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21.9.11

Turquia - Ephesus - A Biblioteca de Celsus

Para lá dos arcos, as casas romanas com varanda, os anfiteatros, as fontes e as estátuas dos deuses entrelaçados nas colunas dos templos, contam os segredos que fizeram de Ephesus a segunda maior cidade do Império Romano. Com uma história que remonta a 500 a.C. Ephesus, localizada na costa ocidental da Ásia Menor, atravessou vários períodos de apogeu e decadência, desde o período clássico grego, quando a cidade era palco de peregrinações ao Templo de Ártemis - uma das 7 Maravilhas do Mundo Antigo – , até ao período romano quando o Apóstolo João redigiu aqui o seu Evangelho e fundou, neste lugar, uma das 7 Igrejas da Ásia citadas no Livro do Apocalipse.
Apressei-me a descer a rua Kurets. Queria chegar à Biblioteca o mais depressa possível. De ambos os lados da rua, o contorno de vilas romanas. Casas abastadas, com ladrilhos elaborados ao estilo de Pompeia.Em redor, templos, altares, os banhos da cidade, os anfiteatros e todo um conjunto arquitectónico que sugere o movimento de outrora. Com uma população de cerca de 250.000 habitantes, Ephesus foi um porto mercantil importante que ligava as rotas do Oriente ao Ocidente. Outrora, localizada nas margens do Mar Egeu, Ephesus encontra-se, agora, após séculos de assoreamento, a 6Km do mar. As ruas da cidade, ainda se encontram pavimentadas pelas lages de mármore sulcadas pela passagem dos atrelados. Abundam as fontes e os bebedouros estilizados, as colunas com deuses e figuras mitológicas, e a larga avenida de Constantino que liga o Grande Teatro ao antigo porto de mar. No largo, ao fundo da rua, ergue-se a Biblioteca de Celsus. O edifício mais majestoso de Ephesus e, sem dúvida, aquele que prendeu a minha atenção. Com dois andares e uma fachada ricamente decorada, as 4 estátuas do pórtico personificam as Deusas da Sabedoria, Conhecimento, Destino e Inteligência. A biblioteca foi erigida por Caio Júlio Áquila, em homenagem ao seu pai Tibério Júlio Celso Polemeno. Apesar do seu interior ser relativamente exíguo, chegou a albergar 12.000 “rolos”, tendo sido uma das mais ricas bibliotecas da antiguidade.
Fotogr: CRV©

29.1.11

Agnes Keith - "Three Came Home"

Estava um dia quente e húmido, daqueles que provocam o desconforto típico das latitudes tropicais. Deslizavamos por uma estrada decorada com uma alameda de árvores frondosas que projectava um tapete de sombras no alcatrão. A velocidade era amena, o suficiente para o vento rodopiar em torno dos meus cabelos aproveitando, com uma mão tombada para fora, a brisa suave que conseguia agarrar e que se entrelaçava por entre os meus dedos. A estrada  que liga Sandakan a Kota Kinabalu, atravessa o Norte do Borneo, serpenteando o sopé do  monte Kinabalu, que se ergue a uns majestosos 4.000m de altitude, por entre plantações de chá, algumas hortas caseiras e a escassa floresta virgem que ainda se desenha ao longo dos cursos de água. Restos de um ecossistema minado pela furiosa delapidação do homem, movido pelos interesses económicos relacionados com as energias renováveis. Mais à frente, palmeirais a perder de vista e a consciência que 90% da biodiversidade da região desapareceu com o abate da mancha verde. Ao observar a paisagem recordei o livro de Agnes Keath “Land Below the Wind” que nos dá conta de um Borneo, dos anos 30, cheio de animais exóticos, lagos, pântanos, florestas impenetráveis e de um modo de vida que contrastava abissalmente com a vida de solteira da autora, em Hollywood. Os seus livros, sempre de carácter autobiográfico, são um relato fiel dos hábitos e costumes do Borneo, numa época colonial onde o relacionamento entre os titulares do Império e os nativos era estruturado entre práticas cordiais e a adopção de novos costumes. Mas será com o segundo livro, “Three Came Home”, que ficaremos a conhecer os detalhes da sua experiência mais sombria. Após a invasão do Borneo pelos japoneses, Agnes foi detida, com o seu filho de 3 anos, entre Janeiro de 1943 e Setembro de 1945, no campo de concentração de Batu Lintang em Kutching, Sarawak. Sofrendo a brutalidade e a repressão das regras japonesas, Agnes conseguiu ocultar um diário que escreveu nesse período, apesar da ameça de morte que pairava caso fosse descoberta. “Three Came Home” foi adaptado em 1950 pela Twentieth Century-Fox, com realização de Jean Negulesco e uma Claudette Colbert, arrojada e inquebrável, no papel de Agnes Keith.. O excerto de “Three Came Home” escolhido tem lugar no momento em que a invasão da ilha tinha ocorrido e os nacionais ingleses seriam feitos prisioneiros e reconduzidos aos campos de concentração. O marido de Agnes, Harry Keith, ocupava o cargo de Conservador das Florestas e Director da Agricultura do Norte do Borneo, facto que não obstou a que fosse igualmente detido até à libertação do Borneo por parte das forças aliadas australianas. Para quem tiver interesse em ver o filme completo, fica aqui  o link.

