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12.6.17

"Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds"

Reza a história que no ano de 1661, John Mompesson, um abastado proprietário inglês, que merecia a deferência e o respeito da comunidade de Tedworth, entrou certo dia em conflito com William Drury, um indigente que deambulava pelas ruas da cidade a tocar tambor sobrevivendo da esmola alheia e da solidariedade do povo. Mompesson sentia-se incomodado com o barulho. O batuque permanente à sua porta trazia-lhe moléstia e irritação. Lord Mompesson tomou assim William de ponta, acumulando ódios mesquinhos e olhares de reprovação. Decidido a acabar de uma vez por todas com o batucar à sua porta, resolve instaurar um processo judicial no tribunal da cidade, com juízes, quorum, testemunhas e tudo aquilo a que um Lord influente tem direito, nas situações delicadas em que a persuasão das massas se sobrepõe às faculdades cognitivas da razão. Após largas dissertações que incidiram sobre os malefícios provenientes dos ruídos dos tambores, o colectivo de juízes deu razão a Mompesson e, vitorioso na sua causa de pedir, a sentença foi implacável . “Retire-se o tambor a William Drury e faça-se Lord Mompesson seu fiel depositário”.
De William nunca mais se voltou a ouvir qualquer batuque, nem nas ruas, nem no quilombo distante, mas os problemas de Lord Mompesson, ao invés de acabarem, estavam agora prestes a começar.

Na sua mansão de colunas jónicas, com dois pisos e balaústradas nas varandas, o tão desejado sossego iria transformar-se num desassossego infernal. E isto porque Lord Mompesson, desde que veio para casa com o tambor, passou a ser interrompido no seu sono com ruídos que de início não conseguiu identificar de onde vinham mas que, pouco a pouco, percebeu tratar-se do som de um tambor que ressoava pela casa toda. E, procurando como um louco de onde poderia vir esse ruído, ritmado e infinitamente incomodativo, Mompesson correu a ver se o tambor de William Drury se encontrava no local em que o havia guardado. Para seu espanto, lá continuava, impávido e sereno, concluindo que o instrumento impertinente membranófono, que perturbava a sua estabilidade física e emocional, não era definitivamente o tambor de William pelo que se impunha descobrir do que se tratava.
Repetindo-se todas as noites o mesmo enigma, Lord Mompesson acreditou que a sua casa estaria assombrada e que seria vitima de alguma praga de bruxaria lançada certamente por William e alguns dos ciganos que o acompanhavam. 
The devil and the drum Saducismus Triumphatus (1700).
Chamou por isso os sábios da época para constatarem pessoalmente o mistério. 
Joseph Glanvill foi um famoso clérigo inglês que se destacou nas áreas da ciência e da filosofia. Defensor da existência de fenómenos sobrenaturais, sustentou no seu livro “Sadducismus Triumphatus” a tese da existência de bruxas e feiticeiros, com poderes sobrenaturais malignos, entendendo que na sua génese estaria uma seita, que remontava ao tempo de Cristo, e que negava a imortalidade da alma.
Glanvill foi um dos sábios que procurou uma justificação para a origem dos ruídos na casa de Mompesson, tendo tomado nota que “ao visitar o quarto das crianças observei um arranhar debaixo da cama inexplicável”.
Joseph Glanvill

O caso ficou conhecido como “O Tambor de Tedworth” e vivia-se à época uma verdadeira caça às bruxas por virtude do espírito persecutório da Inquisição que pela Europa fora realizava, indiscriminadamente, autos-de-fé, perseguições e torturas generalizadas a todos aqueles que manifestassem cepticismo ou práticas contrárias à fé cristã.
Nunca foi dada uma explicação inequívoca, subsistindo, para os crentes nos fenómenos sobrenaturais, a intromissão de um espírito maligno e, para os cépticos, a conjura de William e dos seus amigos que, noite após noite, vinham até à casa de Mompesson para o castigar, atormentando os seus dias e a sua paz.
Um desses cépticos foi Charles Mackay que, 100 anos mais tarde, viria a escrever o livro “Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds” sobre as falsas impressões e o efeito que um fenómeno fraudulento poderá ter sobre as massas. Referindo-se ao fenómeno de Tedworh conclui que teria sido manifestamente fraudulento e que Mompesson convencido de fenómenos sobrenaturais teria sido facilmente enganado.

Lembrei-me desta história, porque os fantasmas das crendices no sobrenatural continuam a aterrorizar e a vitimizar cidadãos frágeis e desprotegidos que por inércia dos seus governantes são agredidos, mutilados e assassinados pela cor da sua pele, pelo credo que professam ou pelo género ao qual sentem que pertencem. Na Tanzânia, várias crianças albinas são anualmente selvaticamente mutiladas porque se crê que os seus membros têm poderes sobrenaturais quando utilizados em rituais de bruxaria. No século 21 não seria tempo de actuar na defesa e protecção dos mais frágeis?

9.11.15

Massada

Fortaleza de Massada  (fot: Unesco)
O cerco durava há 7 anos. A 400 metros acima da aridez do deserto da Galileia, protegidos por escarpas íngremes, caminhos inacessíveis e uma fortaleza construída por Herodes, 1000 zelotas judeus, refugiados do assalto a Jerusalém, encontravam-se na latitude da intolerância do exército romano. Determinados em conquistar o penedo e a acabar com a insurreição contestatária, a planície passou a aquartelar 8 acampamentos romanos dispostos em circulo no sopé da montanha. Muito embora sem qualquer importância estratégica, Massada passou a constituir uma perturbação no orgulho vitorioso romano, habituado a arrasar todas as demonstração obtusas contrárias à sua hegemonia militar e a esmagar todas as personalidades fenoménicas que extravasassem o formato domesticado dos seres inertes subjugados.

No planalto, os zelotas encontraram a sua solidão hostil dentro da antiga fortaleza de Herodes, recusando a convolação da sua existência à escravidão. Viveram dos mantimentos que encontraram no palácio, de um sistema de aproveitamento das águas das chuvas que as conduzia habilmente para uma dúzia de cisternas, reunindo na escassez o suficiente para sobreviver o ano inteiro. 

