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11.5.14

O silêncio. A estética. Os caminhos.

Wittgenstein
"Deitada de costas na tijoleira quente da Piazza del Campo, olho o azul altíssimo sem nuvens, conto os pássaros que cruzam o meu bocado de céu, sentindo a brisa reconfortante do mês de Julho. São quatro da tarde. O sol corre lento por detrás do Palazzio Publico e da Torre de Mangia projectando as suas sombras imponentes no chão do largo, aproveitadas por muitos para a pausa tradicional nas caminhadas pelas artérias da cidade que acabam sempre por convergir, para este ponto de encontro". CRV

Podia ser mais um relato de viagens por esse mundo fora, um recortar de um estado de espírito, um momento de tranquilidade, uma pausa na vida a escutar o silêncio. Quantas vezes é o silêncio de alguém interpretado como apatia, pobreza ou insuficiência de ideias, falta de recursos de formas estilísticas ou de escrita. Será falta de capacidade de expressão, obliteração do pensamento ou simples recusa de produção? Será mais um Bartleby, escrivão de Melville, que opta pelo "I would prefer not to"? 
O silêncio pode ser um meio estético, exigente, meio para atingir um fim, uma solução, uma clarividência, uma reconciliação entre pensamento e linguagem, um exercício exegético à qual o indivíduo se entrega e que corresponde a uma forma de atmosfera densa interior onde se degladiam os seus palcos de vida. 

Numa carta ao editor Ludwig von Ficker, sobre o seu livro "Tratactus", Wittgenstein afirmava: "O sentido do livro é ético. Quis, em tempos, incluir no prefácio uma frase, que de facto não está lá, a qual vou aqui escrever, para que possa ser só por si uma chave de trabalho. Assim, o que eu queria escrever era: o meu trabalho consiste em duas partes - a que está presente e a que não escrevi. E é precisamente esta segunda parte a mais importante. Traço os limites à esfera ética a partir do interior do meu livro e estou convencido ser essa a única forma rigorosa de traçar esses limites. Em suma, acredito, que onde hoje muitos sussurram consegui no meu livro através do silêncio colocar tudo no seu lugar(…)". 

O silêncio de Wittgenstein é relativo a uma acção fundamental, porque não é passiva ou indiferente, antes confere, àquele que se cala e àquilo que se silencia, o valor que resulta de uma correcta e prolífica actividade reflexiva. Igualmente não se trata de argumentar que a escrita nos trai ou que nos merece desconfiança pelas interpretações duvidosas que suscita. Trata-se antes de mais, de considerar que o melhor caminho é aquele que cala e que encontra, no quadro das opções que se apresentam, a melhor preposição estética. Será aí que, enfim, encontraremos a melhor forma de enquadrar a vida. A nossa derradeira opção ética.

23.12.12

Como falam, o Silêncio e a Solidão?


Wittgenstein
"Aquilo de que não se pode falar, é preciso calar. O que se mostra é o que seria inútil procurar dizer, é o ser. Para quê procurar dizer ou pensar o ser? O ser mostra-se sozinho, indica-se-nos no ruído, num silêncio ensurdecedor" 
Wittgenstein

O silêncio é um daqueles paradoxos cuja ambiguidade apetece dissecar de modo a analisar minuciosamente as lamelas que, após cuidada observação, revelam sinais indizíveis de uma linguagem feita de sinais. Apesar de, aparentemente, o silêncio nada dizer, o facto é que se anuncia. Faz-se esperar. Comunica a sua indisponibilidade através de um conjunto de anagramas, que abrangem o todo e o nada, onde a utilização de uma linguagem simbólica convola a mera ausência numa presença insinuada. E, não terá esta metáfora da não comunicação uma presença viva, um sentido claro, uma leitura deliberada? O tema sugere-me aquelas dissertações filosóficas que não levam a nada, caiem num vazio, mas que, por outro lado, prendem pelo mistério que se esconde por detrás de uma espécie de culto que explora outras formas de comunicação. Como Walter Benjamin refere, "toda e qualquer comunicação de conteúdos é linguagem, sendo a comunicação através da palavra apenas um caso particular". Sob o ponto de vista social, o silêncio pode ser encarado como a consumação de uma rejeição, como uma indisponibilidade afectiva, como um desinteresse na partilha, como um refúgio na própria solidão. Mas a solidão que lhe está inerente, pode ser ambivalente uma vez que tanto pode constituir espectro de um estigma como pode resultar de uma opção deliberada com vista à própria elevação. Essa, é decididamente a faceta que mais me interessa, na medida em que constituirá, à imagem de Zaratustra, de Jonas e de tantos outros, uma busca do caminho da própria redenção.
Platão
Tolentino Mendonça questiona se "a solidão não será também uma porta onde se revela, no maior isolamento, uma visão inesperada?".
Não será essa a sonoridade acústica, apenas perceptível aos ecos indizíveis da alma? E com a reflexão surge o espaço que se ganha que tanto poderá potenciar a queda, como criar raízes e evidenciar um caminho onde o passo deixará marca e a marca será revelação. Este silêncio, e esta solidão, terão então uma faculdade pedagógica, predominantemente positiva, à imagem de alguns desafios bíblicos onde a percepção do místico se obtém através do tranquilo escutar do murmúrio das brisas do mar e não através do ribombar do trovão.
Comodamente, podemos sempre encarar a alma como Platão. Fraccionada, em conformidade com a diversidade das operações da vida que a integram. A cada uma dessas faculdades corresponderá um comportamento e a conquista de um ritmo humano que perante as necessidades tende a construir, por opção, um caminho de verdade, sereno, de reconhecimento, silêncio e justa reflexão.