25.11.09

Did you ever...

Borneo - Nexus Beach
"Did you ever bathe in the hot blue water with your feet on a coral-reef strand, with starfish tickling the soles of your feet, with the bleached sand running beneath them, with the water melting into the sky in waves of sunshine, and your body melting into the water?"
Agnes Keith - Land Below the Wind - Fotogr: CRV

16.11.09

Holocaust - How it Was

 

"Renuncio a fazer perguntas, (...) Mas não descanso; sinto-me ameaçado, traído, a cada instante pronto para me contrair num espasmo de defesa. (...) Em redor, tudo nos é hostil. (...) Na marcha de saída e de regresso nunca faltam os SS. Quem poderia negar-lhes o direito de assistir a esta coreografia que eles próprios quiseram? (...) A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado. Trata-se de uma preciosa capacidade de adaptação, em parte passiva e inconsciente, em parte activa (...) estipular pactos tácticos de não agressão com os vizinhos; intuir e aceitar hábitos e as leis (...) Então nasce dentro de mim uma pena desoladora (...) é uma dor no seu estado puro, não temperada pelo sentido da realidade, pela intrusão de circunstâncias estranhas (...) Como entender tanta cegueira e tanta desumanidade? E como interpretar os resultados da discricionariedade pura? (...) apesar do reduzido número de sobreviventes, foram registados muitos testemunhos (...) Primo Levi in "Se Isto é Um Homem"

Primo Levi é um dos poucas sobreviventes dos 3 milhões de judeus assassinados em Auswitch. Contra todas as expectativas preconizadas pela "Solução Final", Primo Levi sobreviveu para testemunhar as atrocidades do maior campo de extermínio que alguma vez existiu na História da Humanidade. O seu relato objectivo reflecte a sua luta diária pela sobrevivência, num meio hostil, onde princípios, valores e o próprio homem, nada contam. Primo Levi relata com uma clarividência admirável o processo premeditado, sistemático, incisivo, persistente e continuado que se arrastou, durante quase dois anos da sua vida, no campo de trabalhos anexo a Auswitch. Em todos os livros que tenho lido sobre o tema, em nenhum consegui encontrar respostas para as questões que qualquer ser humano, dotado do bom senso do "bonus pater familias" colocaria. Retiro, de todas estes contributos históricos, apenas os objectivos nazis: a atomização da sociedade judaica, a supressão de todas as liberdades passíveis de um ser humano usufruir, a constituição de guetos físicos e espirituais, a destruição aleatória de testemunhas, a atrocidade cruel de silenciar pessoas. Em nenhum livro encontrei resposta para o problema que abalou o início dos anos 30. A erradicação dos judeus da vida pública alemã, as perseguições, a segregação. O culminar dos acontecimentos na famosa Noite de Cristal, em 39, quando mais de 500 mil judeus foram obrigados a fugir do país. A que é que se deveu toda esta segregação? Porquê os judeus e não os romenos, ou os russos, ou os italianos? Seria porque detinham a maior parte do capital? Por razões religiosas? Pura ostracização? Ódio?

Quanto às imagens da "Lista de Schindler", não são imagens reais. Da época. É apenas uma ficção. Ficção essa que, alguns meses após a sua estreia, levou Spielberg a confessar que tinha sido o filme que realizou que mais profundamente tinha afectado a sua vida. Contudo, trata-se só de uma ficção.