Durante os 7 anos do cerco a questão da rendição foi preterida dando lugar à dignidade da morte colectiva, no momento do assalto romano. Segundo Joseph (37-100 dC), o relator judeu das guerras judaico-romanas, do grupo de quase 1000 zelotas sitiados no planalto de Massada, apenas 7 sobreviveram. Duas mulheres e 5 crianças, refugiaram-se numa cisterna de água, enquanto a morte de homens, mulheres e crianças, atravessava a fortaleza pelas mãos de 10 líderes rebeldes, dando assim ao homicídio colectivo o ar de suicídio confuso e urgente. 

Lembrei-me deste episódio da Guerra judaico-romana quando li uma notícia sobre as escavações arqueológicas levadas a cabo em Massada por Yadin, no ano de 1963, e que puseram a descoberto sementes de tâmara, com 2.000 anos, acondicionadas em recipientes de barro da época. 

Methuselah
Analisadas as sementes, constatou-se que seriam de uma espécie de tamareira já extinta e que, segundo as escrituras desse tempo, preenchiam todo o vale da Galileia, desde as margens do rio Jordão até ao sul, às planícies do Mar Negro. 

Durante 4 décadas, as sementes de Massada ficaram guardadas numa gaveta da Universidade de Tel-Aviv até que a investigadora botânica Elaine Solowey, decidiu, sem grandes espectativas, plantar uma dessas sementes em 2005. Oito semanas depois, a semente guardada com 2.000 anos tinha germinado, dando origem a um tamareira a que apelidaram de "Methusalah", em homenagem à pessoa que mais anos viveu segundo a Biblia. Em 2011, e com 3 metros de altura, a jovem tamareira, que aguardou pacientemente por um relance de vida, esbateu-se profusivamente nas suas primeiras flores. Aguarda-se com silêncio inflamado as primeiras tâmaras.

27.10.12

Cantino - O espião dos Descobrimentos

Planisfério de Cantino - 1502
Chamam-lhe a segunda profissão mais antiga do mundo. Cantino, espião italiano que se deslocou a Lisboa, pelo ano de 1502, foi incumbido, a soldo do Duque italiano de Ferrara, de subornar um cartógrafo português para que lhe efectuasse uma reprodução do grande planisfério das cartas reais de navegação, tesouro guardado a sete chaves, na Casa da Guiné e da Mina. As cartas de navegação constituíam segredo de Estado, sendo a sua divulgação a estrangeiros punida com pena de morte. "State of the art" da cartografia do mundo novo, na sequência das descobertas de África, Índia e Brasil, cada nova expedição envolvia um conjunto de figurantes que desempenhava um papel predominante na cartografia nacional. Pilotos, comerciantes, militares e religiosos ao serviço do reino, tinham por missão indagar, junto dos mercadores e viajantes locais, sobre a topologia dos lugares, ao longo da costa e terra dentro, de modo a anexa-los ao universo dos territórios descobertos. Dessa informação dependiam as novas inscrições no grande planisfério, que ia tomando os contornos do mundo, no local que concentrava todos os esforços dos Descobrimentos e da marinha portuguesa, junto ao Paço da Ribeira, no que é hoje o torreão poente do Terreiro do Paço. Cantino, conseguiu infiltrar-se e, a troco de 12 ducados de ouro, obteve uma reprodução das praças fortes, dos portos, das expedições e, principalmente, das rotas comerciais marítimas portuguesas para a Índia, que haviam despojado os mercadores italianos do comércio terrestre com o Oriente. Anunciado o êxito da missão a Hércules I d'Este, duque de Ferrara e Modena, Cantino regressou a Itália com o novo planisfério e com a descoberta do novo continente das Américas, dois anos antes, por Pedro Álvares Cabral representado por árvores verdes e douradas, arbustos azuis e por papagaios de cor predominantemente encarnada. A espionagem produz sempre lesões irreversíveis, tendo o acto de Cantino contribuído para a perca da guerra comercial, diplomática e científica de D. Manuel I, quando Portugal ainda julgava que a supremacia dos mares e o comércio estratégico das especiarias se iria manter por período muito superior aquele que, efectivamente, nos proporcionou uma curta hegemonia no panorama mundial. 

Caído no esquecimento, o planisfério de Cantino permaneceu por três séculos em parte incerta até que, em 1859, o director da Biblioteca de Modena, o italiano Giuseppe Boni, entrou numa salsicharia. Ao examinar o estabelecimento, os seus olhos pousaram num antigo pergaminho desenhado que servia de cortina. Negociou a sua aquisição e após um exame minucioso, o planisfério revelou tratar-se de uma das mais antigas cartas conhecidas, onde figurava a costa do Brasil e a linha do Tratado de Tordesilhas.  Conhecido como o planisfério de Cantino, em 2009, regressou ao local do crime, tendo estado em exposição em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga.

16.9.12

Os Segredos da Capela Sistina (7)

Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Profeta Jeremias
Numa evocação metafórica aos "olhos de Deus que perscrutavam toda a terra", Michelangelo elegeu sete profetas e colocou-os estrategicamente à volta do tecto da Sistina. Sete profetas que observam o que se passa na Capela e no Mundo remetem-nos, inevitavelmente, para os Sete Dias da Criação, mas também, para algumas das principais teorias esotéricas do universo judaico. Sete são os degraus espirituais da Middot que nos aproximam de Deus. Sete é o número de velas do candelabro sagrado da Menorah. Sete foram as Nuvens de Glória que protegeram os Filhos de Israel despojados de pátria, de solo e de sossego, enquanto erraram pelo deserto. Sete são também as características das sete esferas inferiores da Árvore da Vida. Com correspondências cabalísticas directas os sete profetas ajustam-se, na perfeição, à mensagem de redenção espiritual, não só para os judeus, mas também para o resto da humanidade.

