2.4.13

A Voz e o Espírito de Van Gogh por Annie Dillard


Vincent Van Gogh - 1889 - Wheatfield with Cypresses
"How beautiful those old almshouses are, I can't find words to describe them. And though Israëls does this sort of thing to perfection, so to speak, I find it strange that so relatively few should have an eye for it. Every day here in The Hague, so to speak, I see a world which very many people pass by and which is very different from what most make of it". 
- Letter from Vincent van Gogh to Theo van Gogh - The Hague, 21-28 March 1883 

Julgo que haverá sempre um marco determinante para justificar o interesse que passamos a ter por algum tema. No caso de Van Gogh terá sido, certamente, a exposição que decorreu em Londres, no início de 2010, intitulada "The Real Van Gogh and his Letters"- aqui  e  aqui - e que divulgou a correspondência do autor, onde se incluem mais de 800 cartas trocadas, na sua maioria, com o seu irmão mais novo Theo. A escrita de Van Gogh, directa, transparente e de uma honestidade plasmada por temperamentos que variam entre o luminoso efusivo e o melancólico sombrio, assume a complexidade do movimento das portas entreabertas. Da obscuridade, passamos para uma dimensão espaçosa de luz que deixa antever as casas de cores flamejantes, os corvos que sobrevoam o feno, as árvores que contêm gente dentro que fala pelos troncos nus e secos, numa mistura caótica de alegria e sofrimento contido na solidão de quem procura erguer o manto da revelação onde se escondem sentidos indolentes e adormecidos. 
Vincent mostra-nos o luar intenso, o crepúsculo dos dias e a porta secreta para o universo que se esconde por detrás dos olhos do artista. Para lá da impressão digital deixada nas telas, para lá do vibrante das cores e do cinzento da melancolia, o mundo literário de Van Gogh assume uma natureza confessional que encontrou no irmão Theo o destinatário do seu ponto de fuga, convergindo todo o seu tumultuoso mundo  para esse determinante ponto de equilíbrio. Quando, em 1873, Van Gogh é convidado pelos sócios da empresa gráfica onde trabalhava, a "Goupil & Cie, com sede em Haia, a deslocar-se para a sucursal de Londres, parte com a promessa a Theo de "escreverem imensas cartas um ao outro" dando voz à convicção que a pintura e a escrita estão na génese das pontes entre a arte e a realidade. 
Do diálogo estabelecido, beneficiamos de um eloquente conjunto fotográfico que incide sobre temas tão diversos como a escolha das cores ou as circunstâncias que geraram determinada obra. Em detalhe, para além das referências de carácter emotivo e pessoal, a linguagem utilizada sugere, como fonte inspiradora, as obras literárias de escritores famosos, como é o caso de Emile Zola, entre outros. 

Nos últimos anos, o interesse pela correspondência de Van Gogh tem sido crescente, não só pela franqueza de um mundo interior atribulado mas também pelo testemunho, directo e inquestionável, da sociedade da época que evoca as grandes dificuldades que se seguiram à revolução industrial com os campos desertificados e uma classe de camponeses que subsistia abaixo do limiar da pobreza. 

Van Gogh coincidiu novamente no meu percurso quando me deparei com um livro de poemas de Annie Dillard, construído a partir da ideia original de recolha de frases emocionalmente fortes que resultassem num todo poético. Feito a partir de excertos de diversas obras literárias famosas, foi precisamente o poema retirado das palavras de Van Gogh que me suscitou maior interesse, pela nostalgia que tão bem representa o percurso do artista. 

"I am Trying to Get at Something Utterly Heartbroken" 
(constructed from passages in van Gogh's letters) 

A ploughed field with clods of violet earth; 
Over all a yellow sky with a yellow sun. 
So there is every moment something that moves one intensely. 
A bluish-grey line of trees with a few roofs. 
I simply could not restrain myself or keep 
My hands off it or allow myself to rest. 

A mother with her child, in the shadow 
Of a large tree against the dune. 
To say how many green-greys there are is impossible. 
I love so much, so very much, the effect 
Of yellow leaves against green trunks. 
This is not a thing that I have sought, 
But it has come across my path and I have seized it. 

Annie Dillard in Mornings Like This (1996)

24.3.13

Milan Kundera - A Identidade

Lucas Cranach "the Elder" - 1546 - Fountain of Youth
Staatlich Museen - Berlin - Germany
A procura da uma nova identidade levou Chantal a reagir à passividade e ao conformismo da sua vida, tomando a atitude beauvoriana do “Deuxième Sexe”. Inconformada e com vontade de encontrar a sua nova versão melhorada, rejeita os paradigmas do machismo dominante, atemorizado pelas transformações e resguardado dentro das paliçadas dos seus tabus canonizados. Procurando mutações reveladoras de uma nova fase, Chantal reage, cortando as amarras que a sufocavam, acolhendo a “metáfora da rosa” imaginando-se rodeada de chamas “alegres, báquias, inebriadas, bravias”, apesar do pudor, dos preconceitos e do temor aos novos ventos de mudança. 

Milan Kundera, decalca com uma exactidão cirúrgica as imperceptíveis revoluções que se degladiam nos labirintos secretos da mente feminina, nessa dicotomia que Simone de Beauvoir chamou do “mito de ser mulher”, por oposição à “pura feminilidade biológica”. Pequenos palcos de guerra, secretos, onde se exorcizam fantasmas interiores, numa vida espiritual dialogada, que constitui para Kundera um tema privilegiado de observação, nessa dimensão onde ganha pertinência a interrogação de todas as coisas. Chegados à meia idade, e após um longo relacionamento, Chantal e Jean-Marc entram numa espiral de ansiedade lutando pela manutenção de um amplexo amoroso que evidencie a atracção mútua e o erotismo remanescente, desvalorizando as frustrações da monotonia e o eclodir dos dias lentos que se acomodam com o passar dos anos. 
É no momento em que se instalam todos os receios e incertezas que Kundera nos atira para o meio do casal tornando-nos espectadores passivos numa luta contra o desgaste do tempo.

Será este o momento de recorrer à Fonte da Juventude? Lucas Carnach assim o entendeu. A Lenda da Fonte da Juventude chega-nos desde Heródoto mas Carnach soube circunscrever o tema ao universo feminino. Com uma estátua inspiradora de Eros no centro, à fonte chegam várias mulheres que revelam um estado de exaustão e prostração marcados. A transformação dá-se logo após o miraculoso banho. Lavada a alma dos cansaços surge, no lado direito, um novo espaço, projectado à melhoria de uma existência individual. De relance, diria que parece quase perfeito.

4.3.13

Café en vogue

Edgar Degas - 1875/6 - L'Absinte
“L’Absinthe” seria, aparentemente, um quadro insusceptível de história, onde o alcoolismo e a passividade irracional dos figurantes exaspera o observador adepto do impressionismo tranquilizante dos grandes espaços. Mas, a história viria a convergir as suas polémicas sobre o tema, boémio, inebriante e decadente, quando Degas expôs, em 1893, a sua colecção na Grafton Gallery, em Londres. Alargando as margens do rio impressionista, Degas abriu portas a uma realidade incómoda que se escondia nos bastidores do recolhimento boémio, escancarando a tristeza submersa nas personagens cinzentas, retratando-as de olhares perdidos no infinito, ausência de força anímica e vidas que sufocam nos últimos redutos de águas estagnadas. A sociedade britânica, impoluta, e em contínua evolução da sua miopia, criticou duramente os temas de Degas, desvalorizando o interesse no close up que retratava a vida nocturna parisiense, e a ressaca de dois alcoólicos, despropositada aos bons costumes vitorianos. 
Lembrei-me deste episódio depois de ler uma série de livros dos quais fiquei com a impressão que o paradoxo das metamorfoses do tempo recai na ficção porque é uma realidade. Ao contrário da inércia das figuras derrotadas de Degas, encontrei sopros de vida numa série de personagens. Em comum, a procura de um sentido para a vida, a busca de uma identidade que transacciona com o tempo e as memórias, não em conflito, mas numa óptica de reconciliação com o passado, num presente cuja plenitude se pinta de cores vibrantes. “A Identidade” - Milan Kundera, "Viagem à India" - Gonçalo M. Tavares, “Ano Sabático” - João Tordo, “O Regresso do Hooligan” - Norman Manea, “O Feitiço da India” - Miguel Real, “Waldon ou a Vida nos Bosques" – Henry-David Thoreau, “Renascer” - Susan Sontag. Todos em comum criam urgências sobre a dialéctica entre a memória, o esquecimento e a revelação de um caminho. 

