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5.11.18

Pieter Bruegel no Kunsthistorisches Museum em Viena (1)


Antonio Canova - Teseu vence o Minotauro (1781-3)
Subi as escadas a correr. Passei pela escultura perfeita de Canova. Fotografei a cara de Teseu, os olhos, os cabelos ondulados, a expressão vitoriosa, os músculos do braço que empunha a espada mágica, as mãos do Minotauro agarradas ao chão, a traseira de cavalo, os cascos, os tendões de pedra e as linhas dos músculos que se contorciam esmagados. Era o fim do labirinto de Creta.
Mais acima, o outro lanço de escadas levava à exposição de Bruegel.

Promovida pelo Kunsthistorisches Museum de Viena, a mostra de 87 trabalhos do pintor, divididos entre desenhos e pinturas, corresponde a 1/3 das obras que sobreviveram até aos nossos dias. Nas comemorações dos 450 anos do desaparecimento de Pieter Bruegel (1525/30-1569), a oportunidade era única. Reuniram-se pinturas e gravuras espalhadas por museus e colecções particulares, que poucas vezes foram apresentadas ao público, com destaque particular para os dois quadros representativos da Torre de Babel, pela primeira vez expostos lado a lado, e para uma série de quadros e gravuras de influência boscheniana (Bosch 1450-1516) que constituem uma das fases de maior destaque na obra do pintor. 

A exposição, organizada pelo percurso cronológico de Bruegel, evidencia as características paisagísticas dos primeiros tempos, a miniaturização transversal aos pintores flamengos da época, os temas sacros inseridos em contextos satíricos e alegóricos, a critica social, marcada pela imagem proverbial identificadora dos pecados e das virtudes do homem, enquanto ser individual e mortal.
É impossível dissociar a obra de Pieter Bruegel do contexto social, politico e religioso da época em que viveu. A censura da Igreja católica, a Inquisição e os autos de Fé, a destruição pública de livros e objectos de arte que atentavam à moral, a Reforma Luterana, o Concílio de Trento, o domínio espanhol dos Habsburgo, a subversão dos valores sociais, a desproporção dos privilégios eclesiásticos, o desprezo dos princípios da fé em prol dos interesses instalados e, sem dúvida, a imprensa, em expansão numa Europa tipográfica, que funcionava como um elemento difusor de um humanismo necessário, de um reformismo fraccionário, de uma sátira social difundida através de gravuras, cujo impacto se fazia sentir na mensagem repercutida junto de uma população maioritariamente iletrada. 
Para além das perturbações sociais esta época foi ainda marcada pela pequena “Idade do Gelo”. 
Caracterizada por um arrefecimento generalizado das temperaturas, com invernos rigorosos e diminuição drástica da produção agrícola as condições climatéricas geraram a escassez de alimentos, a pobreza e a mendicidade, a deslocação rural para os meios urbanos, a revolta contra os bens eclesiásticos, com assalto e destruição de mosteiros e igrejas onde o conforto do clero contrastava com as precárias condições da população carenciada. Paralelamente, vivia-se uma revolução naval e comercial com expansão dos territórios holandeses e a elevação de Antuérpia a capital económica do norte. (continua)
Pieter Bruegel - Hunters in the Snow - 1565

1.1.12

Leonardo Da Vinci - The lost Christ "Salvator Mundi"

Leonardo Da Vinci - Cristo Salvator Mundi (1506-13)
Picture: Robert Simon/Tim Nighswander

O número de quadros de Leonardo Da Vinci (1452-1519) que chegaram aos nossos dias iguala, segundo registos históricos, os que se acredita que estejam irremediavelmente perdidos. Seja por motivos que vão do pudor religioso, como é o caso do nú “Mona Vana” (que nos chegou através de cópia de Salai), ou às questões envolvidas em mistério, como é o caso do fresco da “Batalha de Anghiari”, no Paláco Vecchio dos Medici, em Florença, a verdade é que o conhecimento que temos hoje, de algumas dessas obras, resulta de cópias efectuadas pelos seus contemporâneos, da troca de correspondência, de registos e dos esboços do próprio Leonardo que chegaram até aos nossos dias.
Quando em 2005, um casal de negociantes de arte adquiriu um quadro religioso, por umas centenas de dólares, estava longe de adivinhar que, por baixo de umas pinceladas grosseiras se escondia o verdadeiro Cristo de Leonardo, “Salvator Mundi”. O mérito é atribuído a Robert Simon que soube identificar os sinais que o conduziram há mais importante descoberta do mundo da pintura dos últimos anos.
A história do quadro tem origem numa encomenda de Luis XII, efectuada a Leonardo, em 1506. Mas, das vicissitudes posteriores da obra nada se sabia, julgando-se a mesma perdida. A única referência, que tinha chegado aos nossos dias era uma cópia (imagem ao lado), efectuada, em 1650, por Wenceslaus Hollar (1607-77), a partir do original  de Da Vinci. A reprodução, retratava um Cristo jovem, de cabelos compridos,  ondulados, olhar calmo, introspectivo, vestes drapeadas, com a mão direita erguida, com dois dedos unidos, atribuíndo a benção conhecida como “mano pantea”. Na mão esquerda, segurava um globo de cristal, através do qual se podiam ver os drapeados do manto e a palma da sua mão.
Após 5 anos de trabalho intensivo o quadro, aparentemente sem grande valor histórico, revelou-se. Por baixo da figura adulterada de Cristo emergiu um outro quadro, em tudo coincidente com a cópia que Hollar teria feito. Quanto às técnicas e ao estilo utilizados os peritos são unânimes que as mesmas  são típicas de Leonardo, tendo ainda como referencia os estudos de drapeados que Leonardo executou para esta obra e que fazem parte da colecção da Coroa Britânica, localizada no Castelo de Windsor.
A obra, adquirida por umas centenas de dólares, ascende a valores que rondam os 120 milhões de libras. Exposta na National Gallery de Londres, integrada na exposição  "Leonardo - a Painter at the Court of Milan", “Salvator Mundi” poderá ser apreciada em directo e ao vivo até ao dia 5 de Fevereiro de 2012.

