8.4.12

Os Segredos da Capela Sistina (4)

 Michelangelo Buonarroti - 1508/12 - Tecto da Capela Sistina
 A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso
A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: " É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?" A mulher respondeu-lhe: "Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis". - Genesis 3, 1-3

Lourenço de Médici (1449 – 1492)
Com apenas vinte anos, qualquer jovem educado numa corte erudita sentir-se-ia mais inclinado a desfrutar os prazeres lúdicos da vida do que a assumir o papel de patriarca da casa dos Médici. Porém, Lourenço, o Magnífico, investiu-se no cargo com a maior dignidade e sonhou magnanimamente em tornar Florença numa Atenas sobre o rio Arno. Acolheu no seu círculo cultural uma multidisciplinaridade de matérias, algumas, potencialmente explosivas para a época, estendendo a sua protecção e filantropia a áreas não só condenadas, mas também rotuladas de heréticas por Roma. Nesta designação incluíam-se, certamente, os estudos judaicos da cabala e as obras de Platão, resgatadas por Cósimo, que estariam na génese do pensamento filosófico da escola de Florença. Reconhecido em toda a Europa, o núcleo constituía uma sombra incómoda ao conservadorismo papal de Roma, ao monoteísmo cristão e aos ensinamentos de Aristóteles, acolhidos pelo Vaticano. Lourenço, preocupado em limar cisões, deslocou-se a Roma, em 1471, com o intuito de prestar tributo ao Papa, mas as suas diligências não foram suficientes para Sisto IV lhe perdoar o atrevimento das liberalidades culturais adoptadas. Determinado em destruir os Médicis, o papa retirou-lhes o monopólio da venda de alúmen ao Vaticano, atribuindo-o aos Pazzi, seus inimigos mortais que, em jeito de estucada final, conspiraram para assassinar Lourenço e o seu irmão Giuliano, por altura de uma missa, na Catedral de Florença. No meio da eucaristia, Giuliano morre apunhalado pelos mandantes dos Pazzi, tendo Lourenço conseguido escapar ferido, pelos subterrâneos da Catedral. Os anos que se seguiram, seriam dedicados à reconstrução das finanças e do prestígio da família, ao alargamento das relações comerciais, ao patrocínio de novos talentos e à encomenda de obras de arte que constituiriam, para as gerações futuras, o grande legado do Renascimento.

É nesta conjuntura tumultuosa que Michelangelo é descoberto por Lourenço. Acolhido na corte, o jovem escultor partilhou com os filhos dos Médici as aulas dos mestres eruditos. Ghirlandaio, Beltoldo e o poeta Poliziano foram seus mestres, mas seriam Ficcino e Pico della Mirandolla que seriam os artífices carismáticos responsáveis pela ponte intelectual que lapidaria a personalidade de Michelangelo. Educado numa fé plural e universal, que preconizava a harmonia entre o monoteísmo cristão, o pensamento platónico e a cabalistica judaica, Michelangelo foi instruído que a "Fonte Única" constituía a convergência para a redenção individual. Sabemos que Michelangelo estudou profundamente o Midrash, o Talmute e a Cabala, tendo integrado, secretamente, os seus princípios em todas as figuras bíblicas que formam o tecto da Capela Sistina. No díptico que compõe a cena da expulsão do Paraíso observam-se três momentos que, numa primeira impressão a ilustração parece típica da história à qual a Igreja dá o nome de "pecado original". No entanto, se observarmos a cena atentamente, verificamos que Michelangelo introduziu, subversivamente, alguns detalhes que fogem à divulgação cristã, nomeadamente, quanto ao fruto proibido. A única excepção a esta interpretação ocorre precisamente nos ensinamentos judaicos onde, a árvore do Conhecimento, é uma figueira. Michelangelo retratou, no tecto da capela Sistina, uma figueira sendo o fruto oferecido pela serpente a Adão, não a clássica maçã, nomeada no cristianismo, mas antes, um figo, nos termos do Antigo Testamento. Michelangelo, de acordo com as Antigas Escrituras, promove em Adão a iniciativa de recolha e aceitação do fruto proibido. Esta postura, contraria a teoria cristã que remete para a mulher a responsabilidade do papel de prevaricadora, provocadora e pecadora. Eva, conforme todos nos ensinaram, estende a maçã a Adão, num movimento mímico atrevido, conveniente para o papel de subalternização da mulher, construído e difundido pela hegemonia católica. Mas, na realidade mistica das escrituras, não é assim que reza a história. Se lermos o Antigo Testamento, de acordo com a aclamação professada na doutrina judaica, a Árvore do Conhecimento - do Bem e do Mal era uma figueira e não uma macieira. Daí que Michelangelo tenha optado, numa abordagem inédita para a época, por partilhar a culpa entre o casal primordial, algo que nunca havia sido aflorado em nenhuma representação ocidental, e que se enquadra nos ensinamentos do midrash.
Outra particularidade, que tornou esta pintura imprópria para a pudicícia cristã, até aos finais do séc:XIX, refere-se à escandalosa sugestão que, no primeiro momento da cena, à esquerda, nos oferece a postura de Adão e Eva. É que, ambos, não tendo ainda cometido o pecado original, e inocentes da sua nudez, aparecem aqui numa pose, claramente constrangedora para os olhos incautos dos renascentistas e iluministas, produzindo sugestões maliciosas aqueles que, não tendo, à data, aptidões cinematográficas, conseguiam facilmente equacionar o desfecho matemático, após a rotação da face da inocente Eva.

2 comentários:

HELENA AFONSO disse...

Olá Cristina, é um deleite ler as histórias da arte em Itália,sobretudo da arte de Miguel Angelo Viu as minhas histórias, também da arte de Angkor......?
bjo Helena.

Paralelo Longe disse...

Olá Lena,

Que bom vê-la por aqui.
Tenho ído espreitar o seu blog e a viagem ao Oriente foi, certamente, muito bonita a apurar pelas fotografias que publicou.

Quanto aos segredos da Capela Sistina nunca tinha abordado o tema até ler o livro do Benjamin Blech que nos abre as portas para um universo que se encontra escondido por detrás das cores quentes e dos desenhos harmoniosos da Capela. Estes temas fascinam-me.
Já estou a preparar a próxima publicação.
Obrigada pela sua visita.
Bj Cristina