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1.11.12

Reflexões sobre o EU de todos nós


Todas as variáveis se concentram no sujeito. Aquele estranho que transportamos dentro de nós e que nos desafia sobre os enigmas do desconhecido. "Nenhum Caminho será Longo" é uma viagem dentro do nosso tempo, que questiona e suscita uma análise introspectiva como se cada um de nós fosse um projecto inacabado susceptível de mutações e incertezas. 

Numa prosa fluida, acolhedora, redentora das nossas perplexidades, Tolentino Mendonça identifica-nos como um reservatório por onde passa o tempo. Um tempo que causa dúvidas, constrangimentos e estranhezas. Um tempo, por vezes, demolidor das nossas convicções, surpreendentemente desafiador das nossas certezas, mesmo aquelas que sempre consideramos imutáveis. Tolentino refere a nossa perplexidade quando nos confrontamos com o intruso que surge dentro de nós e nos faz, certo dia, observar ao espelho e questionar "Quando eu me vejo, quem vejo? Quando eu me olho, é a mim mesmo que observo?". Surpreendermo-nos com nós próprios é o maior desafio e a maior incerteza, e é nesse momento que o passado constitui um fluxo de cinzas para passarmos a encarar o presente e o futuro como uma luminosa descoberta. Com um discurso previsivelmente teológico, Tolentino confronta-nos com os mistérios divinos, onde "Deus é uma pergunta, Deus é um assombro, Deus é um desconhecido". 
Camus
Contudo, foi a mensagem introspectiva que me despertou curiosidade e a recondução a outros autores que se debruçaram na mesma linha. Camus é aquele que refere que "começar a pensar é começar a ser consumido", desenvolvendo no seu livro "O Mito de Sísifo" uma análise sobre o jogo mortal que vai da lucidez perante a existência, à evasão fora da luz, ou quando o suicídio é a resposta para uma existência que deixou de valer a pena viver. É nesta mutação, nesta epifania inacabada, que todos nos situamos, uns mais do que outros, constituindo o factor determinante, a crise incontrolável que nos assalta, e que nos leva a questionar o inquestionável. 
Frederico Nietzsche
A resposta, dependerá da degladiação de cada um com as suas sombras, podendo oscilar o divórcio entre a agitação quotidiana da vida e a renúncia a todos os sofrimentos, por se entender que deixou de valer a pena o esforço de viver. Na encruzilhada, caso a opção seja feita pela verdade da descoberta, depois do percurso, depois das trevas e de "todos os lugares desertos e sem água", como referia Jaspers, chegamos à última curva do pensamento, onde o verdadeiro esforço reside em nos aguentarmos firmes até ao fim, examinando os primeiros indícios do oásis que criamos, onde rebentam pequenas gotas de clarividência e tenacidade numa vegetação subtil feita à nossa própria imagem. A "esquiva mortal", como refere Camus, constitui a fórmula da vitória absoluta sobre o deus que se instalara, cheio de insatisfações e com um gosto sádico pelas dores inúteis. É na transposição desse mundo obscuro que reside a alegria silenciosa. 
É na subtileza de reconhecer o sol, depois da noite, num esforço de descoberta que nunca mais cessará que se articula na perfeição o binómio feliz da esperança e da alegria. Tal como Nietzsche descreve é esse o momento em que ultrapassamos os medos do desconhecido, todas as inquietações enigmáticas, todos os receios, desaguando numa volúpia do conhecimento com a sensação de paz  assegurada e a certeza da segurança recuperada.

25.11.11

Rumo ao "nosso tempo"

«Dei ordens para irem buscar o meu cavalo ao estábulo. O criado não me entendeu. Fui eu próprio ao estábulo, selei o cavalo e montei. Ouvi ao longe o som da trombeta e perguntei-lhe o que era aquilo. Não sabia de nada, não tinha ouvido nada. Junto ao portão, fez-me parar e perguntou: «Aonde vais, senhor?» «Não sei», respondi, «para longe daqui, para longe daqui. Sempre para mais longe daqui, só poderei chegar ao meu destino». «Então sabes qual é o teu destino?», perguntou. «Sim», respondi eu, «ouviste o que eu disse: "longe-daqui", é esse o meu destino». «Mas não levas farnel», respondi eu, «a viagem é tão longa que vou de certeza morrer de fome se não me derem alguma coisa pelo caminho. Não há farnel que me possa salvar. Felizmente, é uma viagem verdadeiramente extraordinária». Franz Kafka in "A Partida"

Cada um com o seu destino, à procura do seu caminho, multiplicado pelos espelhos do tempo. Os gregos antigos definiam por chronos e kairos, aquilo a que hoje chamamos TEMPO. Enquanto o primeiro fazia referência a um tempo cronológico, sujeito à triologia clássica de passado, presente e futuro, o segundo identificava-se com “o momento certo”, aquele “tempo” em que algo de especial acontece, seja por revelação, descoberta ou introspecção. Recordo o momento em que Zaratustra obedeceu ao seu impulso para se afastar dos “homens”, resguardando-se no hiato que denominou como a “hora do supremo silêncio”. Um parêntesis que, não importa porque razão, o deteve na marcha do tempo. Posto isto, quando a realidade acontece e as decisões regressam, retoma-se a evolução do tempo. Zaratustra perplexo questionou-se sobre a transformação, a metamorfose, a revelação. Relutante, preparou-se para desbravar planícies e vales, dado que as montanhas já haviam sido cartografadas noutro tempo. Zaratustra habitava o cume dos seus próprios píncaros, se bem que sendo humilde, em relação à sua altura, conhecia bem a topografia das suas próprias impressões do terreno. Zaratustra empreendeu a descoberta do seu caminho, quando condensou os seus receios no desconhecido e na esperança, na transparência e na simplicidade, encarando a sua viagem com deslumbramento. Zaratustra regressou a si mesmo em redobrado silêncio, reunindo não só a percepção do seu caminho mas procurando, fundamentalmente, caminhar no seu tempo.
Painting: Salvador Dali - Time