11.2.13

Excepções ao princípio da veracidade absoluta

Croatia - Karlovac, August 2012
Somewhere... in the middle of a Bosnian War CRV©
"A sinceridade é uma disposição natural para não admitir a mentira voluntariamente, mas para a odiar e acalentar a verdade" 
Platão in República, VI 

Há estradas que nos oferecem um inventário de experiências humanas articuladas entre a percepção da animalidade dos homens e a infeliz coincidência de estar no lugar onde todas as esperanças são ceifadas pela raiz, por mãos que são herdeiras do inferno de Hades, tingidas pela cor das trevas. A estrada que une Neum a Mostar, na Bosnia & Herzegovina, recorda uma história feita de ciladas e armadilhas, onde incautos habitantes tropeçaram desarmados, perdendo de um dia para o outro a luz dos seus sorrisos, a paz dos seus caminhos, a serenidade veiculada pelos profetas islâmicos e pelos santos cristãos em que acreditavam. Por vezes, a natureza do tempo não consegue apagar o sono profundo em que repousam as almas dos estropiados. Apesar dos 20 anos passados, sobre os conflitos da guerra dos Balcãs e da beleza de alguns monumentos que funcionam como manobra dilatória do percurso, aquilo que nos detém, como espectadores intrometidos, são os inúmeros recantos de terror que se desenham ao longo da estrada. Esses, são os locais que marcam, repetidamente, a chacina de famílias inteiras, mantendo entre silvas e ervas daninhas as ruínas dos bombardeamentos, dos tiros cobardes apontados às fachadas das habitações precárias, dos julgamentos sumários feitos à porta de casa, com direito a fotografias e campas funerárias cravadas no mármore negro, plantadas nos quintais da retaguarda. Por toda a região, as nuvens parece que diluem o sol de Agosto e um manto escuro abate-se sobre os nossos corações perante o abismo de algumas almas que assumem formas tão distorcidamente inexplicáveis. 

Foi nesta estrada que recordei um episódio, ocorrido há uns anos atrás, quando uma amiga estagiária foi confrontada com a necessidade de representar e defender, numa oficiosa do tribunal criminal, uma família de refugiados, desta mesma guerra, acusados da falsificação dos seus documentos de identidade e passaporte.
Pai, mãe e filha de 7 anos, cristãos, tinham empenhado todas as suas poupanças na falsificação da sua identidade, de modo a fugirem ao genocídio que tinha recaído sobre amigos e vizinhos numa guerra com o rosto das partituras fúnebres de onde não se regressa para contar sobre os diálogos da morte. Pelo modo como se vestiam aparentavam pertencer a uma classe diferenciada. A formação superior e a sua capacidade económica promoveram a possibilidade de negociarem a sua liberdade. Foram detectados no aeroporto de Lisboa, em trânsito, vindos de Roma. A escala, um salto no tempo até ao destino final, prometia a vitória da sobrevivência e a materialização da continuidade da geração. Interrompidos pela justiça implacável, os refugiados foram presentes a juízo, com interprete, que procurava explicar o desnecessário inventário de razões porque uma família foge da promessa breve da sua sepultura e de uma guerra que não acautela excepções. As alegações de defesa foram efusivamente evocadas pela minha amiga, com equiparações aos refugiados da 2ª Guerra Mundial, aos motivos de estado de necessidade, às razões do bem supremo em causa, à não violação de qualquer norma para além daquelas que se circunscreveram às razões da fuga, plenamente justificadas, ao perigo eminente de permanecerem em solo hostil, face a uma política de genocídio que não atendia à cor, idade, religião ou valorização humana ou profissional. Perante a anarquia instalada, a fuga, por qualquer meio viável, só poderia ser um imperativo categórico justificável, não rezando a história passada que em cenários de guerra tenham sido os inocentes a responderem pelos expedientes de fuga utilizados. A justiça, inabalável nas suas premissas herméticas, marcou leitura de sentença para daí a um mês. Entretanto, os refugiados deveriam aguardar em liberdade, comparecendo no fatídico dia para que a espada de Demóstenes ditasse os próximos meses da sua vida. Um mês depois, a leitura da sentença foi proferida, não atendendo ao estado de necessidade ou à situação extraordinária de guerra. 10 meses de prisão prometida que, curiosamente, nunca foram cumpridos. Na mesma noite do julgamento, um mês antes, os três refugiados de guerra foram aconselhados a seguirem para Madrid, no primeiro comboio da noite. E daí, para parte incerta. Há tempos, tive a informação inacreditável que a Interpol ainda os procurava. Tinham localizado a sua última residência, na Europa do Sul, contudo, quando efectuaram uma busca, o local já se encontrava desabitado. Acredito que a pequena de 7 anos seja agora uma jovem com boas cores. Acredito que só as poderá ter, com o sol, a liberdade e os bons ares do mar e das ilhas que foram palco das grandes odisseias. Na fuga, as cidades mudam mas os corpos são eternos.

19.1.13

Escrever depois de Auschwitz

Auschwitz - Birkenau
A ideia de nos posicionarmos como espectadores da nossa própria vida gera a habilidade irónica de reduzir o tamanho das coisas, mitigando as dificuldades e perspectivando as contrariedades, sob um ponto de vista mais racional, que só o distanciamento provocado pode induzir. Este, foi o ponto de partida do discurso proferido por Gunter Grass, no âmbito das Conferências de Poética, na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt am Main, quando lhe pediram que falasse de si e da sua obra. No pós-guerra, Gunter Grass fez parte do grupo de cem mil alemães que foram lançados em campos de prisioneiros de guerra pela sua proximidade maior ou menor com o regime deposto. Com apenas dezassete anos, e educado sob um daqueles dogmas inimigos da vida em que "a bandeira era mais do que a morte", o escritor fez parte da juventude hitleriana motivado mais pela fuga adolescente aos deveres escolares do que propriamente por uma qualquer convicção ou identificação com os ideais xenófobos do Terceiro Reich. 
Gunter Grass
Depois da capitulação, sofreu do mesmo cepticismo que atingiu milhares de compatriotas seus quando, sob o efeito pedagógico dos aliados, foi bombardeado por uma quantidade esmagadora de fotografias de locais com nomes estranhos: Auschwitz, Treblinka, Bergen-Belsen ou Sóbibor. As imagens, retratavam pilhas imensas de sapatos, cabelos, óculos e cadáveres amontoados. A negação, haveria de se dissipar com os julgamentos de Nuremberga e a realidade exposta de Auschwitz passaria a ser sinónimo da monstruosidade dos homens, esgotando-se todas as justificações nos espectros cinzentos cujas bocas se amarravam à verdade do incompreensível. 

A seguir ao horror, e à consciência mundial do genocidio, Gunter Grass é envolvido nas chagas típicas dos labirintos moralistas que eclodiram no país perante a catástrofe. Seria possível voltar a escrever depois de Auschwitz? O movimento que negava essa possibilidade, liderado por Theodor W. Adorno, foi espelhado num livro intitulado "Reflexões sobre a Vida Danificada" onde se concebe, pela primeira vez, Auschwitz como corte e fractura incurável da História da Civilização. Adorno, numa resposta irreflectida à catástrofe, nega a possibilidade de se voltar a escrever poesia, como se pretendesse proibir que os pássaros voltassem a cantar, ou que o céu fosse azul de dia e escuro como breu de noite. "Como se impõe um jejum implacável ao apetite voraz pela fantasia lírica"? Gunter Grass e um grupo de poetas alemães refutaram os pesos de chumbo que Adorno atraiu para o panorama literário alemão, optando por uma nova tábua de mandamentos que preconizava que a geração de Auschwitz só poderia ultrapassar o trauma, escrevendo. Escrever, mesmo que isso significasse renegar todas as medidas absolutas. O branco e o preto. Os tons do arco-iris. O riso, a felicidade e a alegria. Escrever, numa catarse que adoptava como regra o cinzento, glorificando todas as suas infinitas matizes. 

Na querela entre Camus e Sartre, Gunter Grass optou por Sísifo. Partiu à descoberta do mundo, com "um amontoado de poemas cinzentos, uma camisa muda, poucos livros e discos", resumindo-se a sua bagagem a esses parcos pertences. Passou por praças evacuadas, onde o vento rodopiava tudo e "o pó se entranhava nos dentes" tomando-o um silêncio sepulcral que fazia parar o tempo e o seu pequeno mundo. As vidas danificadas, eram uma realidade perceptível por toda a Europa, e os primeiros poemas, anorécticos, tristes e cinzentos, como a pura cor das gentes,"faziam ginástica livre e sem rede" na imagem de uma solidão hostil carregada de culpa pelo oportunismo cínico dos acontecimentos. As felicitações, traziam-lhe o sabor amargo de boca que não chega aos mortos. Pesava-lhe o rosto da hipocrisia, o passado, as perdas, a ascendência, a vergonha e a percepção que Auschwitz constituiria, para sempre, um arco no tempo, bramido no silêncio daqueles sofrimentos que se escoram na memória. 

