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27.3.10

Londres - Van Gogh na "Royal Academy of Arts"

Il y a l’art dês lignes et couleurs mais l’art dês paroles
y est et y resterra par nous - Vincent Van Gogh
Still Life with a plate of Onions - Vincent Van Gogh -1889
Por vezes é só uma questão de paciência, e de espera tranquila, até que uma tremenda exposição surja. São essas as grandes motivações que nos fazem regressar a um local que tanto gostamos. Londres. E, julgo que não poderia ter havido melhor argumento do que a exposição, intitulada “The Real Van Gogh: The Artist and His Letters” a decorrer, de 23 de Janeiro a 18 de Abril de 2010, na Royal Academy of Arts. E, se há associações, como a do post anterior, que nos fazem sorrir - pois as encaramos também como manifestações de arte -, outras haverá que nos fazem entrar num avião para melhor compreender a mente do génio que se encontra por detrás dos quadros que nos fascinam. Dizem que “uma imagem vale por mil palavras” mas, no caso de Vincent Van Gogh, essa concepção redesenhasse e cria uma nova dimensão. Nesta exposição, a maior sobre Van Gogh, levada a cabo em Inglaterra, nos últimos 40 anos, podemos confrontar, em simultâneo, as cartas com os esboços que antecederam os quadros famosos, de uma das maiores figuras do movimento pós-impressionista. De uma forma plástica, as cartas de Van Gogh traçam-nos o perfil de um artista cujas ambições expressam um carácter filantrópico: ser entendido pelos que o rodeavam, dar um significado à sua vida, promover actuações úteis na sociedade ou, ainda, contribuir para minimizar as tristezas do mundo, encontram-se entre alguns dos desejos que Vincent manifesta na sua correspondência com o seu irmão mais novo Theo. Seria precisamente Theo, comerciante de arte, o grande impulsionador da carreira de Van Gogh, que se iniciaria, já tarde, aos 27 anos. Nos 10 curtos anos da sua vida artística estabeleceu-se entre ambos uma cumplicidade inegável plasmada nas mais de 900 cartas que constam do espólio, em exposição no Museu Van Gogh, em Amsterdão, que, por coincidência, visitei em Dezembro passado. A exposição de Londres teve a particularidade de atrair algumas das cartas e quadros do Museu de Amsterdão, mas captou igualmente espólio espalhado pelos quatro cantos do mundo: do “Museum of Fine Arts” de Boston ao de Rhode Island, do “Museu Rodin” de Paris à "National Gallery" de Londres. As cartas de Van Gogh constituem uma porta aberta para o universo do artista, para uma retaguarda onde normalmente não nos é permitido entrar, fazendo a ponte entre o homem e a sua história trágica, entre os seus quadros e a sua solidão. Como refere Vincent, numa das suas cartas a Theo, “passam-se muitos dias sem dizer uma palavra a ninguém, excepto quando encomendo o jantar ou um café”. As suas confissões a Theo revelam parte da sua existência. Uma existência socialmente isolada, com relacionamentos emocionais frustrados, com dificuldade na gestão das suas amizades (os problemas com Gaugain levam-no a mutilar um pedaço da sua orelha direita), um temperamento irrascível e manifestas dificuldades financeiras às quais Theo respondia sempre prontamente. Pela complexidade do mito, pela destreza da arte, pela pintura que hipnotiza, pelas cartas que cativam. Por tantas razões e mais algumas, valeu a pena ír a Londres conhecer o “Real Van Gogh”. Caso passe por esta magnífica cidade, até 18 de Abril, aqui fica a minha sugestão. A não perder.
Para quem tiver curiosidade em ler a correspondência de Van Gogh, deixo aqui um site onde é possível explorar as cartas que Vincent endereçou aos seus correspondentes, com particular destaque para o seu irmão Theo. As opções de visualização são multiplas. Pessoalmente, a opção "cronológica" -associada aos quadros- e por "tema", tem obtido a minha simpatia aqui. No próximo post falarei do quadro que mais me impressionou na exposição.
The Tarascon Diligence - Vicent Van Gogh - 1888