociedade, expurgando na fogueira os inconformados com as mentes hipócritas fossilizadas, castrando os cupérnicos da ciência e as novas ideias, encontrando sempre espaço na rama do palanque para queimar os herbários e as bruxas de ervanária, houve um frade dominicano, nascido na Alemanha, sábio medieval, escolástico, que se destacou numa pluralidade de áreas da ciência que lhe valeram o apelido honorífico de “Doctor Universalis”. Acredita-se que Albertus Magnum tenha nascido pouco antes do ano de 1200 e terá sido quando estudava em Pádua que terá tido uma visão da Virgem Maria que lhe mudou a vida e o fez optar pelo sacerdócio. Apesar da oposição da família, decide entrar para a Ordem dos Pregadores, lecciona em Colónia e em Paris, altura em que São Tomás de Aquino se torna seu discípulo, aprofundando uma multiplicidade de valências científicas que abrangiam a astronomia, a teologia, a mineralogia, a física e a filosofia. Mas foi ao ler um excerto do seu tratado de mineralogia intitulado “Mineralibus” que me interessou particularmente aquilo a que Magnum apelidou “A Forma e o Poder das Pedras”. E escreverei daqui em diante Pedras, com letra maiúscula, porque Albertus Magnus e os seus discípulos inspeccionaram-as minuciosamente, de todos os lados e quadrantes, tirando ilações, fazendo especulações, escrevendo dissertações e chegando a conclusões que inovaram para sempre o panorama geológico da humanidade. E isto porque, simplesmente, uma Pedra não é só uma Pedra, meus senhores. Uma Pedra tem muito mais que se lhe diga pois não só tem côr ao olhar, formas arredondadas ou bicudas ao tocar, cheiro ao inalar, algumas sulfurosas outras acidas, mas muito mais importante que tudo isto Albertus Magnus, com a sua peculiar curiosidade incisiva, descobriu que as Pedras têm segredos intrínsecos dos quais não é possível dissociar. E disserta assim sobre os poderes das Pedras: 
Albertus Magnum 1200-1280

“As pedras têm poderes “ocultos” ou “escondidos” que não se podem identificar com os sentidos, como sejam, se estão quentes ou frias, molhadas ou secas, se se identificam com o ar, a água, a terra, o fogo, ou qualquer um dos quatro elementos da natureza”. 

Desses poderes, dá como exemplo os poderes ocultos das pedras que denomina como a sua “forma específica”. Essa “forma “ será aquela que agrupa uma pedra num conjunto da sua espécie e que ajuda a distinguir uma pedra magnética de uma safira. E acrescenta: 

“Duvidar que as pedras têm “formas substanciais” é loucura uma vez que essa certeza resulta da observação e da constatação da sua solidez e da sua matéria intrínseca. E isto porque os elementos que as constituem não têm a volatilidade das nuvens, da neve ou da chuva, uma vez que estes se desagregam com facilidade e se dissolvem em outros elementos. Aquilo que vemos acontecer na natureza das pedras é exactamente o oposto. Mais, nas pedras encontramos poderes - como o de expelir venenos, úlceras e atrair ou repelir o ferro - que não resultam de qualquer elemento conhecido. Segundo a visão partilhada por todos os especialistas, estes poderes resultam da espécie e da forma desta ou daquela pedra. Assim, fica claro que as pedras têm formas e espécies fixas e muito embora essas formas não sejam almas, como alguns dos nossos antepassados pensavam…considero que serão antes “formas substanciais” distintas, originadas por forças divinas com uma composição específica de certos elementos. Não há no nosso léxico denominação para essas formas, contudo, os diferentes tipos de pedras são susceptíveis de ser agrupadas em safiras, esmeraldas, mármores ou sílicas". 
Fotogr: net

Considerando a teoria de Magnus sobre o “poder oculto” das Pedras percebo agora o poder da pedra que trago há uns anos sempre comigo no bolso. Apanhei-a numa praia deserta. A sua forma branca, oval, achatada, suave ao toque, sem arestas, fez-me guarda-la acreditando que tem algum poder oculto para transformar a minha vida. Cada vez que venho a esta praia, e inicio as minhas caminhadas em silêncio à beira mar, gosto de a sentir contra a palma da minha mão, sentir-lhe a textura lisa e, ao modo de prece velada, acreditar que ao aperta-la alguma revelação órfica se irá  concretizar, com hierarquização das causas celestes e inquestionáveis efeitos terrestres da vontade do Criador. CRV©

22.2.15

A Capelinha do CALHAU S. Vicente

"Camus dá-nos a conhecer a filosofia do absurdo. O Homem que busca um sentido para a vida, arriscando tudo, sem equacionar os perigos. O Homem que se encontra no limbo dos desesperados, sem caminho definido, prosseguindo com a determinação, clareza e a racionalidade dos que rebuscam no vazio as forças do abandono contra as encostas soltas sem gritos. Retorcendo-se na esperança de demonstrar o visível que mais ninguém vê, prostrado e cansado da repetição da vida, socorre-se de todos os seus trunfos, escora-se nas veredas da memória, tinge as farpas da glória, para atingir o zero do infinito. Lá de cima, resvala repetidamente monte abaixo, recomeçando de novo mais uma abordagem mais do que justificada do absurdo. Nem por isso, deixa de fazer conjeturas, inventar suposições, inquinar o futuro. Perito nas interpretações da vida, CAMUS condena o HOMEM ABSURDO à repetição das mesmas tarefas. Empurrar, arriba acima, um CALHAU do tamanho do mundo, só pode constituir um estímulo de forças a prosseguir, infinitamente, uma tarefa que valida, completamente, todo o esforço de todos os idiotas envolvidos". CRV

11.5.14

O silêncio. A estética. Os caminhos.

Wittgenstein
"Deitada de costas na tijoleira quente da Piazza del Campo, olho o azul altíssimo sem nuvens, conto os pássaros que cruzam o meu bocado de céu, sentindo a brisa reconfortante do mês de Julho. São quatro da tarde. O sol corre lento por detrás do Palazzio Publico e da Torre de Mangia projectando as suas sombras imponentes no chão do largo, aproveitadas por muitos para a pausa tradicional nas caminhadas pelas artérias da cidade que acabam sempre por convergir, para este ponto de encontro". CRV

Podia ser mais um relato de viagens por esse mundo fora, um recortar de um estado de espírito, um momento de tranquilidade, uma pausa na vida a escutar o silêncio. Quantas vezes é o silêncio de alguém interpretado como apatia, pobreza ou insuficiência de ideias, falta de recursos de formas estilísticas ou de escrita. Será falta de capacidade de expressão, obliteração do pensamento ou simples recusa de produção? Será mais um Bartleby, escrivão de Melville, que opta pelo "I would prefer not to"? 
O silêncio pode ser um meio estético, exigente, meio para atingir um fim, uma solução, uma clarividência, uma reconciliação entre pensamento e linguagem, um exercício exegético à qual o indivíduo se entrega e que corresponde a uma forma de atmosfera densa interior onde se degladiam os seus palcos de vida. 