Depois de Auschwitz. Depois de se provar que o mais brutal é tecnicamente possível. Depois de o extermínio perfeito ter comprovado a capacidade da espécie humana em se auto-destruir, Gunter Grass conclui que resta ao escritor "escrever sobre o tempo que passa". Sem sinais de arrependimento ou semanas de fraternidade. Com a imaginação intranquila que "corre o perigo de ficar sem ar". Auschwitz nunca poderia significar um fim. Antes sim, uma lição de resistência do género humano e, fundamentalmente, das motivações que nunca nos levam a desistir de nós próprios e dos nossos ideais. Por fim, sem dúvida, uma lição de Paz.   CRV©

14.1.13

Henry David Thoreau - Caminhada

"Porque será tão difícil por vezes determinar um percurso a seguir?" Esta é uma das questões que Thoreau suscitou na palestra que pronunciou no Concord Lyceum e que daria origem ao seu livro "Caminhada". Mais do que uma evocação ao refúgio na natureza agreste, aos longos passeios pelos prados virgens ou ao trepar às árvores de onde se avistam novos horizontes, o livro esconde o subtil magnetismo que a natureza nos revela se, inconscientemente, nos rendermos a ela. A viagem, é subtilmente espiritual, sendo as veredas por onde se embrenha aquelas "que outrora percorreram velhos profetas e poetas como Manu, Moisés, Homero e Chaucer". 

Free your mind and let your spirit fly é uma imagem iconográfica que enquadra na perfeição a mensagem de Thoreau, pois "um homem que não sai de casa todo o dia pode ser o mais errante de todos", por oposição àquele que sem terra deambula sem norte "como um sinuoso rio que procura persistentemente o caminho mais curto para o mar". "Há, porém, certas estrada que vale a pena percorrer, como se agora que estão em ruínas nos conduzissem ao caminho certo". Propensos, por vezes, para efectuar a escolha errada, o que é certo é que a terra parece inesgotável e surpreendentemente rica em encaminhar-nos na direcção correcta. Thoreau descreve-nos as suas caminhadas, não tanto em círculo, mas em parábola, perfazendo a órbita de um cometa, que descreveu curvas definitivas, espraiando-se para ocidente. 

Seguindo o instinto migratório das aves, Thoreau apela à liberdade de escolher o rumo que mais nos aprouver. Rumo a oeste, por exemplo. Caminhando para um futuro, onde se deseje "observar o crepúsculo resplandecente onde o sol parece migrar diariamente incitando-nos a segui-lo" até ao horizonte onde mergulha ao final da tarde. "Será aí que iremos conhecer os jardins das Hespérides e a origem de todas as fábulas"? A resposta promissora parece surgir "das águas, dos montes e dos vales cobertos de vinhas, com uma música em surdina, que relembra o torpel dos soldados de partida para a Terra Santa". Thoreau desafia-nos a deixarmo-nos levar pelo arrebatado encanto da corrente, como se transportados para uma era heróica onde os alicerces dos castelos se encontram ainda por construir e as famosas pontes são caminhos projectados sobre os rios mais revoltos. 

A cada um, caberá a total liberdade de desbravar a sua terra selvagem. No "canto do tordo dos bosques, há certos interstícios que nos levam a fixar numa terra selvagem nunca antes pisada pelo homem". O explorador, tenderá a aclimatar-se, projectando-se como uma árvore que lança as suas raízes até aos confins da terra em busca da esperança e do futuro onde se esconde a matéria prima que o agarra à vida. Nessas terras, "no prado e na noite vê-se o trigo nascer", a vida harmoniza-se com a terra selvagem e os afazeres desenvolvem-se com a pressa que se exige às coisas infinitas. Aí, a lua parecerá maior do que em qualquer outro local. O sol, alimentará o espírito daqueles que ganham o nome como as pedras de granito selvagens. Tal como os índios que não nascem com nome próprio, também o homem predisposto ganhará o nome através das suas proezas na caça e na guerra, na destreza das suas mãos, no nome dos animais, das plantas ou das aves que contribuíram para a sua reputação. Assim crescerá o ânimo dos que são tocados pelos raios de sol suaves. Por perto, apenas as sombras que se alongam num prado glorioso. No céu, o azul intenso cortado apenas pelo voo de um solitário falcão. E, ao longe, o som do pequeno riacho, que salta por entre as pedras, enredando folhas secas e pequenas cepos, rumo à foz, onde desaguam todas as águas doces de esperança. CRV©

31.12.12

Feliz 2013

France - Paris, November 2012
Museu D' Orsay - Paris - CRV©
Obrigada a todos os que nos visitam. Agradeço as mensagens particulares de apreço e a lealdade de quem aprecia os temas que nos suscitam curiosidade e que trazemos para este espaço de reflexão que tanto nos agrada. Tentaremos corresponder aos vossos pedidos para 2013, com maior assiduidade.

Um grande abraço e um Feliz Ano Novo.

23.12.12

Como falam, o Silêncio e a Solidão?


Wittgenstein
"Aquilo de que não se pode falar, é preciso calar. O que se mostra é o que seria inútil procurar dizer, é o ser. Para quê procurar dizer ou pensar o ser? O ser mostra-se sozinho, indica-se-nos no ruído, num silêncio ensurdecedor" 
Wittgenstein

O silêncio é um daqueles paradoxos cuja ambiguidade apetece dissecar de modo a analisar minuciosamente as lamelas que, após cuidada observação, revelam sinais indizíveis de uma linguagem feita de sinais. Apesar de, aparentemente, o silêncio nada dizer, o facto é que se anuncia. Faz-se esperar. Comunica a sua indisponibilidade através de um conjunto de anagramas, que abrangem o todo e o nada, onde a utilização de uma linguagem simbólica convola a mera ausência numa presença insinuada. E, não terá esta metáfora da não comunicação uma presença viva, um sentido claro, uma leitura deliberada? O tema sugere-me aquelas dissertações filosóficas que não levam a nada, caiem num vazio, mas que, por outro lado, prendem pelo mistério que se esconde por detrás de uma espécie de culto que explora outras formas de comunicação. Como Walter Benjamin refere, "toda e qualquer comunicação de conteúdos é linguagem, sendo a comunicação através da palavra apenas um caso particular". Sob o ponto de vista social, o silêncio pode ser encarado como a consumação de uma rejeição, como uma indisponibilidade afectiva, como um desinteresse na partilha, como um refúgio na própria solidão. Mas a solidão que lhe está inerente, pode ser ambivalente uma vez que tanto pode constituir espectro de um estigma como pode resultar de uma opção deliberada com vista à própria elevação. Essa, é decididamente a faceta que mais me interessa, na medida em que constituirá, à imagem de Zaratustra, de Jonas e de tantos outros, uma busca do caminho da própria redenção.
Platão
Tolentino Mendonça questiona se "a solidão não será também uma porta onde se revela, no maior isolamento, uma visão inesperada?".
Não será essa a sonoridade acústica, apenas perceptível aos ecos indizíveis da alma? E com a reflexão surge o espaço que se ganha que tanto poderá potenciar a queda, como criar raízes e evidenciar um caminho onde o passo deixará marca e a marca será revelação. Este silêncio, e esta solidão, terão então uma faculdade pedagógica, predominantemente positiva, à imagem de alguns desafios bíblicos onde a percepção do místico se obtém através do tranquilo escutar do murmúrio das brisas do mar e não através do ribombar do trovão.
Comodamente, podemos sempre encarar a alma como Platão. Fraccionada, em conformidade com a diversidade das operações da vida que a integram. A cada uma dessas faculdades corresponderá um comportamento e a conquista de um ritmo humano que perante as necessidades tende a construir, por opção, um caminho de verdade, sereno, de reconhecimento, silêncio e justa reflexão.

16.12.12

A Imaginação como Instrumento de Libertação

Pascal
Pascal desenvolveu a teoria da contenção da imaginação defendendo  um travão à sua força criativa. Domina-la, criando barreiras intransponíveis, dotadas de responsabilidade e razoabilidade seria o modo de vedar a luxúria que exacerbava os neurónios até à exaustão. Lembrei-me de Pessoa, e do quanto teríamos perdido com o refreio da sua imaginação multi-facetada, à qual se referiu na sua "prosa íntima", como uma ave voadora que era parte indissociável de um projecto futuro, inspirado em "sonhos, delírios e voos encantadores da imaginação que lhe acariciavam o cérebro". Pessoa confessa-nos que a sua vida se reconduzia a uma enorme passividade. Centrado nos sonhos, que lhe impregnavam a mente, a imaginação tolhia-o fisicamente, condicionando os seus actos e atropelando-lhe a concretização do seu raciocínio, interpondo-se outros pensamentos, que se subdividiam em mais mil, e que o afastavam da produção das suas conclusões. Assumindo-se com um intelecto flexível, refere-se à heteronomia, como algo que lhe impregnava o espírito com diversas emoções, conduzindo as suas personagens com o à vontade de "quem abre a porta a um visitante" e, por osmose, se acomoda à sua pele.
Pessoa
A metafísica, e as divagações da mente, são para Pessoa "uma caixa para conter o Infinito" talvez por isso "tenha agido sempre para dentro, nunca tocando na vida, esboroando-se os sonhos sempre que se propunha transformá-los em gestos". Como qualquer sonhador, Pessoa, heroicamente comandou exércitos, venceu grandes batalhas, gozou grandes derrotas, amou e pecou, tudo dentro do seu universo, parando, quantas vezes, na margem da vida com o assombro sobre um mundo do avesso. Entre Pessoa e o Mundo havia sempre uma "névoa que o impedia de ver as coisas como as outras pessoas as viam". Dizia-se "um espectador criador de anarquias", decompondo a realidade com uma "volúpia acre" deturpando-a em "inúmeros espelhos fantásticos" que accionavam a sua criatividade infinita. Pessoa, aproxima-se da felicidade preconizada por Descartes ao explorar o poder da imaginação, convolando as angústias, as dores e as tristezas em instrumentos que transportam o drama vivido para um palco. Perdendo os dramas na sua essência, relevância e substância, o sujeito passa a   espectador de um teatro, sujeito a poses multifacetadas, centradas num conceito de estética que decorre em vários actos, ensaiados sobre um palco animado.

