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12.6.17

"Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds"

Reza a história que no ano de 1661, John Mompesson, um abastado proprietário inglês, que merecia a deferência e o respeito da comunidade de Tedworth, entrou certo dia em conflito com William Drury, um indigente que deambulava pelas ruas da cidade a tocar tambor sobrevivendo da esmola alheia e da solidariedade do povo. Mompesson sentia-se incomodado com o barulho. O batuque permanente à sua porta trazia-lhe moléstia e irritação. Lord Mompesson tomou assim William de ponta, acumulando ódios mesquinhos e olhares de reprovação. Decidido a acabar de uma vez por todas com o batucar à sua porta, resolve instaurar um processo judicial no tribunal da cidade, com juízes, quorum, testemunhas e tudo aquilo a que um Lord influente tem direito, nas situações delicadas em que a persuasão das massas se sobrepõe às faculdades cognitivas da razão. Após largas dissertações que incidiram sobre os malefícios provenientes dos ruídos dos tambores, o colectivo de juízes deu razão a Mompesson e, vitorioso na sua causa de pedir, a sentença foi implacável . “Retire-se o tambor a William Drury e faça-se Lord Mompesson seu fiel depositário”.
De William nunca mais se voltou a ouvir qualquer batuque, nem nas ruas, nem no quilombo distante, mas os problemas de Lord Mompesson, ao invés de acabarem, estavam agora prestes a começar.

Na sua mansão de colunas jónicas, com dois pisos e balaústradas nas varandas, o tão desejado sossego iria transformar-se num desassossego infernal. E isto porque Lord Mompesson, desde que veio para casa com o tambor, passou a ser interrompido no seu sono com ruídos que de início não conseguiu identificar de onde vinham mas que, pouco a pouco, percebeu tratar-se do som de um tambor que ressoava pela casa toda. E, procurando como um louco de onde poderia vir esse ruído, ritmado e infinitamente incomodativo, Mompesson correu a ver se o tambor de William Drury se encontrava no local em que o havia guardado. Para seu espanto, lá continuava, impávido e sereno, concluindo que o instrumento impertinente membranófono, que perturbava a sua estabilidade física e emocional, não era definitivamente o tambor de William pelo que se impunha descobrir do que se tratava.
Repetindo-se todas as noites o mesmo enigma, Lord Mompesson acreditou que a sua casa estaria assombrada e que seria vitima de alguma praga de bruxaria lançada certamente por William e alguns dos ciganos que o acompanhavam. 
The devil and the drum Saducismus Triumphatus (1700).
Chamou por isso os sábios da época para constatarem pessoalmente o mistério. 
Joseph Glanvill foi um famoso clérigo inglês que se destacou nas áreas da ciência e da filosofia. Defensor da existência de fenómenos sobrenaturais, sustentou no seu livro “Sadducismus Triumphatus” a tese da existência de bruxas e feiticeiros, com poderes sobrenaturais malignos, entendendo que na sua génese estaria uma seita, que remontava ao tempo de Cristo, e que negava a imortalidade da alma.
Glanvill foi um dos sábios que procurou uma justificação para a origem dos ruídos na casa de Mompesson, tendo tomado nota que “ao visitar o quarto das crianças observei um arranhar debaixo da cama inexplicável”.
Joseph Glanvill

O caso ficou conhecido como “O Tambor de Tedworth” e vivia-se à época uma verdadeira caça às bruxas por virtude do espírito persecutório da Inquisição que pela Europa fora realizava, indiscriminadamente, autos-de-fé, perseguições e torturas generalizadas a todos aqueles que manifestassem cepticismo ou práticas contrárias à fé cristã.
Nunca foi dada uma explicação inequívoca, subsistindo, para os crentes nos fenómenos sobrenaturais, a intromissão de um espírito maligno e, para os cépticos, a conjura de William e dos seus amigos que, noite após noite, vinham até à casa de Mompesson para o castigar, atormentando os seus dias e a sua paz.
Um desses cépticos foi Charles Mackay que, 100 anos mais tarde, viria a escrever o livro “Extraordinary Delusions and the Madness of Crowds” sobre as falsas impressões e o efeito que um fenómeno fraudulento poderá ter sobre as massas. Referindo-se ao fenómeno de Tedworh conclui que teria sido manifestamente fraudulento e que Mompesson convencido de fenómenos sobrenaturais teria sido facilmente enganado.

Lembrei-me desta história, porque os fantasmas das crendices no sobrenatural continuam a aterrorizar e a vitimizar cidadãos frágeis e desprotegidos que por inércia dos seus governantes são agredidos, mutilados e assassinados pela cor da sua pele, pelo credo que professam ou pelo género ao qual sentem que pertencem. Na Tanzânia, várias crianças albinas são anualmente selvaticamente mutiladas porque se crê que os seus membros têm poderes sobrenaturais quando utilizados em rituais de bruxaria. No século 21 não seria tempo de actuar na defesa e protecção dos mais frágeis?