Numa carta ao editor Ludwig von Ficker, sobre o seu livro "Tratactus", Wittgenstein afirmava: "O sentido do livro é ético. Quis, em tempos, incluir no prefácio uma frase, que de facto não está lá, a qual vou aqui escrever, para que possa ser só por si uma chave de trabalho. Assim, o que eu queria escrever era: o meu trabalho consiste em duas partes - a que está presente e a que não escrevi. E é precisamente esta segunda parte a mais importante. Traço os limites à esfera ética a partir do interior do meu livro e estou convencido ser essa a única forma rigorosa de traçar esses limites. Em suma, acredito, que onde hoje muitos sussurram consegui no meu livro através do silêncio colocar tudo no seu lugar(…)". 

O silêncio de Wittgenstein é relativo a uma acção fundamental, porque não é passiva ou indiferente, antes confere, àquele que se cala e àquilo que se silencia, o valor que resulta de uma correcta e prolífica actividade reflexiva. Igualmente não se trata de argumentar que a escrita nos trai ou que nos merece desconfiança pelas interpretações duvidosas que suscita. Trata-se antes de mais, de considerar que o melhor caminho é aquele que cala e que encontra, no quadro das opções que se apresentam, a melhor preposição estética. Será aí que, enfim, encontraremos a melhor forma de enquadrar a vida. A nossa derradeira opção ética.

11.6.13

A Geografia do Tempo

Hannah Arendt
"Esta força diagonal, cuja origem é desconhecida, cuja direcção é determinada pelo passado e pelo futuro, mas que exerce a sua força em direcção a um fim indeterminado como se pudesse alcançar o infinito, parece-me uma metáfora perfeita para a actividade do pensamento". 
Hannah Arendt  

Lia um ensaio sobre o livro "The Life of the Mind" de Hannah Arendt, quando me confronto com uma tese apetecível sobre a geografia do tempo. Atribuíndo à mente humana a capacidade de criar um tempo subjectivo próprio, o homem motivado pelas vicissitudes da história e da vida tenderá a criar no presente um intervalo, no tempo cronológico, que entende o passado e o futuro como forças antagónicas que se degladiam. 

É nesse intervalo subjectivo que podemos dar conta que, tal como o tempo cíclico da natureza, onde encontramos o nascimento e a morte, também aqui haverá lugar a um ciclo que enquadra cronológicamente um momento antecedente e um precedente. Hannah Arendt identifica esse momento como "uma verdadeira desconexão por acção e por vontade" entre um tempo passado "criando uma nova série a partir do presente". 

A ideia parece demasiado teórica mas, na realidade, não faz mais do que construir um teorema sobre as grandes cisões da história onde a vontade dos homens foi percursora das grandes revoluções. E é a partir da Revolução Americana que Arendt exorta a sua tese mas, sem dúvida, que haveria lugar para tantos outros exemplos que, por acção do homem metamorfosearam a sequência objectiva do curso do tempo. O desenho do tempo, surge-nos em Arendt como um aforismo onde se degladiam dois adversários: "o passado, que empurra, desde o início, o tempo para a frente e, o futuro, que veda o caminho evolutivo do primeiro". O homem, ser consciente das forças antagónicas em presença, acaba por se transformar em "vítima" num determinado ponto de colisão desta dupla pressão. Na "luta" os apetrechos vão evoluindo, entre o "passado morto", que se ergue como um mecanismo de imobilidade nostálgica que impede a mente de progredir, e a vontade de desbravar um futuro que, por receio, tarda em se manifestar, em se impor e, por fim, a existir. 

Viver numa frente de batalha não é necessariamente o contexto ideal para desenvolver uma actividade reflexiva. A exigência da tranquilidade faz-nos, por vezes, ter vontade de retirar os adereços do palco, remetendo-nos aos bastidores na procura daquilo que Kafka chamou "a saída da linha de combate e a assunção como árbitro absoluto". O sonho da tranquilidade, tão antigo como Parménides, não reveste em Arendt a faceta platónica dos dois mundos: o mundo interior, pessoal, entendido como o real e verdadeiro, por oposição ao mundo exterior, comum, que subsiste de aparências. 

Arendt rejeita a teoria da dualidade e concebe o recolhimento como uma suspensão. A troca momentânea, do mundo dos objectos pelo mundo dos conceitos, fundada nos próprios acontecimentos da vida quotidiana estariam na origem da criação de um presente intemporal. Nesse hiato a recordação e a antecipação seriam construídas com uma equidistância alargada, remetendo o ponto de colisão do passado e do futuro para longe do indivíduo, evitando assim a perturbação. Conseguiremos desta forma tomar posse do nosso tempo? "Aprofundar o presente, enaltecer o verdadeiro, o belo e praticar o bem?" Simone Weil sintetizou desta forma o agarrar " do nosso tempo". Caso se entenda o teorema como um desafio, cumpre explorá-lo. Foi o que fizemos.

23.12.12

Como falam, o Silêncio e a Solidão?


Wittgenstein
"Aquilo de que não se pode falar, é preciso calar. O que se mostra é o que seria inútil procurar dizer, é o ser. Para quê procurar dizer ou pensar o ser? O ser mostra-se sozinho, indica-se-nos no ruído, num silêncio ensurdecedor" 
Wittgenstein