Michelangelo demonstrou inúmeras vezes que a encomenda da Sistina constituiu um calvário e um desafio às suas capacidades físicas. O esforço que dedicou e a incorrecta postura física que o obrigou, durante 4 anos, a pintura do tecto, tiveram repercussões até ao final da sua vida. Talvez por isso tenha efectuado com especial empenho as últimas duas figuras, inserindo uma quantidade superior de mensagens ocultas em redor dos dois profetas que sobrevoam o trono papal. Jeremias, o lúgrebe profeta, expõe-nos com uma expressão pesarosa o seu lado esquerdo, considerado o mais sinistro, observando apreensivo o trono papal. Jeremias, (ao qual já me referi aqui) foi o profeta que se insurgiu contra a corrrupção infiltrada entre os sacerdotes e os líderes do seu tempo, profetizando a devastação de Jerusalém e advertindo o povo para que se rendesse aos babilónicos. Acusado pelos judeus de traição, Jeremias seria poupado por Nabucodonosor. A sua desolação seria luminosamente revelada, mais tarde, numa das obras primas de Rembrandt que se encontra hoje no Rijksmuseum de Amsterdam.

Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Profeta Jonas
Mas, é precisamente em Jonas que se escondem algumas das mensagens secretas de Michelangelo, numa correspondência biográfica entre a sua vida e a de um profeta relutante, forçado, pela vontade divina, a deslocar-se de Israel para a cidade corrupta e pagã de Nínive, de modo a suscitar o arrependimento dos seus habitantes, neutralizar a idolatria pagã e converter as massas ao Redentor. Tal como Jonas, Michelangelo foi igualmente requisitado pela autoridade divina papal, obrigado a deixar Florença, a sua paixão pela escultura e os Médicis seus patronos, instalando-se na luxúria do Vaticano e na corrupção de Roma. Temendo pela sua vida, Jonas tenta fugir às ordens de Deus, fugindo de Nínive e do seu destino.  Embarca no primeiro barco que se dirigia em sentido contrário, rumo a Társis. Durante a viagem, o barco é fustigado por uma tempestade e Jonas acaba engolido por um peixe gigantesco onde permanece, por castigo divino, três dias e três noites. Arrependido, Jonas decide seguir para Nínive sendo regurgitado numa praia da costa.

Michelangelo faz de Jonas o porta voz final e mais eloquente da Capela Sistina, pois viu nele o seu alter-ego, um profeta relutante forçado pela vontade divina a realizar uma missão que pretendia evitar a todo o custo. É com os quatro capítulos do livro de Jonas que se fecha o Yom Kippur, o dia mais sagrado para os judeus, e foi com Jonas que Michelangelo concluiu o tecto da Capela Sistina. A sua mensagem, sustenta a obrigação de ajudar os perversos a afastarem-se das suas inclinações nocivas de modo a evitarem a ira divina. Michelangelo encontrava-se profundamente chocado com a corrupção da Igreja, gerida numa ânsia de luxos e riquezas que subvertia toda uma política de transparência cristã. A Biblia diz-nos que um sistema profundamente mergulhado na corrupção foi em tempos salvo pelo arrependimento e pela palavra de Jonas. Nínive, a cidade pecaminosa aprendeu a lição mais importante, a de que nunca devemos desistir dos pecadores, pois nunca é demasiado tarde para acreditarmos na sua redenção.

1.7.12

Os Segredos da Capela Sistina (6)

Joel
Sibila Délfica
No universo católico de quinhentos, barroco e circunscrito a um ambiente inquisitório de caça às bruxas, ninguém imaginaria que flutuaria por cima dos Concílios Ecuménicos, uma atrevida concepção do mundo baseada nos princípios judaicos do Talmude e da Cabala. O Papa Julius II, sem recear que o céu lhe caísse em cima, pactuou com as liberalidades de Michelangelo, dando-lhe carta branca para retratar, a trinta metros do solo, um conjunto de individualidades que, certamente, iria perpetuar o seu pontificado para a eternidade. O grupo de figuras gigantescas que Michelangelo concebeu é surpreendentemente heterogéneo. Ao lado dos sete profetas hebraicos foram adicionadas cinco sibilas pagãs numa prática que, logo após os trabalhos da Capela Sistina, rapidamente se converteria numa tendência definitiva da pintura renascentista.
Distribuição dos frescos Tecto da Capela Sistina
O que é que une o paganismo ao judaísmo? Em comum têm o facto de nunca olharem para o solo. Olhar para o chão é um sinal redutor que circunscreve os homens ao momento presente. O grupo, desenvolve actividades visionárias tendo em mente apenas uma finalidade comum: o futuro. Todos eles, à excepção de Jonas, o profeta que viveu três dias na barriga de um peixe,  contêm um pergaminho ou um livro na mão, como sinal da sua literacia e da sua capacidade de ler nas entrelinhas. Apelando à intelectualidade das várias facções da cultura, Michelangelo responde por remissão para a origem da palavra "intelectual", inter-leggere, ou seja, aquele que raciocina e tem a faculdade analítica de avaliar a densidade dos vários níveis propostos, procurando nas entrelinhas o todo compreensível para o universo suscitado. Podemos especular quais as razões que levaram Michelangelo a retratar as Síbilas e os Profetas com pergaminhos nas mãos mas não deixa de ser curiosa uma história que antecedeu as obras da Capela Sistina e que envolveu o artista e o Papa Julius II.