27.3.10

Londres - Van Gogh na "Royal Academy of Arts"

Il y a l’art dês lignes et couleurs mais l’art dês paroles
y est et y resterra par nous - Vincent Van Gogh
Still Life with a plate of Onions - Vincent Van Gogh -1889
Por vezes é só uma questão de paciência, e de espera tranquila, até que uma tremenda exposição surja. São essas as grandes motivações que nos fazem regressar a um local que tanto gostamos. Londres. E, julgo que não poderia ter havido melhor argumento do que a exposição, intitulada “The Real Van Gogh: The Artist and His Letters” a decorrer, de 23 de Janeiro a 18 de Abril de 2010, na Royal Academy of Arts. E, se há associações, como a do post anterior, que nos fazem sorrir - pois as encaramos também como manifestações de arte -, outras haverá que nos fazem entrar num avião para melhor compreender a mente do génio que se encontra por detrás dos quadros que nos fascinam. Dizem que “uma imagem vale por mil palavras” mas, no caso de Vincent Van Gogh, essa concepção redesenhasse e cria uma nova dimensão. Nesta exposição, a maior sobre Van Gogh, levada a cabo em Inglaterra, nos últimos 40 anos, podemos confrontar, em simultâneo, as cartas com os esboços que antecederam os quadros famosos, de uma das maiores figuras do movimento pós-impressionista. De uma forma plástica, as cartas de Van Gogh traçam-nos o perfil de um artista cujas ambições expressam um carácter filantrópico: ser entendido pelos que o rodeavam, dar um significado à sua vida, promover actuações úteis na sociedade ou, ainda, contribuir para minimizar as tristezas do mundo, encontram-se entre alguns dos desejos que Vincent manifesta na sua correspondência com o seu irmão mais novo Theo. Seria precisamente Theo, comerciante de arte, o grande impulsionador da carreira de Van Gogh, que se iniciaria, já tarde, aos 27 anos. Nos 10 curtos anos da sua vida artística estabeleceu-se entre ambos uma cumplicidade inegável plasmada nas mais de 900 cartas que constam do espólio, em exposição no Museu Van Gogh, em Amsterdão, que, por coincidência, visitei em Dezembro passado. A exposição de Londres teve a particularidade de atrair algumas das cartas e quadros do Museu de Amsterdão, mas captou igualmente espólio espalhado pelos quatro cantos do mundo: do “Museum of Fine Arts” de Boston ao de Rhode Island, do “Museu Rodin” de Paris à "National Gallery" de Londres. As cartas de Van Gogh constituem uma porta aberta para o universo do artista, para uma retaguarda onde normalmente não nos é permitido entrar, fazendo a ponte entre o homem e a sua história trágica, entre os seus quadros e a sua solidão. Como refere Vincent, numa das suas cartas a Theo, “passam-se muitos dias sem dizer uma palavra a ninguém, excepto quando encomendo o jantar ou um café”. As suas confissões a Theo revelam parte da sua existência. Uma existência socialmente isolada, com relacionamentos emocionais frustrados, com dificuldade na gestão das suas amizades (os problemas com Gaugain levam-no a mutilar um pedaço da sua orelha direita), um temperamento irrascível e manifestas dificuldades financeiras às quais Theo respondia sempre prontamente. Pela complexidade do mito, pela destreza da arte, pela pintura que hipnotiza, pelas cartas que cativam. Por tantas razões e mais algumas, valeu a pena ír a Londres conhecer o “Real Van Gogh”. Caso passe por esta magnífica cidade, até 18 de Abril, aqui fica a minha sugestão. A não perder.
Para quem tiver curiosidade em ler a correspondência de Van Gogh, deixo aqui um site onde é possível explorar as cartas que Vincent endereçou aos seus correspondentes, com particular destaque para o seu irmão Theo. As opções de visualização são multiplas. Pessoalmente, a opção "cronológica" -associada aos quadros- e por "tema", tem obtido a minha simpatia aqui. No próximo post falarei do quadro que mais me impressionou na exposição.
The Tarascon Diligence - Vicent Van Gogh - 1888

29.11.09

Exposição sobre Darwin em Oeiras

Para quem não teve oportunidade de ver a exposição “A evolução de Darwin”, dedicada à vida e obra do cientista, que decorreu até Maio de 2009, na Fundação Calouste Gulbenkien, em Lisboa, poderá, a partir do próximo ano, encontrá-la na Fábrica da Pólvora, em Oeiras. A exposição, na Gulbenkien, aberta ao público no ano das comemorações do bicentenário do cientista, foi inaugurada a 12 de Fevereiro de 2009, data do nascimento de Charles Darwin (1809-1882) e, até Maio, recebeu 161 mil visitantes. Realizado um acordo entre a Câmara de Oeiras e a Fundação Gulbenkien, prevê-se que a exposição sobre Darwin venha, posteriormente, a integrar o Museu da Ciência de Oeiras, projectado para o Edifício 51 da Fábrica da Pólvora de Barcarena, presentemente, em fase de aprovação.