O silêncio é um daqueles paradoxos cuja ambiguidade apetece dissecar de modo a analisar minuciosamente as lamelas que, após cuidada observação, revelam sinais indizíveis de uma linguagem feita de sinais. Apesar de, aparentemente, o silêncio nada dizer, o facto é que se anuncia. Faz-se esperar. Comunica a sua indisponibilidade através de um conjunto de anagramas, que abrangem o todo e o nada, onde a utilização de uma linguagem simbólica convola a mera ausência numa presença insinuada. E, não terá esta metáfora da não comunicação uma presença viva, um sentido claro, uma leitura deliberada? O tema sugere-me aquelas dissertações filosóficas que não levam a nada, caiem num vazio, mas que, por outro lado, prendem pelo mistério que se esconde por detrás de uma espécie de culto que explora outras formas de comunicação. Como Walter Benjamin refere, "toda e qualquer comunicação de conteúdos é linguagem, sendo a comunicação através da palavra apenas um caso particular". Sob o ponto de vista social, o silêncio pode ser encarado como a consumação de uma rejeição, como uma indisponibilidade afectiva, como um desinteresse na partilha, como um refúgio na própria solidão. Mas a solidão que lhe está inerente, pode ser ambivalente uma vez que tanto pode constituir espectro de um estigma como pode resultar de uma opção deliberada com vista à própria elevação. Essa, é decididamente a faceta que mais me interessa, na medida em que constituirá, à imagem de Zaratustra, de Jonas e de tantos outros, uma busca do caminho da própria redenção.
Platão
Tolentino Mendonça questiona se "a solidão não será também uma porta onde se revela, no maior isolamento, uma visão inesperada?".
Não será essa a sonoridade acústica, apenas perceptível aos ecos indizíveis da alma? E com a reflexão surge o espaço que se ganha que tanto poderá potenciar a queda, como criar raízes e evidenciar um caminho onde o passo deixará marca e a marca será revelação. Este silêncio, e esta solidão, terão então uma faculdade pedagógica, predominantemente positiva, à imagem de alguns desafios bíblicos onde a percepção do místico se obtém através do tranquilo escutar do murmúrio das brisas do mar e não através do ribombar do trovão.
Comodamente, podemos sempre encarar a alma como Platão. Fraccionada, em conformidade com a diversidade das operações da vida que a integram. A cada uma dessas faculdades corresponderá um comportamento e a conquista de um ritmo humano que perante as necessidades tende a construir, por opção, um caminho de verdade, sereno, de reconhecimento, silêncio e justa reflexão.

16.12.12

A Imaginação como Instrumento de Libertação

Pascal
Pascal desenvolveu a teoria da contenção da imaginação defendendo  um travão à sua força criativa. Domina-la, criando barreiras intransponíveis, dotadas de responsabilidade e razoabilidade seria o modo de vedar a luxúria que exacerbava os neurónios até à exaustão. Lembrei-me de Pessoa, e do quanto teríamos perdido com o refreio da sua imaginação multi-facetada, à qual se referiu na sua "prosa íntima", como uma ave voadora que era parte indissociável de um projecto futuro, inspirado em "sonhos, delírios e voos encantadores da imaginação que lhe acariciavam o cérebro". Pessoa confessa-nos que a sua vida se reconduzia a uma enorme passividade. Centrado nos sonhos, que lhe impregnavam a mente, a imaginação tolhia-o fisicamente, condicionando os seus actos e atropelando-lhe a concretização do seu raciocínio, interpondo-se outros pensamentos, que se subdividiam em mais mil, e que o afastavam da produção das suas conclusões. Assumindo-se com um intelecto flexível, refere-se à heteronomia, como algo que lhe impregnava o espírito com diversas emoções, conduzindo as suas personagens com o à vontade de "quem abre a porta a um visitante" e, por osmose, se acomoda à sua pele.
Pessoa
A metafísica, e as divagações da mente, são para Pessoa "uma caixa para conter o Infinito" talvez por isso "tenha agido sempre para dentro, nunca tocando na vida, esboroando-se os sonhos sempre que se propunha transformá-los em gestos". Como qualquer sonhador, Pessoa, heroicamente comandou exércitos, venceu grandes batalhas, gozou grandes derrotas, amou e pecou, tudo dentro do seu universo, parando, quantas vezes, na margem da vida com o assombro sobre um mundo do avesso. Entre Pessoa e o Mundo havia sempre uma "névoa que o impedia de ver as coisas como as outras pessoas as viam". Dizia-se "um espectador criador de anarquias", decompondo a realidade com uma "volúpia acre" deturpando-a em "inúmeros espelhos fantásticos" que accionavam a sua criatividade infinita. Pessoa, aproxima-se da felicidade preconizada por Descartes ao explorar o poder da imaginação, convolando as angústias, as dores e as tristezas em instrumentos que transportam o drama vivido para um palco. Perdendo os dramas na sua essência, relevância e substância, o sujeito passa a   espectador de um teatro, sujeito a poses multifacetadas, centradas num conceito de estética que decorre em vários actos, ensaiados sobre um palco animado.

3.12.12

Sobrevir

"Acorrentarás a minha perna, mas não a minha vontade" ; " Sê como a pedra e serás invulnerável" 
- Epicteto

Albert Camus
Quando Camus considerou que a vida "era uma estrada que se segue com facilidade a maior parte do tempo" não excepcionou as antípodas dantescas onde se pronunciam o céu, por remissão à felicidade que lhe está alienada ou o inferno, ligado à tragédia absoluta associada.

Os extremos, são essas apoteoses que desconcertam a estrada fácil que se trilha por maioria. Todos aspiramos, como o hominis volunt, a viver uma vida tranquila, imperturbada por obstáculos e tempestades que pesam na caminhada como uma cruz agriolhada à esperança. Para nos afastarmos dessa persona indesejada, que geralmente se instala no hemisfério das nostalgias e incertezas, recorremos, tal como Epicteto, à vontade, accionando o antídoto de desvalorização da realidade incómoda que nos afasta do bem-estar, da paz e da tranquilidade desejada. 

Schindler's List
Mas, para lá das constrições gerais, há existências que transportam em si uma fatalidade que balança entre aqueles axiomas pavesianos que anunciam que pior do que nascer é ter a capacidade de sobreviver. E, quando isso acontece, para acabar de vez com qualquer hipótese de esperança, ao sobrevir impõem-se, categoricamente, que sucumba jovem. Como refere George Steiner, este é o modelo do "absolutamente trágico" que nos conduz àqueles homens e mulheres que durante a História surgiram como intrusos indesejáveis da criação. Por isso mesmo, a sua condição predestinada empurrou-os, naturalmente, para o abismo dos sofrimentos e reveses arbitrários, onde todos os passos involuntários são agonias e rejeições inevitáveis devendo, consequentemente, ser liminarmente excluídos como um empecilho no processo omnisciente da selecção natural. 
No Holocausto, judeus, ciganos, deficientes e outros tantos rostos invisíveis proscritos, desafiaram os canônes sociais. Nascer, teria predestinado o encontro inevitável com a tortura e a morte, residindo a aniquilação dos indesejáveis numa purga social que refinava os padrões dos sectores eleitos. 

Confesso que sempre me causou alguma perplexidade o conformismo e a passividade das franjas sociais resignadas com a negação da sua existência, com a marginalização kafkiana em massa, com a aceitação tranquila do abismo, como se o seu destino estivesse intimamente ligado ao niilismo suicida da negação da existência e ao inevitável encontro com o silêncio e a morte. Se pensarmos nos 6 milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial é inevitável interrogarmo-nos porque não ocorreram revoltas significativas, tomadas de poder pelas armas, fugas temerárias, assaltos arrojados aos bastiões dos culpados. Todo o percurso foi marcado por uma lassidão de actos inertes, uma postura apática, maquinal, em direcção a um zenite inevitavelmente trágico. 
Sobrevir à morte, ao "puro nada" é uma astúcia da vida para aqueles seres em que o destino continua a ter uma importância infinita. Decidir do nosso trilho, passa a constituir um imperativo categórico na contingência mais radical do ser, coincidente com o momento em que a consciência descobre que, para ela, a felicidade é uma plenitude que ainda deve compreender a expectativa e a promessa do devir.