Daniel
Em Bolonha, cidade pela qual Michelangelo não nutria uma particular simpatia, Julius II encomendou-lhe a execução de uma estátua sua, em bronze, a colocar na catedral, projectando o egocêntrico papa para a posteridade. Segundo reza a história, Michelangelo terá simulado em barro essa estátua, pedindo a aprovação do papa sobre os seus acabamentos, nomeadamente, se Julius II queria ser retratado com um livro na mão, sinal da sua cultura e eruditismo. Indignado, o papa exclamou que não era nenhum académico mas um guerreiro, por isso aquilo que deveria ter na mão era uma espada e não um livro. Talvez por isso, quando anos mais tarde a estátua de Michelangelo veio a ser, infelizmente, fundida para a construção de um enorme canhão, tenha sido "baptizado" com o icónico nome de "Júlia".
Jonas
E porquê sete profetas? O papa terá achado surpreendente que, de todos os profetas escolhidos por Michelangelo, nenhum dos sete - Zacarias, Joel, Isaías, Ezequiel, Daniel, Jeremias, e Jonas - fosse um herói do Novo Testamento. Michelangelo optou por profetas hebraicos, com origens no Antigo Testamento, assim como omitiu todas as Síbilas que, na doutrina cristã, anunciavam a vinda de Cristo. A explicação para estas opções poderá ser encontrada na sua formação, na Academia Platónica de Florença e, numa concepção particular do universo, inspirada numa multidisciplinariedade cultural, com relevo para os ensinamentos do Talmude e da Cabala.
Ezequiel
Relativamente aos sete profetas, o que nos ocorre de imediato são os sete dia da Criação. Segundo a Cabala, não foi só o universo material, mas a própria Realidade que foi criada durante esses sete dias e os sete profetas judeus representados ajustaram-se na perfeição a esta mensagem, uma vez que anunciavam uma futura redenção espiritual, não só para os judeus mas para toda a humanidade.
Outro significado-chave do número sete é a sua ligação às sete chamas da Menorah, o candelabro sagrado de sete braços que se encontrava no interior do Templo de Jerusalém.
Curiosamente, à data da elaboração dos frescos de Michelangelo, encontravam-se, precisamente, no topo do gradeamento que divide o interior da Capela Sistina, sete chamas de mármore que viriam a ser oito, alguns anos mais tarde, por acção de um futuro papa interessado em desmistificar as associações com a Menorah.
Sobre as mensagens de alguns dos profetas, falaremos já a seguir.

23.5.12

Os Segredos da Capela Sistina (5)

Michelangelo Buonarroti - Tecto da Capela Sistina
Profeta Zacarias - retratado como Julius II

David e Golias
Quem já teve oportunidade de visitar o Museu do Vaticano sabe que, para chegar aos frescos de Michelangelo, é necessário percorrer uma via sacra de alas e corredores sem fim, admirar, sem tempo, centenas de obras que mereciam mais tempo de contemplação, subindo e descendo dezenas de escadas que revolteiam e serpenteiam as labirínticas entranhas do Vaticano. No final, somos compactados, numa fila impaciente, antes de sermos literalmente atirados para dentro da Capela Sistina, por uma pequena porta de sacristia onde os visitantes pressentem a eminência de uma excelsa revelação divina. Convergindo para a entrada somos confrontados com um céu azul universal. No tecto, as figuras bíblicas tomam forma, sacudindo o visitante com um frémito embasbacado como se de uma bala sagrada gatilhada por alguma força superior pairasse sobre as nossas cabeças. E é então que todos, em uníssono, deitam a cabeça para trás e escoram o corpo desequilibrado ao chão. E nem o altar-mor do Juízo Final com o Rei Minos condenado a viver com os genitais abocanhados por uma serpente venenosa nos distraem da harmonia celeste do Princípio dos Homens. Por cima, reencontramo-nos com as resignações do Velho Testamento. A Criação de Adão, o Pecado Original, as Síbilas, os medalhões, as grinaldas, os nus gigantes, os nus de bronze, os putti e os 7 Profetas, emoldurados pelos Quatro Cantos do Universo. Mas nem sempre foi assim. 
No tempo de Michelangelo, a entrada na Capela Sistina fazia-se pela majestosa porta dos pontífices e não pela atarracada porta de sacristia, ao lado do altar principal. Hoje, o visitante não tem a perspectiva, nem o impacto, do santuário idealizado por Michelangelo. Com a nave à sua frente, o visitante mergulhava, progressivamente, nas imagens e numa profusão de símbolos, adquirindo uma visão orgânica da capela, onde o todo se complementava, numa carga sensorial que atarracava qualquer um, à medida que progredia por dentro do templo. 
Judite e Holofernes
Com 1.100m2, Michelangelo dissimulou, no maior fresco do mundo, mensagens perigosas, com uma técnica de prestidigitador. Combinando diferentes ingredientes, de forma inovadora, conseguiu distrair o espectador comum, das mensagens subliminares que se destinavam a criticar o poder de Roma. Por um lado, bajulou Julius II, por outro, amaldiçoou-o. Julius II foi um Papa controverso. Sobrinho de Sisto IV, herdou do tio a corrupção dos Della Rovere, a prepotência de Roma, o ódio aos Medici e o gosto pela opulência e pelas artes que valeram ao Vaticano a criação de um dos melhores museus de arte do mundo. Interessado em consagrar o nome e o seu prestígio para a posteridade, encomendou a Michelangelo o tecto da Capela Sistina, recomendando-lhe que retratasse Jesus Cristo, por cima do local onde normalmente se sentava. Curiosamente, Michelangelo, não só não o fez, como não colocou nenhuma figura do Novo Testamento no tecto. Ao invés, Michelangelo retratou, no local encomendado para Cristo, um dos profetas hebraicos mais messiânicos, escolhendo, curiosamente, Zacarias. De modo a apaziguar o seu mecenas, Michelangelo pintou o rosto de Zacarias à imagem de Julius II, vestindo-o com uma túnica azul-marinho e dourada, as cores tradicionais dos Della Rovere, o que certamente terá agradado ao egocêntrico papa.

