Borges fala-nos do processo pictórico de inserir um quadro dentro de outro quadro, ou seja, quando uma ficção vive dentro de outra ficção. Exemplos. Cervantes incluiu no "Dom Quixote" uma novela; Lúcio Apuleio intercalou no livro "O Asno de Ouro" a fábula de Cupido e Psique. Flann O'Brien incluiu no "At the Swim-Two-Birds" a história de um estudante de Dublin que escreve um romance sobre um taberneiro de Dublin. Os dois planos - o primeiro ficcional e o segundo - não se misturam, apesar do labirinto verbal a que somos sujeitos durante a leitura do enredo. Sabemos, antecipadamente, que ambos os planos são parte integrante de um todo ficcional unificado, onde não se produz qualquer confusão. Ao pensar nisto, constato que se podem premeditar ficções que não jogam com nenhum destes planos ficcionais. E aí chegamos a um outro plano. O real. É interessante testar ficções premeditadas, em situações da vida real. Leva-nos isso aos labirintos de Creta. Onde se jogam emoções. É este o labirinto de Creta, cujo centro é um enorme Minotauro, aquele que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. E tiram-se notas. E é este o labirinto onde Maria Kodama se perdeu. E depois vende-se. E o labirinto de Creta continua com um enorme Minotauro no centro, tal qual Dante imaginou. Onde eu e os outros nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto. Labirintos de pedra.
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6.11.09
20.9.09
Não costumo falar aqui dos livros que estou a ler, mas hoje faço uma excepção. Talvez porque este livro fabuloso de Primo Levi - que estava a olhar para mim na estante há bastante tempo - tenha mexido imenso comigo. Li-o de um trago, de modo impulsivo e absolutamente rendida, não só em relação aos factos, como à clarividência do relato.Não sei se foi da intensidade do livro, mas esta noite tive um sonho absolutamente surrealista : sonhei que ía num barco pequenito, daqueles que gosto. Encontrava-me no deck a ler o livro quando, de repente, começa a tocar uma música conhecida. Estranhei. Fui ter com o timoneiro e perguntei-lhe o seu nome e o porquê daquela música. Disse que se chamava Caronte e que trabalhava para um tal de Don Alighieri. Mostrou-me a fotografia, que achei medonha, - apesar de ser pintada pelo meu amigo Botticelli, que ultimamente se anda a cruzar muito comigo - e que tinha ordens para tocar aquela música até ao fim da viagem. Achei tudo aquilo muito suspeito, ainda por cima falavam italiano. Pensei logo na Máfia e em esquemas complicados. Tinha que fugir. Peguei no telemóvel e liguei para a minha mãezinha. Saltei borda fora, - a minha mãezinha é fantástica porque me deu um tm à prova de água, e eu também sou fantástica porque sei saltar borda fora. Localizaram-me. Passado um bocado chegou um helicóptero com um agente secreto do Governo de Sua Majestade. O meu salvamento foi in extremis, em alto mar, mas valeu a pena, porque logo recebi um convite para participar no próximo filme do 007. Nisto acordei. Não, nada disso, não estava ao meu lado o 007. Quando olhei, só estava mesmo o 001.
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Livros; Sonhos
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