22.10.12

Henry David Thoreau - Walden ou a Vida nos Bosques

Henry David Thoreau (1817-62)
"O meu vizinho mais próximo fica a mil e seiscentos metros daqui, e não se avista nenhuma casa a não ser do alto da colina, a oitocentos metros da minha. Tenho o horizonte orlado de bosques e todo para mim; de um lado, a vista da longínqua ferrovia ao atingir o lago, da outra banda a da cerca que contorna a estrada da região florestal. Mas na sua maior parte o sítio onde moro é tão solitário como as pradarias. É tão Ásia e África como Nova Inglaterra. Tenho, por assim dizer, meus próprios sol, lua e estrelas, e um pequeno mundo só para mim. Nunca um viajante passou à noite pela minha casa ou veio bater-me à porta, quase como se eu fosse o primeiro ou o último dos homens;(…)" 

"Se como uma aranha eu fosse confiado a um sotão pelo resto dos meus dias, o mundo para mim seria imenso desde que estivessem comigo os meus pensamentos". 


É curioso quando iniciamos a leitura de um livro e de repente, como se o imprevisível estivesse ao virar de cada página, sentimo-nos identificados com as descrições, a filosofia, a linguagem, as emoções e os sentimentos do autor. Com a convicção de um princípio divino, no interior de cada homem, e defendendo o direito ao sancionamento individual nas questões da fé, Thoreau, um dos percursores do Transcendentalismo, conta-nos, em modo auto-biográfico, o retiro que efectuou, por opção própria, durante dois anos, nas margens do lago Walden, nos arredores de Concord, Massachusetts.

Entregando-se à contemplação, o autor adoptou uma prosa nitidamente metafórica expondo, de forma admirável, o intimismo reflexivo que desenvolveu consigo próprio e as considerações que teceu sobre o mundo natural que o rodeava. Zelando em exclusivo pela sua subsistência, Thoreau foi criando vínculos, superando o isolamento e quebrando as barreiras naturais que se levantavam à sua permanência num meio desconhecido e hostil. Estabeleceu relações com os animais, as árvores, a chuva, os lagos, as distâncias, as estações, o sol e a lua, a noite e o dia. Laços que o ajudaram a compreender o silêncio da floresta, afinal cheia de ruídos conhecidos, como o "canto dessa ave forasteira celebrado por poetas de todos os países" ou "uma gralha azul gritando estridente à janela" da casa construída pelas suas próprias mãos. 
"Em vez de frequentar um erudito, fiz muitas visitas a certas árvores, de espécies raras nas circunvizinhanças, dessas que se isolam no meio de uma pastagem, no coração de um bosque ou de um pântano, ou no cimo de uma colina" 

Lake Walden - Concord - Massachusetts
Thoreau aligeirou as diferenças e enalteceu as semelhanças. Quebrou fronteiras e amenizou a solidão que poucas vezes sentiu, como refere numa das suas passagens do livro. Não tendo natureza de ermitão Thoreau eleva os aspectos individualistas da existência humana, inspirando-se na ênfase Platónica do sujeito e na hegemonia da natureza sobre a sociedade. Refugiando-se num mundo feito à sua medida, natural e transparente, com o qual estabelecia diálogos, exaltava a mente, desenvolvia capacidades reflexivas e produzia poesia, Thoreau, num ecletismo romântico, desafiou os jovens que se acercavam da floresta, para pescar e caçar, a deporem os seus instrumentos bélicos e a dedicarem-se à introspecção do seu mundo individual, tendo como premissa que 
"Todo o homem é senhor de um reino ao lado do qual o império terrestre do Czar é apenas um estado minúsculo, um montículo deixado pelo gelo". 

Thoreau enalteceu a capacidade para apreender a verdade, preconizando a consciência como guia moral e a inspiração como fonte criadora da literatura. Herdeiro tardio do optimismo de Rousseau, a sua influência viria a ecoar nas filosofias de resistência passiva de desobediência civil, das quais os movimentos de independência e equidade social, liderados por Gandhi e Martin Luther King, respectivamente, são os exemplos de maior sucesso, num conturbado séc:XX.

10.1.12

George Steiner e o tríptico social


George Steiner
Alfred Dreyfus, judeu, oficial de artilharia do exercito francês, foi acusado de vender informações aos alemães, sendo condenado por alta traição, a prisão perpétua , num processo onde as provas foram forjadas, a verdade intencionalmente omitida, o erro judicial xenofobicamente ignorado. Dreyfus, foi levado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde permaneceu 5 anos, até o seu irmão ter reunido provas para relançar um segundo julgamento que iria promover a sua absolvição, repondo a verdade dos factos.

É recorrente, entre os autores que vou lendo, o recurso ao caso Dreyfus como um marco apoteótico que pôs a descoberto as fragilidades e as cisões ideológicas que estão subjacentes na sociedade europeia. Li essa abordagem em Hanna Arendt, quando expõe, na óptica do totalitarismo, um nacionalismo católico francês que considerou Dreyfus como um intruso, um traidor virulento, representativo da odiada tradição judaica, escolhido para o sacrifício de todos os ódios acumulados na sociedade francesa. Voltei a ler em Borges, relativamente à discórdia entre Ramon Fernándes e Julien Benda, filósofo francês, que se insurgiu em defesa de Dreyfus, mas que rejeitou o modo como foi amnistiada a pena, considerando a solução um subterfúgio que apenas contornou o modo correcto de aplicação da justiça.

E, agora, com George Steiner, leio um ensaio, interessantíssimo, sobre os tabus étnicos, das sociedades modernas, expondo, novamente, o caso Dreyfus e o nacionalismo alemão como balões de ensaio de um xenofobismo latente. Raça, religião e nacionalidade, constituem o tríptico insolúvel que está na génese do rastilho de pólvora que tem ateado manifestações, num quadro europeu etnicamente desavindo. Steiner, integra os migrantes, em grupos étnicos flutuantes que dificilmente conseguem criar raízes fora do seu estado de origem. São os Luftmenschen, do sistema alemão. Os cidadãos etnicamente agrupados, que geram comunidades no estrangeiro, voltadas sobre si mesmas, mas desintegradas da polis que adoptam e habitam.