15.11.09

Kabbalah

Israel, próximo destino. Como já é hábito, inicio a preparação para estas viagens com a motivação de sempre. Leituras sobre a história e a geografia do país. Neste caso particular, aprofundo aquilo que conheço desde sempre como Cabala mas só após algumas leituras fico a conhecer, com outro detalhe, do que se trata. A Cabala, afasta-se aqui da terminologia ocidental, entendida como intriga perversa ou trama, pois para essa terminologia estamos devidamente alertados desde sempre. Falo antes da Cabala ou Kabbalah como meio de potenciar cada ser humano e elevá-lo, na sua grandeza interior, com o propósito de trazer clareza, compreensão e liberdade à sua vida. Tendo subjacente a ideia que todo o ser humano é uma obra em execução, a Cabala refere-se aos sucessivos estados da alma dizendo que são meros momentos transitórios de um projecto final a que estamos adstritos. Esse projecto final, terá como último objectivo a libertação do domínio do ego humano, criando afinidades com Deus. Quando li estas prerrogativas sobre a Cabala lembrei-me do "Albatroz Azul", o novo livro de Ubaldo Ribeiro, escritor que tanto gosto. É interessante o facto de Tertuliano, homem de idade avançada, que já deixou de ter medo do tempo, procurar encontrar explicações para o sentido da vida. Este livro fala-nos da continuidade, da herança que herdamos dos nossos antepassados e que pretendemos transmitir aos nossos filhos. Ao longo da vida, é comum reflectir e procurar justificações para os nossos diferentes estados de alma, que não dependem de nós, apenas as acções que adoptamos funcionarão como seus condicionadores. Julgo que é no momento em que olhamos para os nossos filhos, que encontramos respostas para o sentido da vida a que nos propusemos. Somos absolutamente livres de especular infinitamente. Com a liberdade que o pensamento admite e a misantropia própria de cada um. Não deixa de ser bom sonhar e, certamente, não é crime. Como nos diz Borges "o cego vive num mundo incómodo, indefinido, do qual emerge alguma cor. Eu, vivo num mundo de cores e quero contar, em primeiro lugar, que se falei da minha modesta cegueira pessoal, o fiz porque não é uma cegueira perfeita em que pensam as pessoas; (...) O meu caso não é especialmente dramático. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de fulminação, de um eclipse, mas no meu caso esse lento crepúsculo começou quando começei a ver".
Julgo que os estudos que vou iniciar sobre a Cabala serão muito úteis nesta visita a Israel. Será tarefa para enveredar pela via do eremitismo. E, claro, irei reler os Génesis. Nunca se perde nada em rever os ensinamentos de gente de bem.

28.10.09

Um guerreiro "Murut" em Nova Iorque

Bornéu - guerreiro "Murut"
Os "Murut" são uma tribo indígena do Norte do Bornéu. De pele morena e feições bonitas, apresentam traços de ancendência mongol. São hoje um povo afável que gosta de nos receber na sua aldeia. Honram-nos com danças guerreiras e com a sua culinária ao mesmo tempo que nos contam histórias dos seus antepassados, os famosos caçadores-de-cabeças do Bornéu. Pagãos, acreditam que os espíritos dos seus antepassados habitam nos cumes do Monte Kinabalu, enquanto que os espíritos dos adversários, mortos em combate, vagueiam nas entranhas das densas florestas.
No livro que tanto gostei "Land Below the Wind", de Agnes Keith, recordo o relato, da viagem a Nova Iorque, de Saudin - guerreiro "Murut" caçador-de cabeças - que Keith transcreveu com muito humor:
New York - Times Square
(...) So we entered into America and went to a very great village with a thousand thousand lights. It was night when we arrived, but when I looked up the sky above the village it was very bright and red and sparkling and there was light everywhere. And I said,"Is this morning?" And they said, "No, this is New York!"(...)
(...) Do you like New York? What do you like the best?" And I said, "Yes, I like New York, and I like best the red electric lights signs that run like streams of fire, and the lights that chase each other around like small animals."(...)

