Acordei com o som da televisão. Estava atrasada para as aulas e corri para a sala. Encontrei o meu pai e a minha avó pregados na televisão a seguir atentamente as notícias. «O que se passa?» Lembro-me do meu pai responder em tom afável ”Hoje não há aulas, podes ir brincar”. Curiosa, decidi ficar por ali. Sentei-me a ver televisão mas recordo-me que eram as expressões de espanto, os comentários e as pausas de silêncio que cativavam o meu interesse. Pedi que me explicassem o que se passava e perguntei se era bom ou mau. As palavras revolução e golpe militar eram banais lá em casa. O meu avô, oficial do exército, republicano convicto, idealista, revolucionário, habituara a família às prisões e deportações militares para Timor, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, no quadro das conspirações em que participou, ao longo da ditadura, numa facção política não esquerdista mas adversa ao Salazarismo. Vivíamos em Campo de Ourique, num prédio que os meus avós compraram quando se casaram, em 1919, quando o bairro era um amontoado de olivais situado numa zona limítrofe de Lisboa. Era ainda pequena mas guardo na memória a sequência dos acontecimentos como se os estivesse a viver hoje. As notícias na televisão. As vozes fortes na rádio de Joaquim Furtado e Luís Filipe Costa, locutores do Rádio Clube. As músicas de intervenção e a Grândola Vila Morena passada repetidamente. A minha curiosidade levou-me frequentemente à janela. Tinha recomendações para não a abrir por isso encostei-me ao vidro para estar mais perto da rua. Populares corriam e gritavam que o Quartel do Rato, mesmo ali ao pé de casa, já estava tomado. Agitavam lenços brancos e procuravam reunir pessoas para se dirigirem ao Carmo. Muitos gritavam “Liberdade, Liberdade” num entusiasmo que me soava estranho pois achava que sempre tinha tido liberdade para fazer tudo o que queria. Na televisão, os tanques, a revolução pacífica, os cravos nas pontas das armas, o sorriso dos militares, as gentes que saudavam as câmaras e o mito do “orgulhosamente sós” que parecia que se desvanecia a cada momento. O dia foi longo e as opiniões lá em casa dividiam-se quanto ao rumo dos acontecimentos. Falava-se no fim de uma época, das perseguições, na liberdade que podia ser adquirida, nas consequências se alguma coisa falhasse, no futuro da governação. Findo o dia deitaram-me, já a noite ia longa. Tal como de manhã, continuei a ouvir ao fundo o som da rádio e da televisão até que caí num sono profundo. Não sei se sonhei com um futuro melhor, pois acho que ainda não tinha a noção do que era isso. O que é curiosa é a impressão que me ficou deste dia revolucionário, o “punctum” de que Barthes fala e que convergiu, claramente, não para os acontecimentos históricos que se desenrolavam lá fora, mas para todas as explicações que, cuidadosamente, me foram prestadas. Dotar uma criança da informação necessária, de modo a percepcionar o seu mundo em transformação revelou-se determinante para a minha compreensão dos acontecimentos. Direitos, liberdades e garantias. Quem sabe se não começou aí o meu interesse pela igualdade e justiça para todos.
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25.4.10
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