Desde a II Guerra Mundial, o mundo tem assistido a um crescendo das burocracias de exclusão. Afastamo-nos, cada vez mais, do utupismo de Moore e de McLuhan. Os tempos são revivalistas de um nacionalismo segmentário e de um tribalismo sem precedentes. Os ódios raciais, adquiriram outra valência de xenofobia intolerante, com massacres tribais e o emparelhamento sectário das minorias étnicas e religiosas de muitos países. Vejam-se as tentativas de extermínio de comunidades inteiras. Os tootsies, os arménios, os curdos, os tibetanos, os magrebinos, os palestinianos. O ressurgimento das controvérsias étnicas, tornou-se uma banalidade tolerada pela comunidade internacional. “Somos todos hóspedes deste planeta, em partes iguais. Fiéis depositários de um espaço para sobreviver”. Procuramos, por isso, circundar-nos de um espaço justo, agradável, onde a paz e a tranquilidade preponderem a maior parte do tempo. Só que a realidade mostra-nos, recorrentemente, o contrário. Como refere Steiner: "a sociedade é feita à imagem do livro de Josué, violenta e cruel , determinando-se, diariamente, quais serão os lenhadores e os carregadores de água”. Cumprirá a todos zelar pelo justo equilíbrio de forças, preterindo as sociedades segmentárias em prol daquelas que promovam uma integração mais justa. A opção, caberá a cada um de nós, na noção perfeita que o homem não é um animal solitário, sendo legítimo o desejo de criar raízes junto daqueles que melhor respeitem as nossas liberdades individuais e o nosso direito à vida.

7.7.11

O sonho de Josef K.

“O dia estava lindo e K. decidiu ir dar um passeio. Mas, mal tinha dado dois passos, já estava no cemitério.” É assim que começa o sonho de Josef K., um conto de Kafka que nos recorda a linha ténue entre a vida e a morte. Impelido por uma corrente de ar, K. é atraído em direcção a uma campa num cemitério e nem as bandeiras que lhe tapavam a visão, nem os panos a tremular que batiam com força no porta bandeiras o desviaram desse caminho. Lembra-se de conjecturar se não haveria festa do outro lado, para onde os seus olhos o levavam. É nesse momento que tropeça numa elevação de terra que deixava a descoberto uma cova funda. Por perto, alguém desenhava letras perfeitas numa pedra tumular. Numa troca de olhares, Josef K. olha perplexo para o desenhador de letras, instalando-se um mau estar ao mesmo tempo que o sino da igreja repicava inoportunamente. K., desolado, chora convulsivamente ao aperceber-se do seu destino enquanto o artista tenta acalmá-lo sem sucesso, retomando em seguida a sua caligrafia. O primeiro traço que fez foi para K. um estranho alívio, mas era óbvio que o artista o tinha feito com enormes reticências. A letra já não era tão bonita, parecia já não ser tão dourada, os riscos eram ténues e irregulares, e um J. comprido foi esculpido na pedra. K. percebe que estava tudo preparado. Empurrado por uma corrente de ar cai para dentro da cova de onde, com a cabeça soerguida, não consegue evitar ser engolido pelas profundezas impenetráveis do seu destino, ao mesmo tempo que o desenhador de letras acabava de pintar J.K. Quando acordou, Josef ficou deliciado com o que acabara de ver.

14.6.11

Barthes - Réquichot e o seu Corpo

A poesia ou a pintura são, sem dúvida,  algumas das formas plásticas de representação do nosso eco interior. Lembrei-me, sobre este tema, da abordagem que Barthes faz no seu livro “O óbvio e o obtuso”, sobre o pintor, prematuramente desaparecido, Bérnard Réquichot, (1929-1961). O nome, praticamente desconhecido no mundo da arte, com pouca informação disponivel sobre o seu percurso artistico, bem como sobre a sua biografia, suscitou em Barthes a curiosidade necessária para o idolatrar elaborando um ensaio denominado “Réquichot e o seu Corpo”. Barthes, encontra na obra de Réquichot a forma plástica perfeita no que toca à expressão simbólica do nossos ecos interiores. Segundo Barthes, Réquichot representa na tela uma postura que denomina de “meta-mental”, aquela onde o seu corpo interior é projectado como um “ruído”, mistura de emoções violentas, herméticas, claustrofóbicas onde se degladiam o branco da tela e o negro dos olhos fechados, consubstanciando toda a obra alguma perversa premonição do fim trágico que o pintor viria a ter. Com uma evolução que atravessa a inspiração religiosa e o pós-cubismo, Réquichot viria a radicar a sua arte no experimentalismo das colagens e nos aglomerados de pintura, traduzidos em relicários de madeira, onde proliferavam as cores intensas e o sentimento claustrofóbico da sua angústia interior. Durante todo o seu curto percurso artístico é patente o isolamento a que se devotou, evitando a comunicação, ignorando as opiniões criticas, o mercado de arte ou qualquer tipo de exposição. Réquichot, o pintor, também poeta, artista inquieto, tenso, que expõe na tela a catarse das suas vibrações interiores, viria a procurar refúgio naquilo a que Camus denominou como o único problema sério da filosofia. Aquele onde os movimentos subtis do espírito reconhecem a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato da agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento. Réquichot, viria a suicidar-se com 32 anos, no dia 4 de dezembro de 1961, na sequência da inauguração da sua primeira exposição em Paris.
O site biográfico sobre Bérnard Réquichot, e um trabalho excelente sobre o ensaio de Barthes, elaborado pelo Prof. Latuf Isaias Mucci.
Obra : Maison du Manège endormi - Centre George Pompidou - Paris

7.6.11

Eremitismo

Li, há dias, num blog, uma das “Cartas a um jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke. Falava sobre um eremitismo forçado e dava como exemplo o facto de uma pessoa ser colocada, sózinha, sem preparo ou transição no topo de uma montanha. O que sentiria? Rilke fala numa insegurança imensurável, num abandono inominável, no esforço em obliterar o cérebro de modo a dar um sentido ao presente e a validar os seus sentidos. A dimensão das distâncias adquire um novo sentido com a solidão não sendo de estranhar aquilo a que Rilke chama de sensações estranhas e fantasias quase insuportáveis devendo o eremita forçado aceitar o seu fatalismo e a nova realidade em toda a sua imensidão. Lembrei-me de Andrómeda amarrada a um rochedo ermo, oferecida pelo pai em sacrifício a um monstro, de modo a reconquistar a paz do seu país e de Prometeu, titã imortal, responsável por roubar o fogo de Zeus e o entregar aos homens, remetido para o cume de uma montanha, amarrado a uma rocha, condenado a ter o fígado, diariamente, devorado por uma águia, regenerando-se, até à eternidade. Mas, haverá que obstar aos dramatismos dos isolamentos. Subvertendo os recantos onde rodopia o vento. Considerar que a melodia dos solitários é um privilégio apenas audível àqueles que convolam o isolamento numa oportunidade única de se retirarem para dentro de si mesmos. Talvez um dos melhores exemplos que temos na literatura seja Zaratustra. Refugiado, durante 10 anos, na sua gruta de montanha, cedo se apercebe que é detentor de uma conjuntura rara e feliz. Essa, que raramente nos permite desviar o olhar do transitório que nos rodeia para nos concentrarmos no eterno de nós próprios, parecendo os momentos de solidão anteriores meros erros melancólicos de percurso.
Prometheus 1618 - Peter Paul Rubens - Museum of Arts - Philadelphia

25.5.11

324 - «Innundia vita!»