(...) One day I was walking and I came to a large place with many horses in it. (...) So I entered and saw large and wonderful horses, and handsome men with beautiful colored uniforms. They played music and the horses danced the music. I think horses in New York are smarter than are the policeman in my country. (...)
New York - Empire State Building
(...)The buildings were very tall. Sometimes I had to go up and down in what men call an elevator. This is a little room that you get into, and very suddenly it goes up. And when it stops your stomach does not stop. But when it goes down you feel that everything has gone out of you. I was always afraid in it, but said nothing, because I though men would say, "He is just a jungle men!"(...)
(...) I went also to see boxing and wrestling. Boxing is all right, but wrestling is too rough. In my country we do not act like that unless we wish to kill men.(...)

in "Land Below the Wind" de Agnes N. Keith -
Fotogr: CRV

21.10.09

Borneo - The Land Below the Wind

The Keith's home
(…) I always wanted to live on a hill.(…)

(...) All day in the sun the sides of our house, the doors and windows, lie open to let the beauty in, to embrace and absorb the fecund warmth, the deep strong scent, and the lazy, lovely languor.(…)

(...) as this included aborigines of Borneo, Malays, Chinese, Japanese, and Filipinos, (...). Native chiefs had come in from all parts of North Borneo, and many pagan head-hunter (...)

(...) My trips to the backquarters were triumphal entries, with naked natives springing to their feet and saying in Malay, "Greeting Mem" (...)

É desta forma envolvente que a californiana Agnes N. Keith nos descreve, no seu livro “Land Below the Wind” - vencedor do prémio Atlantic Non-Fiction -, a sociedade colonial britânica do Bornéo, dos anos 30. Com um relato simples e despretensioso Keith retrata a sua vivência na ilha, emoldurada por um quadro humano de uma enorme diversidade cultural, étnica, religiosa mas, ao mesmo tempo, impregnada de uma tolerância que joga com os contrastes coloridos das gentes. A sua escrita, na primeira pessoa, expõe a cumplicidade que desenvolve com o seu marido e a frescura que a sua chegada trás ao austero círculo social-colonial inglês da época. Neste seu primeiro livro, a narrativa deixa transparecer a intimidade de um ambiente familiar calmo e tranquilo. Keith é muito popular na Malásia, merecendo os seus livros destaque em todas as livrarias por onde passei. Conciliar a minha viagem ao Borneo com a leitura deste livro, revelou-se extremamente interessante pois o enredo do livro funcionou como uma mais-valia na percepção geográfica dos espaços e das comunidades locais.
Sem dúvida, foi com alguma emoção que visitei, perto de Sandakan – cidade localizada na costa este do Borneo, na província do Sabah - a lindíssima casa de estilo colonial, onde os Keith viveram, durante mais de 20 anos. Preservada, hoje, como museu, as suas portas estão abertas ao público, mantendo o estilo da época e alguns dos objectos pertencentes aos Keith. Agnes casou com o britânico Harry Keith, nomeado, pelo Governo de Sua Majestade, conservador das florestas do Bórneo. É da sua transição entre Hollywood e a sua adaptação ao Bornéu que este livro nos fala. E, fala-nos de uma ilha perdida no fim do mundo, a que Keith apelidou “Land Below the Wind”. A ilha do Borneo encontra-se estrategicamente excluída da fustigada rota de furacões que, anualmente, assolam todo o sudoeste asiático.
Enquanto visitava a casa, não resisti a aproximar-me das grandes janelas do primeiro andar e observar, tal como Keith tanto gostava, a bonita baía de Sandakan:

(...) The harbor of Sandakan lay below me. It was morning, and the water of the bay was motionless and flat and chromo blue as on the picture postal card. The roofs of the Chinese town were very red in the sun, and the tree-covered cliffs of the coast very green, and in the distance the mass of the jungle was a deeper, duller green". (...)

A vida de Agnes N. Keith foi "sui generis" em relação às californianas da sua idade. Em "Three Came Home", o seu segundo livro, Keith relata as privações que suportou, junto com a sua família, nos três anos que estiveram presos, num campo de concentração no Bornéo, aquando da invasão japonesa da ilha, no período conturbado da segunda guerra mundial. Este seu livro daria origem a um filme da Twentieth Century Fox com o mesmo nome.

"Land Below the Wind" é um livro que nos envolve em marés de tranquila sedução.
Fotogr: CRV