3.12.12

Sobrevir

"Acorrentarás a minha perna, mas não a minha vontade" ; " Sê como a pedra e serás invulnerável" 
- Epicteto

Albert Camus
Quando Camus considerou que a vida "era uma estrada que se segue com facilidade a maior parte do tempo" não excepcionou as antípodas dantescas onde se pronunciam o céu, por remissão à felicidade que lhe está alienada ou o inferno, ligado à tragédia absoluta associada.

Os extremos, são essas apoteoses que desconcertam a estrada fácil que se trilha por maioria. Todos aspiramos, como o hominis volunt, a viver uma vida tranquila, imperturbada por obstáculos e tempestades que pesam na caminhada como uma cruz agriolhada à esperança. Para nos afastarmos dessa persona indesejada, que geralmente se instala no hemisfério das nostalgias e incertezas, recorremos, tal como Epicteto, à vontade, accionando o antídoto de desvalorização da realidade incómoda que nos afasta do bem-estar, da paz e da tranquilidade desejada. 

Schindler's List
Mas, para lá das constrições gerais, há existências que transportam em si uma fatalidade que balança entre aqueles axiomas pavesianos que anunciam que pior do que nascer é ter a capacidade de sobreviver. E, quando isso acontece, para acabar de vez com qualquer hipótese de esperança, ao sobrevir impõem-se, categoricamente, que sucumba jovem. Como refere George Steiner, este é o modelo do "absolutamente trágico" que nos conduz àqueles homens e mulheres que durante a História surgiram como intrusos indesejáveis da criação. Por isso mesmo, a sua condição predestinada empurrou-os, naturalmente, para o abismo dos sofrimentos e reveses arbitrários, onde todos os passos involuntários são agonias e rejeições inevitáveis devendo, consequentemente, ser liminarmente excluídos como um empecilho no processo omnisciente da selecção natural. 
No Holocausto, judeus, ciganos, deficientes e outros tantos rostos invisíveis proscritos, desafiaram os canônes sociais. Nascer, teria predestinado o encontro inevitável com a tortura e a morte, residindo a aniquilação dos indesejáveis numa purga social que refinava os padrões dos sectores eleitos. 

Confesso que sempre me causou alguma perplexidade o conformismo e a passividade das franjas sociais resignadas com a negação da sua existência, com a marginalização kafkiana em massa, com a aceitação tranquila do abismo, como se o seu destino estivesse intimamente ligado ao niilismo suicida da negação da existência e ao inevitável encontro com o silêncio e a morte. Se pensarmos nos 6 milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial é inevitável interrogarmo-nos porque não ocorreram revoltas significativas, tomadas de poder pelas armas, fugas temerárias, assaltos arrojados aos bastiões dos culpados. Todo o percurso foi marcado por uma lassidão de actos inertes, uma postura apática, maquinal, em direcção a um zenite inevitavelmente trágico. 
Sobrevir à morte, ao "puro nada" é uma astúcia da vida para aqueles seres em que o destino continua a ter uma importância infinita. Decidir do nosso trilho, passa a constituir um imperativo categórico na contingência mais radical do ser, coincidente com o momento em que a consciência descobre que, para ela, a felicidade é uma plenitude que ainda deve compreender a expectativa e a promessa do devir.

12.11.12

Esperança - A esquiva mortal

"Já noite fechada, quando atravessava os bosques de regresso a casa, com a minha fiada de peixes e a vara de pescar a arrastar, vi de relance uma sorrateira marmota cruzando o caminho, e senti um frémito de prazer, estranho e selvagem, tentando-me fortemente para agarrá-la e devorá-la crua; não que eu tivesse fome naquela hora, mas desejava a selvejaria que ela representava. Acontece que uma ou duas vezes, quando vivia perto do lago, dei por mim a explorar os bosques num estranho abandono, como um cão de caça faminto em busca de algum veado para devorar. As cenas mais bárbaras tinham-se tornado incrivelmente familiares que para mim nenhum bocado de carne poderia ser demasiado selvagem." 
Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques 

Bullying
Tinha uma expressão angustiada, como um animal assustado que esperava a qualquer momento uma investida vinda do nada. Franzino, de silhueta ultrapassada, era o mais pequeno da turma, por isso procurava protecção junto de dois mais altos que lhe prometiam algum conforto, na infinita jornada diária. Tinha o cabelo castanho, com jeitos ondulados, que lhe pendia desde um risco ao meio, dando à sua cara ovalada um ar de desespero infantil. Os olhos, castanhos avelã, ficavam frequentemente enevoados, pela humidade das lágrimas presas que surgiam, numa aflição que não conseguia controlar. As mãos, pequenas, desapareciam por dentro das mangas compridas como se procurasse dentro de si uma dignidade desde há muito perdida e que pulsava ansiosa por voltar. Criado pelos avós, o Henrique envergava sempre um tipo de roupas desajustadas aos padrões selectivos do Colégio. Por todo o conjunto foi sendo marginalizado em crescendo. Depois humilhado. Por fim, agredido. Restavam-lhe dois colegas, os mais altos da turma, aqueles que considerava seus protectores. Mas nem sempre estavam por perto. 

Diariamente, arrastava-se para as aulas engolindo todas as chamas de alegria, cedendo a uma angústia que lhe doía no peito, como um tronco cravado sobre os ombros. 
Passava a maior parte do dia enroscado sobre si mesmo. Nas aulas, só falava quando interpelado e as respostas eram tímidas, movidas pelo pânico que a sua voz estilhaçada ferisse quem se encontrava em redor. Nos recreios, procurava sempre os recantos escuros de modo a evitar que tropeçassem na sua sombra ambigua. Quando acontecia, tudo parecia iniciar-se como uma brincadeira inocente. 
Aos primeiros empurrões, vindos não se sabe de onde, seguiam-se as rasteiras, as quedas, o levantar, o voltar a cair, o pontapear, o furto da pasta, o despejar do seu conteúdo no lixo, o dinheiro que desaparecia, o saldo do telemóvel que acabava, as mensagens agressivas, a escuta das conversas, a leitura das mensagens particulares, a tortura gratuita, a gravação dos gritos, a audição e o riso sádico, a hostilidade permanente, o sadismo, os bicos do compasso nos braços e nas pernas, a armadilha, o caos, a memória lamacenta, a dor, o sofrimento, a solidão. 

A secura da boca dizia-lhe que a frescura da tarde se tinha transformado num naufrágio sem regresso. O seu destino estava, irremediavelmente, condicionado pela lei iníqua que o rodeava, adoptada pela maioria, como uma traição à sociabilidade natural. Na escola, a opressão dos colegas obedecia a uma estratégia destrutiva. Para ele, para o seu pequeno mundo, convergiam todas as aflições dos oprimidos, sendo-lhe insuportável a postura de indiferença que lhe era pedida, o heroísmo atribuído, a conformação com a exclusão, a complacente aceitação da humilhação. 

Certo dia, acordou com as mãos húmidas. Tremiam-lhe os dedos e o seu corpo era um palco de emoções controversas. Respirava com dificuldade, sem saber se era do frio ou da pressão que desde há muito sentia mas que agora o abandonava como um peso que lhe tiravam de cima. Acordou transfigurado. Como uma personagem de um acto predestinado. Como se tivesse passado por uma metamorfose ou vencido uma luta, trágica, subtil. Arranjou-se e efectuou o percurso até à escola. Quando aí chegou, determinado, sem angústias nem desassossegos, liberto de todas as temáticas de exclusão, segurou o telemóvel e digitalizou uma mensagem aos dois colegas mais próximos: 

- " Fiz o favor de facilitar o caminho da esperança". 
Esse, foi o primeiro dia do Henrique na escola nova.