"Não, a vida não me desapontou! Pelo contrário, todos os anos a acho melhor, mais desejável, mais misteriosa...desde o dia em que vejo em mim a grande libertadora, a ideia de que a vida podia ser experiência para aqueles que procuram saber, e não dever, fatalidade, duplicidade!...Quanto ao próprio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distracção ou vagabundagem, para mim é um mundo de perigos, é um universo de vitórias onde os sentimentos heróicos têm a sua sala de baile. «A vida é um meio de conhecimento»; quando se tem este princípio no coração, pode viverse não somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente! E quem, de resto, se ouvirá, portanto, a bem rir e a bem viver se não for precisamente capaz de vencer e de guerrear?"
Frederic Nietzsche in A Gaia Ciência

12.4.11

Epicteto e "A Arte de Viver"

Um dos livros que seleccionei é um pequeno manual de Epicteto, que comprei o ano passado no Brasil, e que, mal comparado, terá a ver com a vaga de livros modernos de auto-ajuda, que nunca me atraíram, e que enchem as prateleiras das livrarias. Mas os ensinamentos do filósofo não só me atraíram como a sua caracteristica intemporal dota este livro de uma actualidade extraordinária. Como viver uma vida plena e feliz ou como ser uma pessoa com qualidades morais, constituíram as dissertações apaixonadas da vida de Epicteto, o grande filósofo, herói do Estoicismo. Muito embora as suas obras sejam hoje menos conhecidas, em função do declínio do ensino da cultura clássica, as suas propostas tiveram grande influência sobre as ideias dos principais pensadores da arte de saber viver, durante os dois mil anos que se seguiram.
Epicteto nasceu escravo, por volta do ano 55 d.C., em Hierápolis, Frígia, no extremo oriental do Império Romano. O seu mestre foi Epafrodito, secretário administrativo de Nero que ficou impressionado com o jovem, enviando-o para Roma, tornando-se discípulo do famoso estóico Gaio Musônio Rufo. As obras de Musônio Rufo, escritas em grego, ficaram preservadas e contêm argumentos a favor da educação igual para ambos os sexos, invocando igualdades e liberdades idênticas para ambos no casamento. Acreditam os historiadores que o famoso espírito igualitário de Epicteto possa ter sido inspirado, precisamente, nas ideias do seu mestre no período que com ele conviveu. Epicteto tornou-se o mais aclamado aluno de Rufo tendo acabado por ser libertado da sua condição de escravo. Mais tarde fundaria uma escola em Roma mas foi banido da cidade quando o Imperador Domiciano se sentiu ameaçado pela crescente influência dos filósofos na vida política da cidade. Passou a viver no exílio, em Nicópolis, na costa noroeste da Grécia. Ali, fundou uma escola filosófica e passou o resto dos seus dias fazendo palestras sobre como viver com a maior dignidade e tranquilidade mantendo-se um filósofo sereno e humilde estimulando os alunos a encararem a arte de saber viver com sabedoria. Destaco esta passagem do seu livro:

“ Mesmo que alguém o agrida verbal ou fisicamente, mesmo que seja insultado, podemos sempre escolher encarar o que está a acontecer como insulto ou não. Se alguém o irrita, a única coisa capaz de irritá-lo é a sua própria reacção. Portanto, quando aparentemente, alguém o provocar, é bom não esquecer que é apenas a sua própria avaliação do incidente que causa essa sensação. Não se deve deixar que as emoções sejam desencadeadas pelas aparências. O que haverá a fazer é simplesmente não reagir no momento, afastar-se da situação e procurar uma visão mais ampla”.

Como Epicteto reflecte, "a preocupação e o receio do que os outros pensam de nós são uma perda de tempo e não servem de exemplo para a conduta do nosso carácter". Isto é especialmente importante quando se trata da nossa influência ou reputação. Por quê viver com receio de algo, como não ser aceite publicamente ou não poder aspirar a ter as mesmas oportunidades e benefícios que outros tiveram se não somos responsáveis por sectores da vida sobre os quais não temos controle e nos quais não queremos actuar. A proposta de Epicteto é que agradar é uma armadilha perigosa pois corremos o risco de nos desviarmos para fora daquilo que é a nossa esfera de influência valendo mais ser sábio à luz dos nossos olhos do que procurar o reconhecimento e a sapiência aos olhos dos outros, evitando assim impaciências que só colocariam em causa a nossa serenidade interior. É bem melhor ser uma pessoa de carácter, que cumpre as suas obrigações, do que ter renome, poder ou projecção social, aspectos banalizados que comprometem mais tarde ou mais cedo a natureza da nossa felicidade. Ensinamentos, certamente, a reter.

18.2.11

Nietzsche - Uma nova abordagem

Durante muitos anos, os amantes da filosofia, debruçaram-se sobre os conteúdos de Nietzsche explorando os conceitos e as interpretações abrangentes afloradas pelo filósofo, incidindo sobre a vontade do poder, o super-homem, o eterno retorno ou ainda sobre a surdez que o pensador reclama como medida da sua lucidez. No livro de Nietzsche, “A Gaia Ciência” nada é mais esclarecedor do que a necessidade que por vezes temos de adoptar, com bom senso, a atitude de “mais vale ser surdo do que ensurdecido” e Nietzsche expressa-se com o seu acostumado brilhantismo, deste modo:

“Antigamente as pessoas queriam criar uma reputação: isso já não basta, a feira tornou-se demasiado vasta; agora é preciso vender aos berros. A consequência é que mesmo as melhores gargantas forçam a voz e as melhores mercadorias não são oferecidas por orgãos enrouquecidos; já não há génio, nos nossos dias sem clamor e sem rouquidão. Época vil para o pensador: devemos aprender a encontrar entre duas barulheiras o silêncio de que se tem necessidade e a fingir de surdo até chegar a sê-lo. Enquanto não se tiver chegado a isso, corre-se o risco de perecer de impaciência e de dores de cabeça”

A obra de Nietzsche, cheia de aforismos e reflexões com as quais, todos nós, em algum momento da vida, nos identificamos, foi aflorada, nos diversos livros de filosofia, numa perspectiva que disseca os pensamentos do autor sob o ponto de vista temático. Ao percorrer alguns sites na internet, descobri, por casualidade, que um grupo de estudiosos, apaixonados por Nietzsche, resolveu alterar o modo clássico de abordagem temática da obra do autor, optando pela análise dos seus textos como um todo publicado. Os percursores desta medida foram Daniel Conway, Lawrence Hatab, Christopher Janaway, Brian Leiter, and David Owen, relativamente ao livro “Genealogia da Moral”, seguindo-se agora a filósofa, Monika Langer relativamente à Gaia Ciência. Para os curiosos, fica aqui o artigo com o título " A Coerência da Dança", por Monika Langer, matéria que a título confessional me fascina e sobre a qual regressarei proximamente, depois da necessária reflexão.