Porque se terá Michelangelo recusado a retratar Jesus Cristo? A razão prende-se, provavelmente, com duas das profecias de Zacarias. A primeira, segundo as escrituras, atribui-se a Zacarias uma exortação feita ao clero do Segundo Templo de Jerusalém, apelando à modificação dos comportamentos corruptos e pouco espirituais, sob pena de as portas do Santuário poderem vir, no futuro, a ser derrubadas pelos inimigos, facto que, efectivamente, veio a ocorrer no ano de 70 d.C., com a conquista de Jerusalém pelos romanos. A segunda razão, prende-se com o facto de Zacarias ser o profeta da consolação e da redenção reivindicando a reconstrução do Segundo Templo de Jerusalém. À sua maneira, Michelangelo transmite-nos a corrupção existente no pontificado de Julius II, bem como o facto de rejeitar que uma cópia fiel do Templo seja efectuada numa cidade estrangeira, ao invés da sua reconstrução ocorrer na cidade prometida de Jerusalém. Nos quatro cantos do tecto, consagram-se 4 episódios bíblicos que representam quatro momentos determinantes de emancipação do povo judeu. Em relação aos gregos - Judite e Holofernes -, aos babilónicos - David e Golias -, - aos persas - a rainha Ester e Haman -, e aos egípcios - Moisés e a praga das serpentes -. Nos quatro cantos do Universo, dois homens e duas mulheres de relevo do Antigo Testamento, enunciam a força masculina associada à compaixão feminina, oferecendo-nos a representação da personificação humana e a harmonia sexual divina, num equilíbrio místico que, segundo a Cabala, é a chave da perfeição celeste. Quanto ao profeta Zacarias, não deixa de ser curioso observar de perto os dois anjinhos "putti" que o observam por detrás e que servem de figurantes com a função de murmurar ao observador os verdadeiros pensamentos do artista. Michelangelo, não nutrindo particular simpatia pelo papa corrupto, procurou deixar uma mensagem, secreta e subliminar, no suposto tributo a Julius II. Se repararmos com atenção, os putti, olhando por cima do ombro do profeta, observam o seu livro com despreocupação. Aparentemente alheios, um dos anjos apoia-se no outro fazendo, com a mão discretamente camuflada, "figas" o que, numa versão medieval, equivaleria nos dias de hoje a levantar o dedo médio a alguém ou, de uma maneira mais coloquial, "mandar alguém à merda". Num gesto, intencionalmente vago, a mensagem não podia ser mais clara.

8.4.12

Os Segredos da Capela Sistina (4)

 Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Tecto da Capela Sistina
 A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso
A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: " É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?" A mulher respondeu-lhe: "Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis". - Genesis 3, 1-3

Lourenço de Médici (1449 – 1492)
Com apenas vinte anos, qualquer jovem educado numa corte erudita sentir-se-ia mais inclinado a desfrutar os prazeres lúdicos da vida do que a assumir o papel de patriarca da casa dos Médici. Porém, Lourenço, o Magnífico, investiu-se no cargo com a maior dignidade e sonhou magnanimamente em tornar Florença numa Atenas sobre o rio Arno. Acolheu no seu círculo cultural uma multidisciplinaridade de matérias, algumas, potencialmente explosivas para a época, estendendo a sua protecção e filantropia a áreas não só condenadas, mas também rotuladas de heréticas por Roma. Nesta designação incluíam-se, certamente, os estudos judaicos da cabala e as obras de Platão, resgatadas por Cósimo, que estariam na génese do pensamento filosófico da escola de Florença. Reconhecido em toda a Europa, o núcleo constituía uma sombra incómoda ao conservadorismo papal de Roma, ao monoteísmo cristão e aos ensinamentos de Aristóteles, acolhidos pelo Vaticano. Lourenço, preocupado em limar cisões, deslocou-se a Roma, em 1471, com o intuito de prestar tributo ao Papa, mas as suas diligências não foram suficientes para Sisto IV lhe perdoar o atrevimento das liberalidades culturais adoptadas. Determinado em destruir os Médicis, o papa retirou-lhes o monopólio da venda de alúmen ao Vaticano, atribuindo-o aos Pazzi, seus inimigos mortais que, em jeito de estucada final, conspiraram para assassinar Lourenço e o seu irmão Giuliano, por altura de uma missa, na Catedral de Florença. No meio da eucaristia, Giuliano morre apunhalado pelos mandantes dos Pazzi, tendo Lourenço conseguido escapar ferido, pelos subterrâneos da Catedral. Os anos que se seguiram, seriam dedicados à reconstrução das finanças e do prestígio da família, ao alargamento das relações comerciais, ao patrocínio de novos talentos e à encomenda de obras de arte que constituiriam, para as gerações futuras, o grande legado do Renascimento.

É nesta conjuntura tumultuosa que Michelangelo é descoberto por Lourenço. Acolhido na corte, o jovem escultor partilhou com os filhos dos Médici as aulas dos mestres eruditos. Ghirlandaio, Beltoldo e o poeta Poliziano foram seus mestres, mas seriam Ficcino e Pico della Mirandolla que seriam os artífices carismáticos responsáveis pela ponte intelectual que lapidaria a personalidade de Michelangelo. Educado numa fé plural e universal, que preconizava a harmonia entre o monoteísmo cristão, o pensamento platónico e a cabalistica judaica, Michelangelo foi instruído que a "Fonte Única" constituía a convergência para a redenção individual. Sabemos que Michelangelo estudou profundamente o Midrash, o Talmute e a Cabala, tendo integrado, secretamente, os seus princípios em todas as figuras bíblicas que formam o tecto da Capela Sistina. No díptico que compõe a cena da expulsão do Paraíso observam-se três momentos que, numa primeira impressão a ilustração parece típica da história à qual a Igreja dá o nome de "pecado original". No entanto, se observarmos a cena atentamente, verificamos que Michelangelo introduziu, subversivamente, alguns detalhes que fogem à divulgação cristã, nomeadamente, quanto ao fruto proibido. A única excepção a esta interpretação ocorre precisamente nos ensinamentos judaicos onde, a árvore do Conhecimento, é uma figueira. Michelangelo retratou, no tecto da capela Sistina, uma figueira sendo o fruto oferecido pela serpente a Adão, não a clássica maçã, nomeada no cristianismo, mas antes, um figo, nos termos do Antigo Testamento. Michelangelo, de acordo com as Antigas Escrituras, promove em Adão a iniciativa de recolha e aceitação do fruto proibido. Esta postura, contraria a teoria cristã que remete para a mulher a responsabilidade do papel de prevaricadora, provocadora e pecadora. Eva, conforme todos nos ensinaram, estende a maçã a Adão, num movimento mímico atrevido, conveniente para o papel de subalternização da mulher, construído e difundido pela hegemonia católica. Mas, na realidade mistica das escrituras, não é assim que reza a história. Se lermos o Antigo Testamento, de acordo com a aclamação professada na doutrina judaica, a Árvore do Conhecimento - do Bem e do Mal era uma figueira e não uma macieira. Daí que Michelangelo tenha optado, numa abordagem inédita para a época, por partilhar a culpa entre o casal primordial, algo que nunca havia sido aflorado em nenhuma representação ocidental, e que se enquadra nos ensinamentos do midrash.
Outra particularidade, que tornou esta pintura imprópria para a pudicícia cristã, até aos finais do séc:XIX, refere-se à escandalosa sugestão que, no primeiro momento da cena, à esquerda, nos oferece a postura de Adão e Eva. É que, ambos, não tendo ainda cometido o pecado original, e inocentes da sua nudez, aparecem aqui numa pose, claramente constrangedora para os olhos incautos dos renascentistas e iluministas, produzindo sugestões maliciosas aqueles que, não tendo, à data, aptidões cinematográficas, conseguiam facilmente equacionar o desfecho matemático, após a rotação da face da inocente Eva.