6.11.12

O Deserto de Sal do Kalahari

Deserto de sal Makgadikgadi - Kalahari Central
Todas as Primaveras, movidos por um relógio biológico que pulsa em uníssono, milhares de espécies iniciam uma verdadeira odisseia, percorrendo centenas, por vezes, milhares de quilómetros nas grandes migrações. Norteados por uma força genética instintiva, todos convergem para um zénite, como se aí se operasse uma revelação, a epifania do "vale encantado",ou aquele lugar por detrás do arco-íris, com a abundância bíblica das terras onde corre o leite e o mel. Como em todas as formas cénicas, a pulsação natural tem também aqui a sua quota parte de tragicomédia. Onde existe vida e esperança, existe também desespero e morte. Onde se antecipa a tranquilidade de um campo de papoilas de Monet, em Argentail, também se vislumbram imagens de destruição de Goya, e a loucura alucinada de Saturno. É nesta medida pendular dos dois extremos que se compreende a tenacidade inabalável de qualquer migração. A secura, a aridez e a desertificação, geram um sentimento nómada de convergência para os locais onde emergem os sinais de sobrevivência. Mesmo que a travessia seja feita à imagem da Via Dolorosa, com todas as Estações, até chegar à Igreja do Santo Sepulcro. É assim a travessia dos elefantes do Mali, quando cruzam o Sahara, dos gnus quando viajam do Quénia para a Tanzânia, das águias e dos falcões peregrinos quando voam do Mississipi para o Canadá e o Ártico. No entanto, poderá parecer estranho quando uma espécie se predispõe, repetidamente, a fazer o contrário. Partir das terras paradisíacas, do Delta do Okavango, para as planícies de pedra e sal do Deserto do Kalahari, parece, à priori, configurar a tragédia absoluta, naquela forma dramática dos seres niilistas que preferem ir ao encontro da tortura e da morte, ao invés de permanecerem na tranquilidade dos prados verdes. Se ficarmos atentos, acabamos por perceber a razão. Aparentemente inóspito, branco da cor do sal, vazio, violento e infinito como o silêncio onde só se ouve a pulsação e a própria respiração, o deserto de sal do Makgadikgadi, no Kalahari, é um óasis de sobrevivência para inúmeras espécies. Aves de grande e pequeno porte, flamingos, zebras e outros mamíferos, indiferentes às dificuldades do percurso, procedem a uma longa viagem migratória com o objectivo de ingerirem os minerais depositados no sal, essenciais à sua constituição, à biodiversidade e ao equilibrio ecológico da região. Perfeitamente adaptados à aridez do local, permanecem aí até às primeiras chuvas, altura em que o seu relógio biológico se apressa a ditar-lhes nova migração até ao Delta do Okavango. O regresso, será efectuado sempre, ciclicamente, na próxima estação.

1.11.12

Reflexões sobre o EU de todos nós


Todas as variáveis se concentram no sujeito. Aquele estranho que transportamos dentro de nós e que nos desafia sobre os enigmas do desconhecido. "Nenhum Caminho será Longo" é uma viagem dentro do nosso tempo, que questiona e suscita uma análise introspectiva como se cada um de nós fosse um projecto inacabado susceptível de mutações e incertezas. 

Numa prosa fluida, acolhedora, redentora das nossas perplexidades, Tolentino Mendonça identifica-nos como um reservatório por onde passa o tempo. Um tempo que causa dúvidas, constrangimentos e estranhezas. Um tempo, por vezes, demolidor das nossas convicções, surpreendentemente desafiador das nossas certezas, mesmo aquelas que sempre consideramos imutáveis. Tolentino refere a nossa perplexidade quando nos confrontamos com o intruso que surge dentro de nós e nos faz, certo dia, observar ao espelho e questionar "Quando eu me vejo, quem vejo? Quando eu me olho, é a mim mesmo que observo?". Surpreendermo-nos com nós próprios é o maior desafio e a maior incerteza, e é nesse momento que o passado constitui um fluxo de cinzas para passarmos a encarar o presente e o futuro como uma luminosa descoberta. Com um discurso previsivelmente teológico, Tolentino confronta-nos com os mistérios divinos, onde "Deus é uma pergunta, Deus é um assombro, Deus é um desconhecido". 
Camus
Contudo, foi a mensagem introspectiva que me despertou curiosidade e a recondução a outros autores que se debruçaram na mesma linha. Camus é aquele que refere que "começar a pensar é começar a ser consumido", desenvolvendo no seu livro "O Mito de Sísifo" uma análise sobre o jogo mortal que vai da lucidez perante a existência, à evasão fora da luz, ou quando o suicídio é a resposta para uma existência que deixou de valer a pena viver. É nesta mutação, nesta epifania inacabada, que todos nos situamos, uns mais do que outros, constituindo o factor determinante, a crise incontrolável que nos assalta, e que nos leva a questionar o inquestionável. 
Frederico Nietzsche
A resposta, dependerá da degladiação de cada um com as suas sombras, podendo oscilar o divórcio entre a agitação quotidiana da vida e a renúncia a todos os sofrimentos, por se entender que deixou de valer a pena o esforço de viver. Na encruzilhada, caso a opção seja feita pela verdade da descoberta, depois do percurso, depois das trevas e de "todos os lugares desertos e sem água", como referia Jaspers, chegamos à última curva do pensamento, onde o verdadeiro esforço reside em nos aguentarmos firmes até ao fim, examinando os primeiros indícios do oásis que criamos, onde rebentam pequenas gotas de clarividência e tenacidade numa vegetação subtil feita à nossa própria imagem. A "esquiva mortal", como refere Camus, constitui a fórmula da vitória absoluta sobre o deus que se instalara, cheio de insatisfações e com um gosto sádico pelas dores inúteis. É na transposição desse mundo obscuro que reside a alegria silenciosa. 
É na subtileza de reconhecer o sol, depois da noite, num esforço de descoberta que nunca mais cessará que se articula na perfeição o binómio feliz da esperança e da alegria. Tal como Nietzsche descreve é esse o momento em que ultrapassamos os medos do desconhecido, todas as inquietações enigmáticas, todos os receios, desaguando numa volúpia do conhecimento com a sensação de paz  assegurada e a certeza da segurança recuperada.

27.10.12

Cantino - O espião dos Descobrimentos

Planisfério de Cantino - 1502
Chamam-lhe a segunda profissão mais antiga do mundo. Cantino, espião italiano que se deslocou a Lisboa, pelo ano de 1502, foi incumbido, a soldo do Duque italiano de Ferrara, de subornar um cartógrafo português para que lhe efectuasse uma reprodução do grande planisfério das cartas reais de navegação, tesouro guardado a sete chaves, na Casa da Guiné e da Mina. As cartas de navegação constituíam segredo de Estado, sendo a sua divulgação a estrangeiros punida com pena de morte. "State of the art" da cartografia do mundo novo, na sequência das descobertas de África, Índia e Brasil, cada nova expedição envolvia um conjunto de figurantes que desempenhava um papel predominante na cartografia nacional. Pilotos, comerciantes, militares e religiosos ao serviço do reino, tinham por missão indagar, junto dos mercadores e viajantes locais, sobre a topologia dos lugares, ao longo da costa e terra dentro, de modo a anexa-los ao universo dos territórios descobertos. Dessa informação dependiam as novas inscrições no grande planisfério, que ia tomando os contornos do mundo, no local que concentrava todos os esforços dos Descobrimentos e da marinha portuguesa, junto ao Paço da Ribeira, no que é hoje o torreão poente do Terreiro do Paço. Cantino, conseguiu infiltrar-se e, a troco de 12 ducados de ouro, obteve uma reprodução das praças fortes, dos portos, das expedições e, principalmente, das rotas comerciais marítimas portuguesas para a Índia, que haviam despojado os mercadores italianos do comércio terrestre com o Oriente. Anunciado o êxito da missão a Hércules I d'Este, duque de Ferrara e Modena, Cantino regressou a Itália com o novo planisfério e com a descoberta do novo continente das Américas, dois anos antes, por Pedro Álvares Cabral representado por árvores verdes e douradas, arbustos azuis e por papagaios de cor predominantemente encarnada. A espionagem produz sempre lesões irreversíveis, tendo o acto de Cantino contribuído para a perca da guerra comercial, diplomática e científica de D. Manuel I, quando Portugal ainda julgava que a supremacia dos mares e o comércio estratégico das especiarias se iria manter por período muito superior aquele que, efectivamente, nos proporcionou uma curta hegemonia no panorama mundial. 

Caído no esquecimento, o planisfério de Cantino permaneceu por três séculos em parte incerta até que, em 1859, o director da Biblioteca de Modena, o italiano Giuseppe Boni, entrou numa salsicharia. Ao examinar o estabelecimento, os seus olhos pousaram num antigo pergaminho desenhado que servia de cortina. Negociou a sua aquisição e após um exame minucioso, o planisfério revelou tratar-se de uma das mais antigas cartas conhecidas, onde figurava a costa do Brasil e a linha do Tratado de Tordesilhas.  Conhecido como o planisfério de Cantino, em 2009, regressou ao local do crime, tendo estado em exposição em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga.

