Enquanto o meu olhar se perdia na paisagem e pensava no índice elevadíssimo de devastação da floresta virgem - agora ocupada com palmeirais a perder de vista -, a minha atenção foi atraída, à passagem por Kundasang, pelo monumento de guerra em homenagem aos milhares de soldados que pereceram, nas denominadas “Marchas da Morte”, aquando da invasão do Norte do Borneo, pelos soldados japoneses, nos anos que coincidiram com o inicio da II Guerra Mundial no Pacífico. Pedi para pararem o carro. Debaixo de uma árvore, tranquilamente frondosa, jazem duas lápides com inscrições em malaio e em inglês que referem um dos maiores crimes de guerra levado a cabo contra os aliados. A nossa guia deteve-se. Com um ar grave, explicou-nos que o tema, das atrocidades japonesas na ilha, ainda hoje é considerado tabu pelos locais. Mortes, violações da quase totalidade das mulheres malaias, espancamentos e execuções sumárias, foram o terror que os habitantes do Borneo experimentaram nos 3 anos que os japoneses comandaram os destinos que visavam a exterminação de todos os locais da ilha. As “Marchas da Morte” foram uma série de marchas forçadas, percorridas durante centenas de kilómetros, em condições inumanas, no meio de corredores conquistados no interior da selva tropical, densa e húmida, entre as cidades de Sandakan, no extremo este da ilha, e Ranau, uma pequena cidade localizada a meio caminho da costa oeste. Milhares de prisioneiros (3.600 civis indonésios e 2.400 aliados) pereceram às mãos dos japoneses, na construção de campos de concentração e pistas de aviação, sem comida, medicamentos ou qualquer apoio ou condescendência para com os debilitados. Dos poucos que restaram, 470 foram enviados para as “marchas da morte”, pelo interior da selva, de modo a pulverizar quaisquer agrupamentos ou processos de resistência que se pudessem configurar . Famintos, muitos com malária, desinteria e outras doenças provenientes dos climas tropicais, entre Janeiro e Maio de 1945 todos os prisioneiros foram ficando pelo caminho. Quando a ilha foi libertada pelas forças australianas, restavam apenas 5 soldados australianos e 1 britânico. Dos 6 sobreviventes apenas 3 conseguiram resistir a tempo de deporem em Tokyo e Rbaul, sobre os crimes de guerra praticados. Das leituras que efectuei, apraz-me saber que 3 resistentes, foram suficientes, para condenar os líderes e os autores materiais dos crimes praticados no Borneo, contra a humanidade. Top Fotog. CRV (2 FotogrsUNK - Death Marches - 1945)21.2.11
Borneo - Death Marches
Enquanto o meu olhar se perdia na paisagem e pensava no índice elevadíssimo de devastação da floresta virgem - agora ocupada com palmeirais a perder de vista -, a minha atenção foi atraída, à passagem por Kundasang, pelo monumento de guerra em homenagem aos milhares de soldados que pereceram, nas denominadas “Marchas da Morte”, aquando da invasão do Norte do Borneo, pelos soldados japoneses, nos anos que coincidiram com o inicio da II Guerra Mundial no Pacífico. Pedi para pararem o carro. Debaixo de uma árvore, tranquilamente frondosa, jazem duas lápides com inscrições em malaio e em inglês que referem um dos maiores crimes de guerra levado a cabo contra os aliados. A nossa guia deteve-se. Com um ar grave, explicou-nos que o tema, das atrocidades japonesas na ilha, ainda hoje é considerado tabu pelos locais. Mortes, violações da quase totalidade das mulheres malaias, espancamentos e execuções sumárias, foram o terror que os habitantes do Borneo experimentaram nos 3 anos que os japoneses comandaram os destinos que visavam a exterminação de todos os locais da ilha. As “Marchas da Morte” foram uma série de marchas forçadas, percorridas durante centenas de kilómetros, em condições inumanas, no meio de corredores conquistados no interior da selva tropical, densa e húmida, entre as cidades de Sandakan, no extremo este da ilha, e Ranau, uma pequena cidade localizada a meio caminho da costa oeste. Milhares de prisioneiros (3.600 civis indonésios e 2.400 aliados) pereceram às mãos dos japoneses, na construção de campos de concentração e pistas de aviação, sem comida, medicamentos ou qualquer apoio ou condescendência para com os debilitados. Dos poucos que restaram, 470 foram enviados para as “marchas da morte”, pelo interior da selva, de modo a pulverizar quaisquer agrupamentos ou processos de resistência que se pudessem configurar . Famintos, muitos com malária, desinteria e outras doenças provenientes dos climas tropicais, entre Janeiro e Maio de 1945 todos os prisioneiros foram ficando pelo caminho. Quando a ilha foi libertada pelas forças australianas, restavam apenas 5 soldados australianos e 1 britânico. Dos 6 sobreviventes apenas 3 conseguiram resistir a tempo de deporem em Tokyo e Rbaul, sobre os crimes de guerra praticados. Das leituras que efectuei, apraz-me saber que 3 resistentes, foram suficientes, para condenar os líderes e os autores materiais dos crimes praticados no Borneo, contra a humanidade. Top Fotog. CRV (2 FotogrsUNK - Death Marches - 1945)16.11.09