20.2.12

Os segredos da Capela Sistina (3)

Ottavio Vannini - 1685 - Palácio Pitti - Florença
Lourenzo de Médici com a sua corte de eruditos
à direita, Michelangelo Buonarroti mostra a Lourenzo a cabeça do fauno que esculpiu

As primeiras referências remontam a 1230. Provenientes de um antigo clã florentino, os Médici desde cedo se destacaram no comércio e nas finanças, como negociantes de lãs e emprestadores de dinheiro. Com uma vocação nata para os negócios, rapidamente estruturaram formas mais complexas de cedência pecuniária, destacando-se, no incipiente mundo financeiro da época, através da criação de um sistema de franchisings e de um método proporcional de taxas de juro que os converteu, rapidamente, numa das famílias mais ricas da Europa. Inicialmente, sem grandes ambições políticas, mas com grande apoio popular, Cosimo de Medici (1389-1464) tornou-se, naturalmente, Governador de Florença, iniciando uma dinastia com mais de 300 anos.
Cosimo de Medici (1389-1464)
Nos 30 anos do seu "reinado", Cosimo, promoveu a paz com as cidades a norte de Florença, consolidou as finanças da família e inaugurou o mecenato das artes, descobrindo e patrocinando pintores como Fra Angelico, Fra Filippo Lippi, Donatello e Botticelli. Estendendo a sua influência à literatura e à filosofia, Cosimo, na sequência do saque otomano de Constantinopla, conseguiu resgatar, a peso de ouro, os textos originais de Platão e do egípcio Trismegisto, adquirindo-os e confiando a sua tradução para o latim ao jovem erudito Marsílio Ficino.
É sob a égide de Cosimo de Médici, e com a coordenação de Fisino e Giovanni Pico della Mirandola, que surge a Academia Platónica de Florença. Em pouco tempo, tornar-se-à um dos grandes centros da cultura italiana, preconizadora dos novos valores humanistas e de uma nova política social para a época.
Marsílio Ficino (1433-99)
Cosimo levaria a cabo outro feito importante que influenciaria o panorama da cultura florentina. Com ele, os judeus passaram a entrar livremente em Florença. Até aí, era vedada a possibilidade de trabalharem ou viverem no território florentino. Banqueiros como os Strozzi e os Pazzi, especializados na concessão de empréstimos às grandes famílias europeias, barravam, não só por razões religiosas mas também por questões de concorrência, a entrada da cidade aos banqueiros judeus, fiadores dos pobres, dos pequenos comerciantes e das pessoas comuns. Ao abrir as portas da cidade, Cosimo conquistou os florentinos, proporcionando-lhes o acesso ao pequeno capital e à consequente melhoria das oportunidades de negócio e das condições de vida. A partir deste momento, o destino dos Médici e dos judeus ficaria ligado para sempre. Fiéis ao seu protector, nas duas vezes que os Médici foram banidos da cidade, os judeus acompanharam-nos, regressando, posteriormente, ao seu lado, quando readquiriram o controlo da cidade.

Mas a entrada dos judeus em Florença traria uma outra dávida mais perene: a sua cultura e o seu conhecimento esotérico que rapidamente passa a ser tema de interesse da Academia de Florença, estabelecendo-se correspondências entre as ideias platónicas, o cristianismo e o judaísmo. Os judeus, passaram a ser procurados como professores particulares, participando em debates públicos, tertúlias, festas, conferências e retiros intelectuais. Por outro lado os cristãos passaram a dedicar-se ao estudo do hebraico, da Tora, do Talmude, do Midrash e – de longe a sua favorita – ao estudo da Cabala.
Picco della Mirandola (1463-94)
Seria Pico della Mirandola (1463-94) o filósofo que daria início à corrente que aglutinaria uma visão multicultural, impregnada pelo desejo de interpretar as escrituras, do antigo e do novo testamento, aplicando-lhes a mesma visão misticista utilizada pelos cabalistas judaicos. Os textos da Cabala, facilitados pelas traducões ordenadas por Sisto IV, viriam a promover as correntes filosóficas que estariam na génese da “Cabala Cristã”. Uma agregação multicultural que aglutinava transversalmente aspectos multidisciplinares da filosofia platónica, neoplatónica, aristotélica, hermética, cabalistica e cristã, numa apoteóse incomodativa para os anais de Roma e para os dominicanos de Florença que se sentiam desafiados no seu cristianismo hermético cheio de pruridos morais e inquisitórios.

Os Médici passaram a ser odiados, não só pelos Strozzi e os Pazzi, mas também pelo Papa e por Roma, que viam na influência judaica uma contaminação à fé da Santa Igreja. Com a morte de Cosimo, logo seguida do seu filho Pietro, seria Lourenzo, com apenas 20 anos, que assumiria o comando da família. Lourenzo o Magnífico (1449-92), continuaria a obra do seu avô, fomentando a Academia, patrocinando as artes e fundando o “Jardim de S. Marcos”. Um ateliêr de escultura que haveria de acolher um jovem aprendiz, fascinado pelo meio intelectual de Florença e pelos torsos romanos que embelezavam os recantos da selecta “bottega” de Lourenzo de Médici.