6.2.11

Roland Barthes e a Privacidade

Ao percorrer uma série de autores, circunscrevendo-me à questão da privacidade e ao temor que o resguardo que ambicionamos para a nossa vida venha a ser violado, achei interessante a dicotomia que Roland Barthes efectua relativamente às várias perspectivas que um público atento poderá ter da intimidade alheia. Segundo Barthes, a interpretação da “privacidade” de alguém muda consoante o agrupamento intelectual que se debruça sobre o todo - ou fraccionamentos desse todo - em análise. Caso o universo seja um grupo elitista de direita, com conotações burguesas ou pequeno-burguesas, será a privacidade sexual que adquirirá um maior relevo, procurando o grupo explorar os meandros das perversões ou das alianças sexuais do visado, expondo impiedosamente essas caracteristicas, tidas como reprováveis no seio de uma comunidade conservadora. Mas Barthes vai mais longe, quando se vira para agrupamentos sociais que se identificam com o intelectualismo esquerdista. A nuance curiosa reside no facto de já não ser a exposição sexual, aquela que adquire um papel preponderante, na doxa de comentários do grupo, mas sim as práticas fúteis e os sentimentos expressos pelo visado, sendo estes o alvo preferêncial da curiosidade alheia. Neste agrupamento, dito esquerdista, é encarado com olhar reprovador a confissão de uma paixão ou de uma amizade declaradamente sincera, a  ternura , a sentimentalidade ou o prazer desinteressado da escrita. Nesta óptica social, estas variáveis são interpretadas como vestígios de uma ideologia burguesa não consistindo aqui o risco do escândalo numa prática física, incidindo a estigmatização na apresentação e na interpretação que o grupo faz de um imaginário apreendido sem consentimento alheio. Se já alguma vez foi objecto da curiosidade alheia não deixe de observar, pelo prisma do espectador atento, as reacções ao colectivo exposto. É que, segundo Barthes, sob o ponto de vista do estudo de uma comunidade, podemos sempre redimir os comentários ou a critica da vida alheia a uma tendência política, dando-nos esse enquadramento estrutural a base para percebermos a relevância ou a importância que o visado é alvo. E, obviamente, da importância que esse visado dá ao grupo que se debruça para dentro dos muros da sua própria intimidade.

13.4.10

Nietzsche - Zaratustra e os Sublimes

Malásia - Bornéu - Shangri-La
“Tranquilo é o fundo do mar que trago em mim; quem adivinharia que oculta monstros divertidos? Imutável é a minha profundidade, mas cintila de enigmas e de gargalhadas flutuantes.” Zaratustra falava assim da profundidade da sua alma sorrindo ao ver os sublimes que por ele passam. Peitos inflamados cheios de ar, homens engalanados com feias verdades, cobertos de espinhos e vestimentas rotas. Não conhecem o riso nem a beleza, nem nunca trazem uma única rosa consigo. Sisudos, lutam como animais selvagens, traindo a fera mal domada dentro de si. São almas tensas e recalcadas que vivem na sombra da sua sublimidade. Há que dar um salto para o sol e, na verdade, isso só será possível quando conseguirem saltar para fora da sombra. Zaratustra chama-lhes penitentes do espírito. Homens de faces pálidas que esperam por qualquer coisa que há-de vir, não se sabe quando, numa fome que quase os mata. Têm desdém no olhar, rugas de repugnância no canto dos lábios, nucas de touro. Seria interessante ver-lhes um olhar de anjo mas o seu conhecimento ainda não os ensinou a sorrir nem a sair da sombra das paixões que traem a ascensão ao éter da beleza. Deviam descansar, com braços negligentemente colocados atrás da nuca. É assim o descanso dos heróis, dominando o seu repouso. Conservar os músculos descontraídos e a vontade desenvolta é o grande desafio que se impõe aos homens sublimes. Não será ao poder clemente e condescendente que se chamará beleza? A ninguém se exige tanta beleza como aos homens sublimes porque é nessa vaidade, ao olharem-se ao espelho, que residirá o verdadeiro segredo da alma. A derradeira bondade que se convola em virtude. Não podemos esperar de Zaratustra, um visionário do além, a quem o mundo parece por vezes saído de um sonho, que todos os sublimes sofram as metamorfoses desejáveis de modo a ascenderem ao patamar bafejado pelo sol das virtudes. Zaratustra é um sonhador, que desce da solidão da montanha em passos de dança, com o olhar límpido e lábios virgens de qualquer desgosto. Zaratustra renasce quando se mistura com os homens e o seu espírito sofre as 3 metamorfoses: de besta de carga a leão e de leão a menino. Zaratustra é inocência e esquecimento, um novo recomeçar, uma roda que gira por si mesma, descoberta e conquista do seu próprio mundo. Fotogr: CRV©