22.10.12

Henry David Thoreau - Walden ou a Vida nos Bosques

Henry David Thoreau (1817-62)
"O meu vizinho mais próximo fica a mil e seiscentos metros daqui, e não se avista nenhuma casa a não ser do alto da colina, a oitocentos metros da minha. Tenho o horizonte orlado de bosques e todo para mim; de um lado, a vista da longínqua ferrovia ao atingir o lago, da outra banda a da cerca que contorna a estrada da região florestal. Mas na sua maior parte o sítio onde moro é tão solitário como as pradarias. É tão Ásia e África como Nova Inglaterra. Tenho, por assim dizer, meus próprios sol, lua e estrelas, e um pequeno mundo só para mim. Nunca um viajante passou à noite pela minha casa ou veio bater-me à porta, quase como se eu fosse o primeiro ou o último dos homens;(…)" 

"Se como uma aranha eu fosse confiado a um sotão pelo resto dos meus dias, o mundo para mim seria imenso desde que estivessem comigo os meus pensamentos". 


É curioso quando iniciamos a leitura de um livro e de repente, como se o imprevisível estivesse ao virar de cada página, sentimo-nos identificados com as descrições, a filosofia, a linguagem, as emoções e os sentimentos do autor. Com a convicção de um princípio divino, no interior de cada homem, e defendendo o direito ao sancionamento individual nas questões da fé, Thoreau, um dos percursores do Transcendentalismo, conta-nos, em modo auto-biográfico, o retiro que efectuou, por opção própria, durante dois anos, nas margens do lago Walden, nos arredores de Concord, Massachusetts.

Entregando-se à contemplação, o autor adoptou uma prosa nitidamente metafórica expondo, de forma admirável, o intimismo reflexivo que desenvolveu consigo próprio e as considerações que teceu sobre o mundo natural que o rodeava. Zelando em exclusivo pela sua subsistência, Thoreau foi criando vínculos, superando o isolamento e quebrando as barreiras naturais que se levantavam à sua permanência num meio desconhecido e hostil. Estabeleceu relações com os animais, as árvores, a chuva, os lagos, as distâncias, as estações, o sol e a lua, a noite e o dia. Laços que o ajudaram a compreender o silêncio da floresta, afinal cheia de ruídos conhecidos, como o "canto dessa ave forasteira celebrado por poetas de todos os países" ou "uma gralha azul gritando estridente à janela" da casa construída pelas suas próprias mãos. 
"Em vez de frequentar um erudito, fiz muitas visitas a certas árvores, de espécies raras nas circunvizinhanças, dessas que se isolam no meio de uma pastagem, no coração de um bosque ou de um pântano, ou no cimo de uma colina" 

Lake Walden - Concord - Massachusetts
Thoreau aligeirou as diferenças e enalteceu as semelhanças. Quebrou fronteiras e amenizou a solidão que poucas vezes sentiu, como refere numa das suas passagens do livro. Não tendo natureza de ermitão Thoreau eleva os aspectos individualistas da existência humana, inspirando-se na ênfase Platónica do sujeito e na hegemonia da natureza sobre a sociedade. Refugiando-se num mundo feito à sua medida, natural e transparente, com o qual estabelecia diálogos, exaltava a mente, desenvolvia capacidades reflexivas e produzia poesia, Thoreau, num ecletismo romântico, desafiou os jovens que se acercavam da floresta, para pescar e caçar, a deporem os seus instrumentos bélicos e a dedicarem-se à introspecção do seu mundo individual, tendo como premissa que 
"Todo o homem é senhor de um reino ao lado do qual o império terrestre do Czar é apenas um estado minúsculo, um montículo deixado pelo gelo". 

Thoreau enalteceu a capacidade para apreender a verdade, preconizando a consciência como guia moral e a inspiração como fonte criadora da literatura. Herdeiro tardio do optimismo de Rousseau, a sua influência viria a ecoar nas filosofias de resistência passiva de desobediência civil, das quais os movimentos de independência e equidade social, liderados por Gandhi e Martin Luther King, respectivamente, são os exemplos de maior sucesso, num conturbado séc:XX.

19.10.12

Michelangelo - O Regresso às Origens

Moisés - 1513/15 - Michelangelo
Depois de dedicar quatro anos da sua vida ao tecto da Capela Sistina, Michelangelo regressou, finalmente, ao martelo e ao cinzel, com ganas de recuperar o tempo perdido. Saudoso dos grandes blocos de mármore, que tinha deixado em suspenso no estaleiro da nova Basílica de São Pedro, Michelangelo, com uma explosão de energia criativa, atirou-se a seis grandes nus masculinos e a Moisés, o colossal profeta judeu que ficaria no centro do monumento funerário dedicado ao papa Julius II. Pioneiro no estilo non finito, que levaria mais tarde a sua chancela, Buonarroti antecipou os movimentos cubistas e impressionistas do futuro, dando um aspecto inacabado às suas esculturas, explorando conceitos que o colocaram na vanguarda renascentista. Minimizando a decoração e os trajes das suas obras, Buonarroti explorou os drapeados e os nus, produzindo peças que eram reflexo de um conjunto de princípios e ideias relacionadas com a formação multidisciplinar que recebeu na corte dos Médicis, em Florença. 

Conciliando duas culturas com origens comuns, Michelangelo projectou a estátua de Moisés, para o coração da Basílica de São Pedro. Moisés, o profeta que contactou com Deus no Monte Sinai, foi aquele que atingiu o mais alto nível de espiritualidade e a quem foram confiadas as Tábuas da Lei. Tocado por Deus, a sua face irradiava uma luz divina o que o obrigou a usar uma máscara para não ferir os olhos dos seus irmãos israelitas. Animado pelo fascínio que sentia pelas estórias do Antigo Testamento, Michelangelo representou Moisés com o seu dom profético, animado pela visão do futuro longínquo da humanidade. Adoptou para isso a mesma técnica utilizada em David, afastando ambos os olhos e aprofundando-os obtendo um resultado etéreo, com o profeta fixo no infinito, nunca fitando directamente o observador, seja qual for a posição em que se encontre dentro da Basílica. Buonarroti dedicou-se de corpo e alma a esta obra. Quando a concluiu, diz-se que o seu realismo era tal que Michelangelo colocou as mãos nos ombros do profeta e lhe gritou: "Fala, caramba, fala!", como se às pedras se desejasse instigar o dom da vida.

16.9.12

Os Segredos da Capela Sistina (7)

Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Profeta Jeremias
Numa evocação metafórica aos "olhos de Deus que perscrutavam toda a terra", Michelangelo elegeu sete profetas e colocou-os estrategicamente à volta do tecto da Sistina. Sete profetas que observam o que se passa na Capela e no Mundo remetem-nos, inevitavelmente, para os Sete Dias da Criação, mas também, para algumas das principais teorias esotéricas do universo judaico. Sete são os degraus espirituais da Middot que nos aproximam de Deus. Sete é o número de velas do candelabro sagrado da Menorah. Sete foram as Nuvens de Glória que protegeram os Filhos de Israel despojados de pátria, de solo e de sossego, enquanto erraram pelo deserto. Sete são também as características das sete esferas inferiores da Árvore da Vida. Com correspondências cabalísticas directas os sete profetas ajustam-se, na perfeição, à mensagem de redenção espiritual, não só para os judeus, mas também para o resto da humanidade.

Michelangelo demonstrou inúmeras vezes que a encomenda da Sistina constituiu um calvário e um desafio às suas capacidades físicas. O esforço que dedicou e a incorrecta postura física que o obrigou, durante 4 anos, a pintura do tecto, tiveram repercussões até ao final da sua vida. Talvez por isso tenha efectuado com especial empenho as últimas duas figuras, inserindo uma quantidade superior de mensagens ocultas em redor dos dois profetas que sobrevoam o trono papal. Jeremias, o lúgrebe profeta, expõe-nos com uma expressão pesarosa o seu lado esquerdo, considerado o mais sinistro, observando apreensivo o trono papal. Jeremias, (ao qual já me referi aqui) foi o profeta que se insurgiu contra a corrrupção infiltrada entre os sacerdotes e os líderes do seu tempo, profetizando a devastação de Jerusalém e advertindo o povo para que se rendesse aos babilónicos. Acusado pelos judeus de traição, Jeremias seria poupado por Nabucodonosor. A sua desolação seria luminosamente revelada, mais tarde, numa das obras primas de Rembrandt que se encontra hoje no Rijksmuseum de Amsterdam.

Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Profeta Jonas
Mas, é precisamente em Jonas que se escondem algumas das mensagens secretas de Michelangelo, numa correspondência biográfica entre a sua vida e a de um profeta relutante, forçado, pela vontade divina, a deslocar-se de Israel para a cidade corrupta e pagã de Nínive, de modo a suscitar o arrependimento dos seus habitantes, neutralizar a idolatria pagã e converter as massas ao Redentor. Tal como Jonas, Michelangelo foi igualmente requisitado pela autoridade divina papal, obrigado a deixar Florença, a sua paixão pela escultura e os Médicis seus patronos, instalando-se na luxúria do Vaticano e na corrupção de Roma. Temendo pela sua vida, Jonas tenta fugir às ordens de Deus, fugindo de Nínive e do seu destino.  Embarca no primeiro barco que se dirigia em sentido contrário, rumo a Társis. Durante a viagem, o barco é fustigado por uma tempestade e Jonas acaba engolido por um peixe gigantesco onde permanece, por castigo divino, três dias e três noites. Arrependido, Jonas decide seguir para Nínive sendo regurgitado numa praia da costa.

Michelangelo faz de Jonas o porta voz final e mais eloquente da Capela Sistina, pois viu nele o seu alter-ego, um profeta relutante forçado pela vontade divina a realizar uma missão que pretendia evitar a todo o custo. É com os quatro capítulos do livro de Jonas que se fecha o Yom Kippur, o dia mais sagrado para os judeus, e foi com Jonas que Michelangelo concluiu o tecto da Capela Sistina. A sua mensagem, sustenta a obrigação de ajudar os perversos a afastarem-se das suas inclinações nocivas de modo a evitarem a ira divina. Michelangelo encontrava-se profundamente chocado com a corrupção da Igreja, gerida numa ânsia de luxos e riquezas que subvertia toda uma política de transparência cristã. A Biblia diz-nos que um sistema profundamente mergulhado na corrupção foi em tempos salvo pelo arrependimento e pela palavra de Jonas. Nínive, a cidade pecaminosa aprendeu a lição mais importante, a de que nunca devemos desistir dos pecadores, pois nunca é demasiado tarde para acreditarmos na sua redenção.

1.7.12

Os Segredos da Capela Sistina (6)

Joel
Sibila Délfica
No universo católico de quinhentos, barroco e circunscrito a um ambiente inquisitório de caça às bruxas, ninguém imaginaria que flutuaria por cima dos Concílios Ecuménicos, uma atrevida concepção do mundo baseada nos princípios judaicos do Talmude e da Cabala. O Papa Julius II, sem recear que o céu lhe caísse em cima, pactuou com as liberalidades de Michelangelo, dando-lhe carta branca para retratar, a trinta metros do solo, um conjunto de individualidades que, certamente, iria perpetuar o seu pontificado para a eternidade. O grupo de figuras gigantescas que Michelangelo concebeu é surpreendentemente heterogéneo. Ao lado dos sete profetas hebraicos foram adicionadas cinco sibilas pagãs numa prática que, logo após os trabalhos da Capela Sistina, rapidamente se converteria numa tendência definitiva da pintura renascentista.
Distribuição dos frescos Tecto da Capela Sistina
O que é que une o paganismo ao judaísmo? Em comum têm o facto de nunca olharem para o solo. Olhar para o chão é um sinal redutor que circunscreve os homens ao momento presente. O grupo, desenvolve actividades visionárias tendo em mente apenas uma finalidade comum: o futuro. Todos eles, à excepção de Jonas, o profeta que viveu três dias na barriga de um peixe,  contêm um pergaminho ou um livro na mão, como sinal da sua literacia e da sua capacidade de ler nas entrelinhas. Apelando à intelectualidade das várias facções da cultura, Michelangelo responde por remissão para a origem da palavra "intelectual", inter-leggere, ou seja, aquele que raciocina e tem a faculdade analítica de avaliar a densidade dos vários níveis propostos, procurando nas entrelinhas o todo compreensível para o universo suscitado. Podemos especular quais as razões que levaram Michelangelo a retratar as Síbilas e os Profetas com pergaminhos nas mãos mas não deixa de ser curiosa uma história que antecedeu as obras da Capela Sistina e que envolveu o artista e o Papa Julius II.



Daniel
Em Bolonha, cidade pela qual Michelangelo não nutria uma particular simpatia, Julius II encomendou-lhe a execução de uma estátua sua, em bronze, a colocar na catedral, projectando o egocêntrico papa para a posteridade. Segundo reza a história, Michelangelo terá simulado em barro essa estátua, pedindo a aprovação do papa sobre os seus acabamentos, nomeadamente, se Julius II queria ser retratado com um livro na mão, sinal da sua cultura e eruditismo. Indignado, o papa exclamou que não era nenhum académico mas um guerreiro, por isso aquilo que deveria ter na mão era uma espada e não um livro. Talvez por isso, quando anos mais tarde a estátua de Michelangelo veio a ser, infelizmente, fundida para a construção de um enorme canhão, tenha sido "baptizado" com o icónico nome de "Júlia".
Jonas
E porquê sete profetas? O papa terá achado surpreendente que, de todos os profetas escolhidos por Michelangelo, nenhum dos sete - Zacarias, Joel, Isaías, Ezequiel, Daniel, Jeremias, e Jonas - fosse um herói do Novo Testamento. Michelangelo optou por profetas hebraicos, com origens no Antigo Testamento, assim como omitiu todas as Síbilas que, na doutrina cristã, anunciavam a vinda de Cristo. A explicação para estas opções poderá ser encontrada na sua formação, na Academia Platónica de Florença e, numa concepção particular do universo, inspirada numa multidisciplinariedade cultural, com relevo para os ensinamentos do Talmude e da Cabala.
Ezequiel
Relativamente aos sete profetas, o que nos ocorre de imediato são os sete dia da Criação. Segundo a Cabala, não foi só o universo material, mas a própria Realidade que foi criada durante esses sete dias e os sete profetas judeus representados ajustaram-se na perfeição a esta mensagem, uma vez que anunciavam uma futura redenção espiritual, não só para os judeus mas para toda a humanidade.
Outro significado-chave do número sete é a sua ligação às sete chamas da Menorah, o candelabro sagrado de sete braços que se encontrava no interior do Templo de Jerusalém.
Curiosamente, à data da elaboração dos frescos de Michelangelo, encontravam-se, precisamente, no topo do gradeamento que divide o interior da Capela Sistina, sete chamas de mármore que viriam a ser oito, alguns anos mais tarde, por acção de um futuro papa interessado em desmistificar as associações com a Menorah.
Sobre as mensagens de alguns dos profetas, falaremos já a seguir.

23.5.12

Os Segredos da Capela Sistina (5)

Michelangelo Buonarroti - Tecto da Capela Sistina
Profeta Zacarias - retratado como Julius II

David e Golias
Quem já teve oportunidade de visitar o Museu do Vaticano sabe que, para chegar aos frescos de Michelangelo, é necessário percorrer uma via sacra de alas e corredores sem fim, admirar, sem tempo, centenas de obras que mereciam mais tempo de contemplação, subindo e descendo dezenas de escadas que revolteiam e serpenteiam as labirínticas entranhas do Vaticano. No final, somos compactados, numa fila impaciente, antes de sermos literalmente atirados para dentro da Capela Sistina, por uma pequena porta de sacristia onde os visitantes pressentem a eminência de uma excelsa revelação divina. Convergindo para a entrada somos confrontados com um céu azul universal. No tecto, as figuras bíblicas tomam forma, sacudindo o visitante com um frémito embasbacado como se de uma bala sagrada gatilhada por alguma força superior pairasse sobre as nossas cabeças. E é então que todos, em uníssono, deitam a cabeça para trás e escoram o corpo desequilibrado ao chão. E nem o altar-mor do Juízo Final com o Rei Minos condenado a viver com os genitais abocanhados por uma serpente venenosa nos distraem da harmonia celeste do Princípio dos Homens. Por cima, reencontramo-nos com as resignações do Velho Testamento. A Criação de Adão, o Pecado Original, as Síbilas, os medalhões, as grinaldas, os nus gigantes, os nus de bronze, os putti e os 7 Profetas, emoldurados pelos Quatro Cantos do Universo. Mas nem sempre foi assim. 
No tempo de Michelangelo, a entrada na Capela Sistina fazia-se pela majestosa porta dos pontífices e não pela atarracada porta de sacristia, ao lado do altar principal. Hoje, o visitante não tem a perspectiva, nem o impacto, do santuário idealizado por Michelangelo. Com a nave à sua frente, o visitante mergulhava, progressivamente, nas imagens e numa profusão de símbolos, adquirindo uma visão orgânica da capela, onde o todo se complementava, numa carga sensorial que atarracava qualquer um, à medida que progredia por dentro do templo. 
Judite e Holofernes
Com 1.100m2, Michelangelo dissimulou, no maior fresco do mundo, mensagens perigosas, com uma técnica de prestidigitador. Combinando diferentes ingredientes, de forma inovadora, conseguiu distrair o espectador comum, das mensagens subliminares que se destinavam a criticar o poder de Roma. Por um lado, bajulou Julius II, por outro, amaldiçoou-o. Julius II foi um Papa controverso. Sobrinho de Sisto IV, herdou do tio a corrupção dos Della Rovere, a prepotência de Roma, o ódio aos Medici e o gosto pela opulência e pelas artes que valeram ao Vaticano a criação de um dos melhores museus de arte do mundo. Interessado em consagrar o nome e o seu prestígio para a posteridade, encomendou a Michelangelo o tecto da Capela Sistina, recomendando-lhe que retratasse Jesus Cristo, por cima do local onde normalmente se sentava. Curiosamente, Michelangelo, não só não o fez, como não colocou nenhuma figura do Novo Testamento no tecto. Ao invés, Michelangelo retratou, no local encomendado para Cristo, um dos profetas hebraicos mais messiânicos, escolhendo, curiosamente, Zacarias. De modo a apaziguar o seu mecenas, Michelangelo pintou o rosto de Zacarias à imagem de Julius II, vestindo-o com uma túnica azul-marinho e dourada, as cores tradicionais dos Della Rovere, o que certamente terá agradado ao egocêntrico papa.