Conta a lenda que um jovem de treze anos, impressionou Lourenzo ao esculpir a cabeça de um velho fauno (um espírito mitológico da floresta), valendo-lhe a destreza da escultura o convite para integrar as Academias do Palácio partilhando os grandes mestres florentinos da Academia Platónica e do Jardim de S. Marcos. Com catorze anos, Michelangelo viu-se ao lado de uma das famílias mais ricas da Europa, com os melhores tutores privados de Itália e com uma concepção de arte influênciada pelos ensinamentos Cabalisticos Cristãos. Uns anos mais tarde, toda esta conjuntura iria ser determinante na execução dos frescos e nas mensagens subliminares que deixaria gravadas, para sempre, nas paredes e no tecto da Capela Sistina, no Vaticano (continua).

6.2.12

Os segredos da Capela Sistina (2)

 Melozzo da Forli - 1477 - Pinacoteca - Museu Vaticano
Sisto IV rodeado de 4 dos seus sobrinhos preferidos Della Rovere, ao centro o futuro Papa Júlio II
De joelhos, Platina, o novo prefeito da Biblioteca

Francesco Della Rovere nasceu no seio de uma família modesta, do noroeste de Itália. Desde cedo manifestou aptidões literárias o que o levaria a entrar no seminário mais por razões de ordem financeira do que por vocação. O seu percurso seria traçado de acordo com os planos ambiciosos dos homens do clero. Cedo foi ordenado cardeal e, posteriormente, eleito Papa. Com o nome de Sisto IV, o início do seu pontificado é marcado pela concessão de títulos, propriedades e privilégios à sua família. Manifestamente corrupto, rodeou-se de todos os seus sobrinhos, tornando-os descaradamente ricos. As suas primeiras acções do pontificado ficaram famosas pela preocupação em elevar o estatuto social e financeiro da sua família ao invés de atender às perturbações da Igreja delapidada com o "Exílio Babilónico" do Vaticano em Avinhão. Um dos seus sobrinhos viria inclusivamente a suceder-lhe, sendo Julius II que encomendaria os frescos do tecto da Capela Sistina a Michelangelo. Mas nem tudo foi mau com Sisto IV. Deve-se a este Papa o interesse pela arte e a reconstrução e ampliação da famosa Capela Sistina. Colhendo as dimensões no Livro dos Reis, a Capela Sistina foi reconstruída com as medidas exactas do Templo de Salomão, em Jerusalém, numa evocação sucessionista da Igreja Católica em relação ao Judaísmo. Numa apologia de um catolicismo triunfante, Sisto IV pretendeu deixar, para a posteridade, uma mensagem subreptícia de dupla condenação: não só os judeus deveriam sofrer, para todo o sempre, as penas da execução de Cristo, errando pela Terra sem pátria certa e sem destino, como também deveriam sofrer, pela própria mão papal, a perca do Templo Sagrado de Jerusalém, transferindo-o para Roma, numa atitude clara de triunfo sucessivo do catolicismo sobre o judaísmo. Ao visitante inadvertido, os pequenos pormenores que relacionam a Capela Sistina ao Templo de Salomão passam, naturalmente, despercebidos. Não só as medidas do templo são exactamente as mesmas que se encontram consagradas no Antigo Testamento, como o altar foi recriado com uma elevação de 30cm, em relação ao restante piso da Capela, facto que copia fielmente o local do "sancta sanctorum", o local mais sagrado do Templo de Salomão, (ao qual já me referi aqui neste blog), onde apenas o Sumo Sacerdote do povo judeu pode aceder, uma vez por ano, por altura da celebração do Yom Kippur. O tecto original da Capela, anterior à comissão de Michelangelo, foi igualmente projectado à imagem da maioria dos templos judeus.
Mosaicos Cosmati
Um céu azul, coberto de estrelas douradas, recordava o sonho de Jacob (Genesis 28, 11-19) quando dormiu ao relento, depois de fugir da casa do seu pai. No sonho, Jacob via uma escada pela qual os anjos subiam e desciam, tendo denominado o local como a “Casa de Deus”. Seria, precisamente, esse o sítio onde o Templo de Salomão viria a ser construído, numa clara evocação das Escrituras, e agora, manifestamente transladado para a esfera de Roma. Por último, o chão da Capela foi efectuado com uma proliferação de fantasias geométricas inspiradas nos mosaicos medievais da família Cosmati, os mesmos que anos antes tinham decorado o piso da Abadia de Westminster, em Londres. Os desenhos, com significados esotéricos, promovem espaço e fluidez à capela, mas acima de tudo comportam funções relacionadas com os rituais de consagração da missa papal, o local onde o papa se deve ajoelhar, o da entoação dos salmos e cânticos, o da agitação do turíbulo.
Roma - Arco de Tito com o saque da Menorah
Mas, se repararmos no chão da Capela, apercebemo-nos que no preciso local onde a fornalha queima os votos para produzir o fumo negro e o fumo branco, durante o Conclave para a eleição do novo Papa, a decoração dos mosaicos foi efectuada com o Selo de Salomão. Composto por uma combinação de dois triângulos de Fílon, sobrepostos e a apontarem para cima e para baixo, é também conhecido como Estrela de David, símbolo universal do judaísmo.
Muitas são as lendas sobre a origem deste símbolo. No caso das Mil e Uma Noites, é referido como um anel mágico do qual o rei Salomão se servia para dar ordens aos demónios, ou para falar com os animais. Para outros, é atribuído ao rei David pelo facto do hexagrama representar o mapa astrológico do momento do seu nascimento. Mas, a teoria mais credível será aquela que reconduz a estrela de David à interpretação mística do número 7, reflectido nas seis pontas que rodeiam o centro. O 7, é o número da Sagrada Menorah. O candelabro de sete braços que existia no Tabernáculo do Templo de Salomão. Saqueado em 69 d. C., na invasão romana de Jerusalém, à qual se seguiu a destruição do Segundo Templo, a Sagrada Menorah foi levada pelos invasores para Roma, num registo triunfal perpetuado no Arco de Tito. Acredita-se que, ainda hoje, se encontre entre os tesouros secretos escondidos nas catacumbas do Vaticano.
(continua)

25.1.12

Os segredos da Capela Sistina (1)


Michelangelo Buanarroti - A Criação de Adão - Capela Sistina - Vaticano - CRV©
 “Vi o anjo no mármore e esculpio até o libertar”
Michelangelo Buoanarroti