14.9.09

O Renascimento de Vénus

O Nascimento de Vénus - Sandro Botticelli - 1483
Foi com alguma perplexidade que li a notícia que dava conta de uma convocatória efectuada pelo Papa Bento XVI, para o próximo dia 21 de Novembro, à classe de artistas contemporâneos - arquitectos, músicos, pintores, escultores, escritores e cineastas -. Na génese desta reunião, estará o objectivo da Igreja incentivar as manifestações de arte espiritual e simbólica junto destes agentes da cultura. No último sínodo, realizado com mais de 200 cardeais, Bento XVI manifestou as suas preocupações por aquilo que apelida da crescente indiferença pela religião na Europa, constatando que países anteriormente ricos na fé e em vocações para o sacerdócio parecem estar em processo de abandono da sua identidade cristã. Pergunta-se: porque será? Volto aqui ao tema da Igreja, não porque tenha qualquer interesse especial no assunto, mas sim porque a cegueira que tomou conta da classe clerical e papal, atribuindo aos leigos a culpa da sua inércia e inaptidão em saber acompanhar os tempos modernos, causa-me alguma convulsão interna, sendo esta a forma mais branda que julgo conveniente para me expressar. Os tempos correm velozes e, certamente, não se compadecem com compassos de espera de sínodos, que ocorrem de três em três anos, ou com Concílios ecuménicos que, depois do de Trento no séc: XVI, pouco depois de Pedro Álvares Cabral ter descoberto o Brasil – parece que foi ontem -, ocorreram apenas mais dois: um, o Vaticano I, em meados do séc: XIX, enquanto Herculano escrevia “Portugaliae Monumenta Historica”e um outro, no séc: XX - Vaticano II -, em pleno período da Guerra Fria. Ora, com três Concílios em 500 anos, será difícil, para não dizer impossível, empreender reformas que suportem espiritualmente os leigos. Numa era tecnológica e de crescente respeito social relativamente às diferentes orientações de cada um, a igreja permanece arreigada a práticas, rituais e filosofias obsoletas, com as quais o cidadão comum cada vez menos se identifica. Por todo este descompasso a religiosidade de massas tem-se descaracterizado e transformado numa religiosidade individual. Cada vez mais tendemos a procurar dentro de nós o encontro entre o sagrado e o espiritual de que precisamos, rejeitando as emoções de massas com crescente esvaziamento de conteúdos e ausência de respostas relativamente às nossas necessidades espirituais. É por isso estranho, para não apelidar de outra forma, a aproximação que Bento XVI pretende fazer junto dos representantes das artes. É que, salvo erro, as manifestações culturais do cristianismo católico expandiram-se no período medieval através dos principais centros culturais existentes à data – os mosteiros -, constituindo as artes visuais uma das formas hábeis de transpor para a sociedade civil os valores do cristianismo, dada a iliteracia da população. Posteriormente, na fase do Renascimento, por influência da mitologia clássica, as artes tornaram-se mais laicas nas temáticas escolhidas sem, contudo, deixarem alguns pintores famosos, como Michaelangelo, Donatello, Botticelli ou Rafael, de elaborarem as suas obras nos termos específicos das encomendas efectuadas pelos notáveis patronos das artes que, em certa medida, muitos deles foram agentes do clero, quando não o próprio Papa. É o caso de Rafael e Michaelangelo que embelezaram as paredes do Vaticano, por encomenda e a título de prestação de serviço remunerada. Constato ainda, se a memória não me atraiçoa que, muitos destes pintores tiveram como patronos outros agentes não clericais, como os Médici e os Pitti, desenvolvendo obras fabulosas, como é o caso do “Nascimento de Vénus” de Botticelli, que só não foi para a fogueira da Inquisição, acusado de paganismo, porque o quadro se encontrava na famosa Villa Medicea di Castello, do não menos famoso Pierfrancesco de Médici que, julgo, terá mexido as suas influências para que a sua encomenda não fosse destruída, à imagem de tantos outros quadros de Botticelli. Posto isto, e para concluir, não estou a ver qualquer tipo de resultado prático da convocatória do Papa junto dos agentes das artes a menos que tenha orçamentado um saco azul – ou, melhor dito, dourado – e pretenda, à imagem dos bons anos renascentistas, tornar-se patrono dos actuais expoentes da arte contemporânea. Aí sim, acredito que, para variar, poderemos ter a felicidade de observar as novas alas do Vaticano embelezadas com expressões da mais profunda arte espiritual e simbólica revelada pelas correntes contemporâneas do minimalismo, da pop art e da arte conceitual. Vamos esperar para ver os resultados.

2.9.09

Marrocos - A Igreja do Bairro

Os representantes da Igreja Católica persistem em manter as mordaças. Descredibilizam-se instituições, afugentam-se devotos. O cepticismo aumenta. A imagem, mostra uma igreja devoluta cujas fundações andarão aprisionadas nas malhas do tempo e cuja filosofia fossilizou. Frequentada apenas por velhos e beatas, ainda conseguimos ver alguns jovens, escuteiros ou guias, que se submetem ao credo como um dos items a cumprir num pacote aliciante de acampamentos convívio. Sem qualquer tipo de revitalização visível, permanece a incapacidade em suscitar interesses mobilizadores junto das camadas mais jovens. O futuro da igreja católica, junto dos denominados "leigos", creio que se situará entre as intempéries, que fustigarão as igrejas de bairro vazias, e o pagamento de ingressos nas basílicas-museu. Quanto às classes dirigentes, essas permanecerão nos termos de todos os cânones. Fotogr: CRV