Porque se terá Michelangelo recusado a retratar Jesus Cristo? A razão prende-se, provavelmente, com duas das profecias de Zacarias. A primeira, segundo as escrituras, atribui-se a Zacarias uma exortação feita ao clero do Segundo Templo de Jerusalém, apelando à modificação dos comportamentos corruptos e pouco espirituais, sob pena de as portas do Santuário poderem vir, no futuro, a ser derrubadas pelos inimigos, facto que, efectivamente, veio a ocorrer no ano de 70 d.C., com a conquista de Jerusalém pelos romanos. A segunda razão, prende-se com o facto de Zacarias ser o profeta da consolação e da redenção reivindicando a reconstrução do Segundo Templo de Jerusalém. À sua maneira, Michelangelo transmite-nos a corrupção existente no pontificado de Julius II, bem como o facto de rejeitar que uma cópia fiel do Templo seja efectuada numa cidade estrangeira, ao invés da sua reconstrução ocorrer na cidade prometida de Jerusalém. Nos quatro cantos do tecto, consagram-se 4 episódios bíblicos que representam quatro momentos determinantes de emancipação do povo judeu. Em relação aos gregos - Judite e Holofernes -, aos babilónicos - David e Golias -, - aos persas - a rainha Ester e Haman -, e aos egípcios - Moisés e a praga das serpentes -. Nos quatro cantos do Universo, dois homens e duas mulheres de relevo do Antigo Testamento, enunciam a força masculina associada à compaixão feminina, oferecendo-nos a representação da personificação humana e a harmonia sexual divina, num equilíbrio místico que, segundo a Cabala, é a chave da perfeição celeste. Quanto ao profeta Zacarias, não deixa de ser curioso observar de perto os dois anjinhos "putti" que o observam por detrás e que servem de figurantes com a função de murmurar ao observador os verdadeiros pensamentos do artista. Michelangelo, não nutrindo particular simpatia pelo papa corrupto, procurou deixar uma mensagem, secreta e subliminar, no suposto tributo a Julius II. Se repararmos com atenção, os putti, olhando por cima do ombro do profeta, observam o seu livro com despreocupação. Aparentemente alheios, um dos anjos apoia-se no outro fazendo, com a mão discretamente camuflada, "figas" o que, numa versão medieval, equivaleria nos dias de hoje a levantar o dedo médio a alguém ou, de uma maneira mais coloquial, "mandar alguém à merda". Num gesto, intencionalmente vago, a mensagem não podia ser mais clara.

8.4.12

Os Segredos da Capela Sistina (4)

 Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Tecto da Capela Sistina
 A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso
A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: " É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?" A mulher respondeu-lhe: "Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis". - Genesis 3, 1-3

Lourenço de Médici (1449 – 1492)
Com apenas vinte anos, qualquer jovem educado numa corte erudita sentir-se-ia mais inclinado a desfrutar os prazeres lúdicos da vida do que a assumir o papel de patriarca da casa dos Médici. Porém, Lourenço, o Magnífico, investiu-se no cargo com a maior dignidade e sonhou magnanimamente em tornar Florença numa Atenas sobre o rio Arno. Acolheu no seu círculo cultural uma multidisciplinaridade de matérias, algumas, potencialmente explosivas para a época, estendendo a sua protecção e filantropia a áreas não só condenadas, mas também rotuladas de heréticas por Roma. Nesta designação incluíam-se, certamente, os estudos judaicos da cabala e as obras de Platão, resgatadas por Cósimo, que estariam na génese do pensamento filosófico da escola de Florença. Reconhecido em toda a Europa, o núcleo constituía uma sombra incómoda ao conservadorismo papal de Roma, ao monoteísmo cristão e aos ensinamentos de Aristóteles, acolhidos pelo Vaticano. Lourenço, preocupado em limar cisões, deslocou-se a Roma, em 1471, com o intuito de prestar tributo ao Papa, mas as suas diligências não foram suficientes para Sisto IV lhe perdoar o atrevimento das liberalidades culturais adoptadas. Determinado em destruir os Médicis, o papa retirou-lhes o monopólio da venda de alúmen ao Vaticano, atribuindo-o aos Pazzi, seus inimigos mortais que, em jeito de estucada final, conspiraram para assassinar Lourenço e o seu irmão Giuliano, por altura de uma missa, na Catedral de Florença. No meio da eucaristia, Giuliano morre apunhalado pelos mandantes dos Pazzi, tendo Lourenço conseguido escapar ferido, pelos subterrâneos da Catedral. Os anos que se seguiram, seriam dedicados à reconstrução das finanças e do prestígio da família, ao alargamento das relações comerciais, ao patrocínio de novos talentos e à encomenda de obras de arte que constituiriam, para as gerações futuras, o grande legado do Renascimento.

É nesta conjuntura tumultuosa que Michelangelo é descoberto por Lourenço. Acolhido na corte, o jovem escultor partilhou com os filhos dos Médici as aulas dos mestres eruditos. Ghirlandaio, Beltoldo e o poeta Poliziano foram seus mestres, mas seriam Ficcino e Pico della Mirandolla que seriam os artífices carismáticos responsáveis pela ponte intelectual que lapidaria a personalidade de Michelangelo. Educado numa fé plural e universal, que preconizava a harmonia entre o monoteísmo cristão, o pensamento platónico e a cabalistica judaica, Michelangelo foi instruído que a "Fonte Única" constituía a convergência para a redenção individual. Sabemos que Michelangelo estudou profundamente o Midrash, o Talmute e a Cabala, tendo integrado, secretamente, os seus princípios em todas as figuras bíblicas que formam o tecto da Capela Sistina. No díptico que compõe a cena da expulsão do Paraíso observam-se três momentos que, numa primeira impressão a ilustração parece típica da história à qual a Igreja dá o nome de "pecado original". No entanto, se observarmos a cena atentamente, verificamos que Michelangelo introduziu, subversivamente, alguns detalhes que fogem à divulgação cristã, nomeadamente, quanto ao fruto proibido. A única excepção a esta interpretação ocorre precisamente nos ensinamentos judaicos onde, a árvore do Conhecimento, é uma figueira. Michelangelo retratou, no tecto da capela Sistina, uma figueira sendo o fruto oferecido pela serpente a Adão, não a clássica maçã, nomeada no cristianismo, mas antes, um figo, nos termos do Antigo Testamento. Michelangelo, de acordo com as Antigas Escrituras, promove em Adão a iniciativa de recolha e aceitação do fruto proibido. Esta postura, contraria a teoria cristã que remete para a mulher a responsabilidade do papel de prevaricadora, provocadora e pecadora. Eva, conforme todos nos ensinaram, estende a maçã a Adão, num movimento mímico atrevido, conveniente para o papel de subalternização da mulher, construído e difundido pela hegemonia católica. Mas, na realidade mistica das escrituras, não é assim que reza a história. Se lermos o Antigo Testamento, de acordo com a aclamação professada na doutrina judaica, a Árvore do Conhecimento - do Bem e do Mal era uma figueira e não uma macieira. Daí que Michelangelo tenha optado, numa abordagem inédita para a época, por partilhar a culpa entre o casal primordial, algo que nunca havia sido aflorado em nenhuma representação ocidental, e que se enquadra nos ensinamentos do midrash.
Outra particularidade, que tornou esta pintura imprópria para a pudicícia cristã, até aos finais do séc:XIX, refere-se à escandalosa sugestão que, no primeiro momento da cena, à esquerda, nos oferece a postura de Adão e Eva. É que, ambos, não tendo ainda cometido o pecado original, e inocentes da sua nudez, aparecem aqui numa pose, claramente constrangedora para os olhos incautos dos renascentistas e iluministas, produzindo sugestões maliciosas aqueles que, não tendo, à data, aptidões cinematográficas, conseguiam facilmente equacionar o desfecho matemático, após a rotação da face da inocente Eva.