Na literatura, a descodificação das entrelinhas pode ser um desafio à nossa inteligência e à nossa imaginação. O mesmo acontece na arte, quando o artista subtilmente introduz uma mensagem, destinada a sussurrar ao observador curioso, um estado de espírito proibido ou um segredo oculto. Escondidos entre a sobriedade dos traços e a luminosidade das cores da tela podem passar despercebidos ao incauto observador, as mensagens subliminares que o artista encerrou para a posteridade.
Michelangelo recebeu das mãos de um papa, ambicioso e corrupto, a comissão de decorar o tecto da Capela Sistina com representações bíblicas que, de alguma forma, pudessem prestigiar o nome da sua família, os “della Rovere”. Quando alguns anos antes, Sisto IV tomou em mãos a recuperação de uma capela em ruínas e, não só a reconstruiu, como a ampliou, de acordo com as dimensões propostas para o Templo de Salomão, no Livro dos Reis, ninguém imaginaria que essa capela se tornaria num dos locais mais famosos da Igreja Católica em todo o mundo. A nova capela, foi desenhada para substituir a promessa do antigo Templo Judaico, enquanto novo templo da nova ordem de Jerusalém. A partir desta época, Roma sucederia a Jerusalém, passando a cidade a ser a nova capital do cristianismo uma vez que, 18 anos antes, o mundo católico havia sido ceifado de Constantinopla com a entrada dos muçulmanos e a queda do Império Cristão Bizantino.

Sisto IV era versado nas Sagradas Escrituras e, a ambição em projectar o seu nome de família era de tal forma desmesurada, que, ao encomendar os frescos do tecto a Michelangelo Buonarroti lhe recomendou que vestisse S. Pedro e Abraão com as cores azuis da sua família. A proposta que nos é dada, no livro que tem ocupado os meus últimos tempos livres, é precisamente debruçarmo-nos sobre os enigmas que a Capela Sistina encerra e que, passam normalmente despercebidos ao observador que se lança de pescoço no ar, na contemplação dos famosos frescos do tecto e do altar  da Capela Sistina. O livro, que narra a interpretação das pinturas por parte de dois eruditos do mundo da arte, irá mudar a forma como olhamos para as musculadas figuras representadas por Michelangelo adicionando novos elementos a uma visita que, nunca mais voltará a ser a mesma.
Benjamin Blech e Roy Doliner, dois eruditos do mundo da arte, encontraram nas pinturas de Michelangelo um código de mensagens, profundamente influenciado pela educação do pintor, os ensinamentos dos seus mestres - Marsílio Ficino e Pico della Mirandela -, e pelas correntes neoplatónicas de agregação multicultural, desenvolvidas na corte de Florença, de Lourenço de Médici, o Magnífico. Com uma coerência de argumentos, que abalam as nossas convicções, os autores expuseram, no livro intitulado “Os Segredos da Capela Sistina”, a sua tese sobre as mensagens ocultas que se escondem por detrás dos frescos, numa apologia que nos mantém presos até à última página. Tal como Michelangelo revolucionou o mundo da arte, também este livro muda a forma como passamos a observar e a questionar a obra do pintor. Muito embora se trate de “mais uma tese”, as questões levantadas não deixam de ser pertinentes proporcionando-nos, outra visão, para além das evidentemente conhecidas, lançando-nos numa multiplicidade de perspectivas que ao visitante comum passariam despercebidas. Fotogr CRV©
(continua)

19.1.12

Controvérsias da Capela Sistina - O Último Julgamento

Michelangelo Buonarroti - 1537/41 - Capela Sistina - Vaticano

As cenas do “Último Julgamento”, pintadas por Michelangelo Buonarroti, na parede por cima do altar da Capela Sistina, foram alvo de uma controvérsia feroz entre o Cardinal Carifa e o artista. O motivo da discórdia foram os nus musculados, retratados por Michelangelo nessa fachada da Capela. As poses despudoradas de São Bartolomeu, dos anjos e dos santos, foram consideradas obscenas e imorais para a época, valendo-lhe uma guerra de injúrias e difamações, comandadas pelo Cardinal Carafa e por Monsignor Sernini. Formaram-se dois partidos. Um a favor da manutenção dos frescos, apoiada por Michelangelo e os seus seguidores, outro apoiado pelo sector conservador do clero papal que se propunha ordenar a destruição dos frescos, erradicando de vez a vergonha e o mau estar causado pela leviandade do artista.
Biagio de Cesena como MINOS
O próprio responsável pelas cerimónias do Vaticano, Biagio da Cesena, alegava a indignidade das pinturas, referindo a desgraça e a vergonha que adivinhavam, para a imagem da Igreja Católica. Toda aquela “representação, dos anjos e dos apóstolos nus, num local tão sagrado como a Capela Sistina, gerava um universo de figuras obscenas que era mais apropriada para uma taberna ou um bordel do que para a casa de Deus”.
A controvérsia, assumiu contornos ainda mais polémicos quando Michelangelo retratou Biagio de Cesena, como Minos. De acordo com a mitologia grega, depois de morto, Minos desceu ao mundo subterrâneo onde se tornou um dos três juízes dos mortos. Dante, dois séculos antes, já havia consagrado a figura mitológica no seu poema épico o "Inferno de Dante". Minos, ouvia as confissões dos mortos e designava-lhes um círculo e subcírculo específico, de acordo com a falta e os pecados mais graves relatados.

A gravidade da afronta levou Biagio de Cesena a recorrer ao julgamento do Papa. O pontífice, interpelado para ordenar a destruição dos frescos, simplesmente respondeu que " a sua jurisdição papal não contemplava o submundo do Inferno, mas antes o Reino dos Céus, pelo que as pinturas da parede do altar da Capela Sistina, teriam que se manter". 

Miguelangelo foi julgado, no seu "Último Julgamento". Da polémica ficaria um conjunto único de frescos renascentistas onde Cristo, é a parte central da composição. Juiz dos eleitos, que à direita sobem aos céus, expulsa os condenados que, à esquerda, descem ao Inferno, onde os esperam Caronte e Minos para a travessia até ao Reino dos Mortos. A ressurreição dos mortos e os anjos tocando trombetas completam a composição.