27.11.09

As amebas

Ameba - Organismo unicelular
A "Teoria da Selecção Natural", proposta por Darwin, teve um espelho social que, normalmente, não é abordado. Darwin escreveu uma obra intitulada "A Origem do Homem" na qual aplicou os mesmos critérios da "Origem das Espécies" só que, desta vez, em relação às relações sociais. Este livro, estaria na génese de várias correntes filosóficas, divulgadas em meados do séc: XX, em ambiente pós Segunda Guerra Mundial, onde estavam latentes as discriminações e os atentados à integridade física e moral infligidos a boa parte da população europeia. Uma dessas teorias, - iniciada por Herbert Spencer, contemporâneo de Darwin -, viria, nos anos 40, a ser desenvolvida e denominada por Richard Hopstadter, como "Darwinismo Social". Tem subjacente a ideia de que os grupos e as sociedades evoluem através do conflito e da competição. E, acrescenta: "o ser humano é dotado de determinadas características biológicas e sociais que determinam a superioridade de uma pessoa em relação a outra. O conflito e a selecção natural, dos mais aptos, são condições da progressão social. Trata-se de aplicar ao mundo social os princípios de luta pela vida e pela sobrevivência dos melhores, das sociedades animais, defendidos pela corrente evolucionista". Quando li os princípios que esta tese preconiza lembrei-me, imediatamente, de Hannah Arendt e a exposição que faz nas "Origens do Totalitarismo". O argumento da selecção natural, aplicada às sociedades, esteve na génese do Holocausto nazi. A selecção natural não ocorre de acordo com as regras da liberdade e da dignidade individual, sendo curtos os passos a percorrer até atingirmos um quadro de ideologias totalitárias, com banalização da manipulação de massas, segregação de alguns e crescente acriticismo individual, face à mensagem do poder. Prosseguindo, incondicionalmente, os princípios da dignidade humana, da igualdade de oportunidades e da liberdade individual, quando leio estas teorias, que me sugerem a ofuscação de alguns direitos individuais, fico surpreendentemente acometida pelo mesmo espírito pré-histórico de sobrevivência das amebas - uma das primeiras formas de vida unicelulares eucariotas, sobreviventes incondicionais do verdadeiro processo de selecção natural, organismos primários que resistiram a holocaustos e intempéries até aos nossos dias, alimentando-se apenas de pequenos protozoários, algas microscópicas e protoplasma morto. Tudo deglutido numa fantástica fagocitose. As amebas sim, reconheço que foram dos primeiros seres que sobreviveram à selecção natural da origem das espécies.

26.11.09

Darwin - A Reconciliação da Fé e da Ciência

 
"Suspeito que há mais coisas no céu e na terra do que se sonha ou do que é possível sonhar em qualquer filosofia. É por isso que eu não tenho nenhuma filosofia, e deve ser essa a minha desculpa para sonhar." - Haldane 

No livro de Michael Ruse, que falei 2 posts atrás, somos conduzidos a uma conclusão unificadora entre a fé cristã e a teoria da evolução das espécies. Muito embora a comparação entre o darwinismo e o cristianismo possa ser difícil, uma vez que se levantam uma série de obstáculos, o facto é que o debate é fecundo e estimulante. O livro, aborda magistralmente as teorias do desígnio e as questões com ele relacionadas da dor e do sofrimento. A proposta é a de que o darwinismo, pretende dialogar com os cristãos de uma maneira positiva e firme, trazendo luz à existência dos fenómenos perturbadores que, aparentemente, poderiam testemunhar contra uma Divindade que tudo ama e tudo pode. Através da noção do pecado original, da alma humana, da sua natureza, das suas origens, Ruse adianta, "há sempre vários recursos à espera do cristão que queira caminhar na direcção da ciência e afastar-se duma leitura literal dos livros mais antigos dos Génesis. (...) Não possuímos poderes que nos permitam vislumbrar os derradeiros mistérios. (...) As nossas limitações não fazem com que o cristianismo seja obrigatório ou até plausível, mas requerem uma tolerância para com aqueles que estão dispostos a ir além da ciência, mesmo que nós mesmos não sejamos capazes de os seguir."
Qual seria a posição de Darwin relativamente a estas questões? Afinal, no que é que Darwin realmente acreditava? Em Deus? Na revelação cristã? Na importância da sua teoria, da evolução das espécies, como motor de justificação da fé cristã? Dei uma leitura rápida, em alguns sites que versavam sobre estas questões e constatei que era comum a todos a opinião de que Darwin tinha sido sempre extremamente reservado, senão omisso, relativamente a estes temas. Numa época profundamente arreigada à origem divina do homem, Darwin foi cauteloso e só já na fase final da sua vida proferiu, na sua auto-biografia, um modesto afloramento do tema. Referindo-se ao percurso da sua fé Darwin adianta que esta se encaminhou, ao longo da sua vida, do " Cristianismo Anglicano para o Agnosticismo, afastando-se claramente do Ateísmo".

11.11.09

Qual método?

Descartes
Retiro da estante, o Discurso do Método de Descartes e as Paixões da Alma. Método e paixão sempre me pareceram dois temas absolutamente antagónicos. Descartes foi precursor no seu tempo ao procurar entender os sentimentos das paixões de forma inédita. Na apresentação do seu livro, Descartes frisou que a sua concepção teve subjacente não o orador, nem o filósofo moral, mas somente "Descartes -o físico". E, efectivamente, ao lermos "As paixões da Alma" constatamos que Descartes estabeleceu uma estreita relação entre a anatomia e a filosofia, entre o corpo humano e o espírito, entre os diversos órgãos internos e a alma. Partindo da ligação entre a alma e o corpo Descartes refere que nada está mais directamente ligado ao corpo do que a alma. O que na alma é paixão no corpo é acção. A alma é pensamento, o corpo a sua extensão. Face a esta relação questiona: será possível, não consentir os efeitos de uma paixão, espontânea, involuntária? Descartes enfatiza que a vontade não tem o poder de excitar ou suprimir directamente as paixões. Contudo, isto não significa que não possamos controlá-las indirectamente, mediante certos artifícios. Para isso socorre-se da "força" da alma referida como referência da vontade. E diz:

"As pessoas de vontade fraca deixam-se simplesmente levar pelas paixões, tão amiúde contrárias umas às outras, do que resulta o mais deplorável estado da alma. No entanto, só a vontade forte não basta; é necessária a utilização das "armas" da vontade, que são juízes firmes e determinados sobre o conhecimento do bem e do mal".

Ou seja, a alma necessita então de distinguir o bem do mal. Esta questão remete-me desde já para o tema do cepticismo metodológico de Descartes: "nunca devemos aceitar como verdadeira uma coisa sem a conhecer evidentemente como tal". Assim, a alma precisa de saber distinguir de forma segura o bem do mal. Tem de possuir créditos morais sólidos, caso contrário poderá fazer incidir a sua vontade em alvos errados, combatendo paixões boas ou cultivando paixões más. Descartes conclui que o conhecimento moral é pois de capital importância para que a alma alcance o equilíbrio interior, para a indispensável iluminação do processo de controle das paixões.

Depois de ler esta tese constato que Descartes apela à razão, à força da alma, aos princípios morais e à força de vontade de cada um, como método de controle das paixões. Controle esse que será físico, relativamente às acções que podemos ou não praticar, mas que não incidirá nunca sobre o estado da alma, pois esse não depende nem da razão, nem da vontade, nem de qualquer acção ou omissão que se possa adoptar. Posto isto, parece-me que afinal as paixões só podem estar condenadas a ser uns infindáveis buracos negros da alma, vertiginosos sorvedores de energias, vértices ingeríveis de emoções. Tudo isto acompanhado de uns quantos socos no estômago e de uma enorme falta de ar. É caso para dizer que é a maior merda possível estar apaixonado. Infelizes daqueles que estão. Estar apaixonado só fará sentido numa convergência em uníssono. Todas as outras formas acabarão em enormes frustrações da alma.