Holocaust - How it Was
"Renuncio a fazer perguntas, (...) Mas não descanso; sinto-me ameaçado, traído, a cada instante pronto para me contrair num espasmo de defesa. (...) Em redor, tudo nos é hostil. (...) Na marcha de saída e de regresso nunca faltam os SS. Quem poderia negar-lhes o direito de assistir a esta coreografia que eles próprios quiseram? (...) A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado. Trata-se de uma preciosa capacidade de adaptação, em parte passiva e inconsciente, em parte activa (...) estipular pactos tácticos de não agressão com os vizinhos; intuir e aceitar hábitos e as leis (...) Então nasce dentro de mim uma pena desoladora (...) é uma dor no seu estado puro, não temperada pelo sentido da realidade, pela intrusão de circunstâncias estranhas (...) Como entender tanta cegueira e tanta desumanidade? E como interpretar os resultados da discricionariedade pura? (...) apesar do reduzido número de sobreviventes, foram registados muitos testemunhos (...) Primo Levi in "Se Isto é Um Homem"
Primo Levi é um dos poucas sobreviventes dos 3 milhões de judeus assassinados em Auswitch. Contra todas as expectativas preconizadas pela "Solução Final", Primo Levi sobreviveu para testemunhar as atrocidades do maior campo de extermínio que alguma vez existiu na História da Humanidade. O seu relato objectivo reflecte a sua luta diária pela sobrevivência, num meio hostil, onde princípios, valores e o próprio homem, nada contam. Primo Levi relata com uma clarividência admirável o processo premeditado, sistemático, incisivo, persistente e continuado que se arrastou, durante quase dois anos da sua vida, no campo de trabalhos anexo a Auswitch. Em todos os livros que tenho lido sobre o tema, em nenhum consegui encontrar respostas para as questões que qualquer ser humano, dotado do bom senso do "bonus pater familias" colocaria. Retiro, de todas estes contributos históricos, apenas os objectivos nazis: a atomização da sociedade judaica, a supressão de todas as liberdades passíveis de um ser humano usufruir, a constituição de guetos físicos e espirituais, a destruição aleatória de testemunhas, a atrocidade cruel de silenciar pessoas. Em nenhum livro encontrei resposta para o problema que abalou o início dos anos 30. A erradicação dos judeus da vida pública alemã, as perseguições, a segregação. O culminar dos acontecimentos na famosa Noite de Cristal, em 39, quando mais de 500 mil judeus foram obrigados a fugir do país. A que é que se deveu toda esta segregação? Porquê os judeus e não os romenos, ou os russos, ou os italianos? Seria porque detinham a maior parte do capital? Por razões religiosas? Pura ostracização? Ódio?
Quanto às imagens da "Lista de Schindler", não são imagens reais. Da época. É apenas uma ficção. Ficção essa que, alguns meses após a sua estreia, levou Spielberg a confessar que tinha sido o filme que realizou que mais profundamente tinha afectado a sua vida. Contudo, trata-se só de uma ficção.
2.11.09
República Checa - Thierenstadt
Milhares de nomes. Nuvens de nomes. 77 297 nomes. Judeus da Boémia e da Morávia que morreram em Auschwitz. Nomes que se perdiam uns nos outros, todos em fila. Onde o último apelido se confundia, logo de seguida, com o primeiro nome do outro. A persuasão de que a vida tem sempre uma finalidade, pareceu-me, ali, uma máxima absolutamente frustrada. Não consegui ajustar-me às palavras de Primo Levi quando refere que nenhuma experiência humana é privada de sentido e indigna de ser analisada. O que é que podia ser analisado ali se todos foram encaminhados de Thierenstadt para o crematório de Auschwitz?
apenas 20 mil sobreviveram. Foi aqui que uma delegação da Cruz Vermelha foi iludida com uma intensa actividade cultural. Pequenas orquestras de câmara ao vivo, pinturas, exposições. Efectivamente, desenrolaram-se intensas actividade lúdicas em Thierenstadt. Entre as levas de comboios. Que saíam, periodicamente, em direcção a Auschwitz. 